Chegamos em novembro, o mês da COP 30. Desde o início deste ano, a conferência tem movimentado muitos debates em torno não apenas do evento em si, mas sobre os rumos das políticas do Brasil e do mundo para mitigar os efeitos da crise climática. Enchentes, desabamentos, ondas de calor, queimadas e todos esses sintomas de um colapso ambiental já se podem sentir em todo o mundo e a tarefa de pensar em soluções precisa ser coletiva e participativa.
As expectativas são altas: essa será a Conferência com a maior participação popular da história. A COP é o principal espaço de debates sobre o meio ambiente em escala mundial, com representações de 196 países, presença de lideranças mundiais, negociadores dos países membros da ONU, especialistas, cientistas, ativistas e, no Brasil, teremos uma ampla participação de povos e comunidades tradicionais, quilombolas, ribeirinhos e camponeses.
Queremos que essa COP seja histórica não apenas porque a Amazônia brasileira receberá o mundo para falar sobre meio ambiente, ou pela ampla representação. Queremos que seja histórica, sobretudo, porque o encontro tem o potencial real de negociar soluções e alinhar compromissos reais e coletivos para mitigar os efeitos da crise climática.
A COP 30 acontece em uma das nossas vitrines para o mundo quando o tema é preservação ambiental. A Amazônia é central para a regulação do clima em toda a América do Sul, absorve grandes quantidades de dióxido de carbono e abriga uma diversidade de fauna e flora nativas tão grande que até hoje existem espécies desconhecidas pela ciência. Mas nem só da Amazônia se faz a biodiversidade do Brasil. Nosso país tem mais outros cinco biomas: Cerrado, Mata Atlântica, Pampa, Pantanal e a nossa Caatinga.
E é justamente do potencial da Caatinga para mitigar os efeitos da crise climática que eu quero falar hoje. A palavra “caatinga” tem origem no tupi-guarani e significa “mata branca”, uma referência à aparência da vegetação no período de seca.
Acontece que a nossa mata branca esconde uma riqueza gigante: uma pesquisa pioneira, conduzida pelo Observatório da Dinâmica de Carbono e Água na Caatinga, descobriu que o bioma é mais eficiente que a Amazônia na absorção de CO2 da atmosfera, com a vegetação local agindo como um verdadeiro filtro natural para o gás carbônico. Mas porque a Caatinga não recebe a mesma atenção, recursos e medidas de preservação que os demais biomas, se ela é ainda mais eficiente na mitigação dos gases de efeito estufa?
A omissão do poder público quando o tema é preservação da Caatinga tem raízes muito antigas. Ela se baseia numa visão retrógrada sobre o Nordeste e esse bioma. Uma visão que enxerga a nossa mata como de menor valor em comparação com os demais biomas. E isso, muitas vezes, está incrustado até na nossa mente.
Por exemplo, quando falamos em floresta, qual a imagem que vem à sua cabeça? Muito provavelmente a da própria Amazônica ou da nossas áreas de Mata Atlântica, não de um bioma exclusivamente brasileiro, como a Caatinga, porque ela, assim como a região do Semiárido, sempre foi vista como infértil.
Essa narrativa criada há tanto tempo e praticamente enraizada no imaginário das pessoas, sendo repetidas há gerações, não é exatamente uma verdade. Caso você não saiba, nós temos o Semiárido mais chuvoso do mundo, uma referência global na criação de tecnologias sociais de convivência com o clima. A nossa Caatinga é um bioma que só existe no Brasil e cobre 11% do território brasileiro, passando por onze estados da federação.
Se, por um lado, os incêndios criminosos, o garimpo e o desmatamento da Amazônia viram manchete nos jornais do Brasil e do mundo, a ofensiva do agronegócio e da mineração sobre a Caatinga ainda são invisibilizados. Afinal de contas, na visão deles, essas terras secas são “inúteis”, “improdutivas” e devem ceder espaço para o deserto verde das monoculturas de milho, soja e pastagem para o gado – que, diga-se de passagem, não é uma espécie adaptada ao clima Semiárido e, por isso, exige muito mais recursos para ser mantida viva.
O processo de destruição do Agro é duplamente cruel: ele destrói ecossistemas inteiros para manter seu modelo de produção altamente destrutivo e ainda devasta um bioma que só existe no Brasil e que é o mais eficiente na mitigação dos efeitos da crise climática.
Em tempos de COP 30, o momento nos permite olhar para esse tema com um olhar amplo e voltado à construção de alternativas reais, que conduzam o nosso país para uma transição ecológica e que proteja nosso meio ambiente da sede do lucro.
Diante desse cenário, é urgente que voltemos nossos olhos para o que vem acontecendo na Caatinga, para denunciar os ataques a um território que deveria estar sendo protegido. Precisamos lutar por medidas que mitiguem os impactos do que já foi devastado e impeça que esse cenário avance.
Teremos uma ampla participação de entidades, coletivos, parlamentares e ativistas caatingueiros. Temos uma tarefa nessa COP: dar visibilidade ao nosso bioma 100% brasileiro e que pode fazer parte das soluções para mitigar os efeitos da crise climática.
Cabe a nós mostrar a necessidade urgente de preservação da Caatinga e de respeito e valorização dos povos e comunidades que aqui vivem, produzem e são guardiões da nossa biodiversidade. É pelo nosso nordeste brasileiro, mas também pelo nosso planeta e todas as próximas gerações.

