Grupo Saúde Mental & Militância no DF

Saúde Mental e Militância no Distrito Federal (SMM-DF) é um grupo vinculado ao Instituto de Psicologia da UnB, que visa potencializar a militância no campo da saúde mental; fomentar a abordagem da temática da saúde mental na e pela militância organizada (partidos, sindicatos, movimentos sociais); e fortalecer o campo da saúde mental no Distrito Federal (DF).

Gerson entrou na jaula e não mais saiu: sua morte é mais um sinal de falência da sociedade

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Não bastando as jaulas que teve que driblar e domar durante a sua vida, Gerson foi jogado em outras após a sua morte | Crédito: Marcello Casal/Agência Brasil

Vivemos numa sociedade que encurrala seus membros como Gerson, da mesma forma que faz com os bichos, em soluções desesperadas

Gerson de Melo Machado, 19 anos, entrou numa jaula de leões em João Pessoa (PB), para não mais voltar. Conhecido como “Vaqueirinho”, o jovem teve sua história marcada por violações de direitos e desumanização. Era diagnosticado com esquizofrenia, tendo sido separado de seu contexto familiar e institucionalizado múltiplas vezes.

Antes de entrar na jaula dos leões, Gerson foi jogado em outras jaulas igualmente perigosas e violentas desde a sua infância. Jaulas da pobreza, e outras tantas que se supõem acolhedoras, abrigadoras, educativas, socializadoras ou de tratamento.

Sua morte é mais um sinal de falência desta sociedade. Por outro lado, é também uma amostra da vitória e do sucesso desta mesma sociedade que se pauta no enjaulamento, a fim de sua própria reprodução.

Na sua carta de demissão como psiquiatra e diretor do Hospital Psiquiátrico de Blida-Joinville, na Argélia, em 1956, Frantz Fanon diz o seguinte: “A função de uma estrutura social é edificar instituições atravessadas pela preocupação pelo homem. Uma sociedade que encurrala os seus membros em soluções desesperadas é uma sociedade inviável, uma sociedade a substituir”.

Vivemos numa sociedade que encurrala seus membros como Gerson, da mesma forma que faz com os bichos, em soluções desesperadas. Zoológicos, manicômios e prisões. Pessoas como Gerson são enjauladas desde a idade mais tenra. Alguns já nascem enjaulados, aliás.

Para que isso tudo seja ocultado, distorcido e, pior, para que seja justificado e naturalizado, pessoas como Gerson precisam ser desumanizadas, física e simbolicamente. Assim, fica fácil aceitar e defender que para não-humanos com Gerson, o que resta são jaulas.

Não à toa, um dia depois de sua morte, foi publicada a decisão de internação de Gerson em Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTP), também conhecido como manicômio judiciário, e que já deveria estar fechado em cumprimento à Lei 10.216/2001 e à Resolução nº 487/2023 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). É como se, numa piada de mau gosto, sem humor nenhum e apenas perversidade, o judiciário dissesse que para Gerson só restava mesmo a jaula – para humanos.

Segundo matérias jornalísticas, Gerson sonhava em ir à África domar leões. Mal sabia ele que já era mestre em domar as violências as quais fora submetido e que também o moldaram. Seus comportamentos tidos como infrator, criminoso, sempre foram meios pelos quais Gerson se punha a domar o indomável: a violência de nossa sociedade. A normalidade de sua anormalidade.

O simbolismo aqui salta aos olhos. O indomável que sonhava em domar outra espécie, tida como indomável. Talvez, Gerson se espelhasse na liberdade dos leões nas savanas. Talvez, ao olhar os leões livres no espelho, ele enxergasse a sua própria imagem de aprisionamento.

Por isso mesmo, entrar numa jaula talvez fizesse sentido. Ver aquele animal, que é um exemplo de indomável, só que enjaulado, para poder crer que as jaulas não eram exclusivas a ele. Libertar a leoa para libertar a si mesmo. Talvez, Gerson não quisesse ir à África domar leões. Pelo contrário, seu desejo poderia ser o de ver, de tocar e conhecer a liberdade – aquela que nunca teve.

Não bastando as jaulas que teve que driblar e domar durante a sua vida, Gerson foi jogado em outras após a sua morte. Nas redes sociais, inundaram comentários, compartilhamentos a regozijar a morte do Vaqueirinho, como forma de punição ao que ele não era; como se ele merecesse ter sido estraçalhado e morto; como se nem mesmo a jaula era suficiente para ele.

Às pessoas como Gerson – ou melhor, às não-pessoas como Gerson –, prender não serve mais: é necessária a morte. Pior, é preciso ver, filmar, postar e comemorar sua morte, continuando a matá-lo. Parece que Gerson ainda está na jaula, só que agora sendo estraçalhado por bocas, mãos e dedos humanos – muitos deles que nem o conheciam.

Por fim, não sou religioso, mas não consegui deixar de pensar na Bíblia, especificamente no versículo 22, do capítulo 6º, de Daniel: “O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou a boca dos leões, para que não me fizessem dano, porque foi achada em mim inocência diante dele; e também contra ti, ó rei, não tenho cometido delito algum”.

No caso de Gerson, e de nosso mundo terreno, infelizmente o anjo não fechou a boca da leoa, mesmo tendo toda a inocência do Vaqueirinho diante dela. A leoa agiu como uma leoa. Inclusive, que ela possa ser bem cuidada, já que não tem culpa de nada – até porque ela também está enjaulada.

A questão a se perguntar é: por que nós, como sociedade, não temos agido humanamente com humanos como Gerson, cuidando deles?

*Pedro Costa é membro do Grupo Saúde Mental de Militância do Distrito Federal UnB.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Editado por: Clivia Mesquita

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