Se olharmos para a história do Brasil, o berço da desigualdade está relacionado com o fato das estruturas de poder de nosso país nunca terem implementado uma reforma agrária e uma divisão de terras. O povo negro escravizado ganhou uma liberdade que não garantiu a base para o desenvolvimento da vida, um lugar para morar, dormir, produzir alimento.
Essa injustiça nunca foi corrigida e, ao contrário, foi acentuada por um modelo de desenvolvimento das cidades que joga a população pobre – em sua maioria negra – para favelas e espaços com menor acesso a direitos como saneamento, água, alimentação de qualidade, estruturas de saúde, educação e por aí vai.
O surgimento do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) são respostas mais que naturais do povo — são existenciais — dentro de um país onde a falta de terra e teto resultam na ausência de outros direitos. Se não há uma terra para plantar ou um teto para dormir, como garantir o pão nosso de cada dia?
O papel dos movimentos sociais no Brasil
Avançando aos dias de hoje, o momento político é de mudança no lugar que os movimentos sociais ocupam no Brasil. Já não se trata só de resistir a retrocessos ou reagir a ataques. Estamos vendo uma disputa direta sobre quais devem ser as prioridades do país e qual o projeto de nação teremos. E os movimentos estão tendo um papel fundamental na construção de uma agenda para a esquerda brasileira.
Pauta mais popular do nosso campo hoje, o fim da escala 6×1 é fruto de uma luta organizada de trabalhadores e trabalhadoras que constroem movimentos para mudar suas condições concretas de vida. Essa pauta não surgiu agora, mas ganhou força porque encontrou organização.
O Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) impulsionou a demanda, fez sair do cotidiano silencioso de milhares de trabalhadoras e trabalhadores e ocupou as ruas, as redes e o debate público. A mobilização nacional mais recente, no dia 15 de abril, veio justamente para ampliar a pressão, afirmando a urgência por mudanças, logo após o presidente Lula enviar um projeto em regime de urgência na Câmara dos Deputados.
Sabemos o quanto a escala 6×1 esgota, limita e rouba o nosso tempo de qualidade. É dessa experiência compartilhada por tantas pessoas que cresce a luta. Aqui, o que está em jogo não é “só” uma jornada de trabalho, mas o direito ao tempo, ao próprio descanso e à dignidade. É a urgência da vida.
Essa mesma lógica aparece na realidade dos trabalhadores e trabalhadoras de aplicativo. A precarização é vendida como “autonomia”, buscando encobrir as longas jornadas de trabalho, a renda instável e a falta de proteção.
Nesse cenário, o PLP 152 foi apresentado como uma proposta de regulamentação dos motoristas de app, mas que estava longe disso. O projeto reforça um modelo que mantém a precarização dos trabalhadores e trabalhadoras de aplicativo, sem garantir direitos como proteção social, renda justa e condições dignas de trabalho. É uma disputa sobre que modelo será imposto: um a serviço dos trabalhadores ou um modelo que atende aos interesses dos patrões, donos das big techs.
A pressão da classe trabalhadora organizada foi decisiva para que o tema avançasse, fazendo o governo se posicionar com mais firmeza e colocando a regulamentação do trabalho por aplicativo na agenda institucional. Com uma grande articulação ministerial, o ministro Guilherme Boulos e o presidente Lula passaram a tratar o tema publicamente, defendendo a necessidade da regulamentação e reconhecendo as más condições de trabalho. Ao conectar as lutas, o que se constrói é mais do que resistência: é a agenda do mundo do trabalho, é a dignidade se tornando pauta.
A luta contra a fome e a organização da solidariedade popular
As Cozinhas Solidárias são um dos exemplos evidentes de como essa organização popular tem sido capaz de transformar a política e envolver novos atores. Impulsionadas pelo Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem-Teto (MTST) e pelo Movimento Sem Terra (MST), as cozinhas nasceram como uma resposta direta à fome, avançaram e passaram a influenciar a construção de políticas públicas voltadas à garantia da segurança alimentar.
Não são apenas ações pontuais, mas espaços organizados que garantem comida, fortalecem o vínculo da comunidade e estruturam uma rede de solidariedade. A cozinha é uma ação que combina a resposta imediata a um problema e a construção política, pautando a existência de outros caminhos melhores e possíveis, sob uma lógica que não é a do capital.
Em momentos mais críticos, como nas épocas de chuva no Recife, essa capacidade de resposta se intensifica. A abertura de cozinhas emergenciais pelo MTST nesse período mostra como a organização popular se mobiliza para a garantia do que deveria ser básico.
O território não é só o lugar onde os problemas aparecem, mas também onde se constroem as soluções. Fazendo isso, os movimentos sociais não só enfrentam a fome, mas apontam caminhos para políticas públicas partindo da realidade e da experiência de quem vive esses desafios no dia a dia.
Congresso Nacional: o maior inimigo do povo
Não faltam motivos para dizermos que o Congresso Nacional é, hoje, o maior campo de batalha da política brasileira. Desde o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, deputados e senadores acumularam poder e dinheiro, a ponto de tentarem controlar o investimento do Executivo no país, um controle não a partir dos interesses do povo ou alinhados ao projeto eleito para governar, mas a partir dos interesses dos próprios deputados e senadores.
Além da disputa orçamentária e por direitos, o Congresso também protagoniza um ataque nada velado à democracia brasileira. O último episódio desse trágico filme foi a aprovação do “PL da Dosimetria”, que reduz as penas não só dos golpistas do 8 de janeiro, mas também de pessoas que cometeram crimes hediondos.
Se na esfera federal os ataques do Legislativo são muitos, essa disputa é reproduzida nos estados e municípios. Na Câmara do Recife e na Assembleia Legislativa de Pernambuco, o conservadorismo opera pautando ataques aos direitos das mulheres, das pessoas LGBTQIAPN+, pessoas negras e grupos minorizados.
Alguns exemplos dessa ofensiva são os votos contra as cotas raciais, o repúdio a resoluções federais que protegem crianças vítimas de abuso e a criação da Semana da Síndrome Pós-Aborto, entre outros projetos. Do outro lado, parlamentares progressistas e vereadoras se colocam como barreira diante das tentativas de retrocesso e de fazer do plenário um palanque ideológico.
A construção de um futuro de direitos
Não temos dúvidas que a possibilidade de um futuro diferente para o país passa pela organização da classe trabalhadora em movimentos que, seja pautando a agenda nacional ou construindo a luta territorial, apontam para modos de vida diferentes do sistema capitalista, que destrói a dignidade e retira direitos dos nossos.
E faremos essa luta em todas as esferas que forem necessárias. Montando Cozinhas Solidárias improvisadas para atender atingidos pelas chuvas, fazendo ocupação no campo e nas cidades e também disputando no parlamento os rumos dos municípios, estados e do país.
A história do Brasil mostra que nossa existência só foi possível graças à luta e à coletividade. Essa segue sendo a única forma de apontarmos para um futuro não só possível, mas melhor, com respeito à vida e ao meio ambiente, sem fome e com dignidade para todas e todos.

