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Ética e política, mística e política

Ao Chiquinho, Papa Francisco, na política com ternura e no cuidado com a Casa Comum.


Ao Chiquinho, Papa Francisco, na política com ternura e no cuidado com a Casa Comum.

Os últimos acontecimentos, notícias e denúncias exigem retomar a reflexão sobre a relação entre ética e política, mística e política. A ação e a atividade política estão em profunda crise, seja no cotidiano, seja nos partidos políticos, nos parlamentos, nos governos e na sociedade como um todo.

Quem conhece hoje, por exemplo, os partidos políticos existentes, muitos surgidos nos últimos anos, com nomes estranhos. Outros, históricos, estão quase em extinção como o PSDB e até mesmo o PDT. Outros foram extintos, como o PFL. Quase nenhum partido caminha hoje em águas tranquilas. Com o bolsonarismo e a volta de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos (EUA), e as ameaças à democracia, tudo ficou ainda mais confuso.

Como enfrentar esta realidade? Segundo a Revista Casa Comum, em “Educação política é caminho promissor para recuperar crença na democracia – Conheça iniciativas de formação política e cívica que estimulam a participação cidadã de forma consciente e engajada”: “Encantar a política. A iniciativa foi criada em 2020 em meio a um cenário de emergência diante da pandemia da covid-19, agonia, retrocessos e um ‘povo triste e abatido’, como conta Sônia Gomes Oliveira, presidente do Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB), uma das organizações que integra o Encantar a Política” (Revista Casa Comum, nº 8, jan/fev/mar 2024, p. 32).

Diz Sônia na Revista: “A linguagem utilizada pelo Papa Francisco na Carta Encíclica Fratelli Tutti fala de justiça social, de amor, de vida, desse modelo de democracia e do cuidado com o outro e com a Casa Comum, sem agressão, mas em um processo de diálogo. E eu gosto muito de uma frase dele que é: Não precisamos ser muros, podemos ser pontes. É a ideia de não precisar usar a fé ou a miséria do outro para falar sobre política.”

“Temos uma dupla tarefa: destruir as formas tradicionais de fazer política, bem conhecidas e crescentemente repelidas pela sociedade; e construir uma nova forma de fazer política, onde não se repitam as práticas burguesas e tampouco as esclerosadas e estreitas práticas das esquerdas tradicionais. Sem dúvida, a prática de hoje é garantidora da prática de amanha. Não disputamos apenas o Estado, o Parlamento ou o Poder como tal, embora esta seja a disputa principal. Disputamos também a credibilidade, a confiança numa determinada prática e em determinados valores, totalmente subvertidos e liquidados na atual cena política brasileira; disputamos, enfim, a hegemonia em todos os setores da sociedade. A luta política pressupõe e exige democracia, garantia de que todos possam expressar-se; todos tenham igual acesso à informação e as decisões sejam tomadas com a participação mais ampla possível.” (Ética e política, Selvino Heck, abril/1990).

“Não são apenas a razão e a teoria que informam o militante revolucionário, que o levem à luta, ao compromisso, ao sacrifício, à dedicação. Mas que eu chamo de mística, ou pode ser chamado de paixão. Sem mística, sem paixão não se faz política, ou esta torna-se insossa, desbotada, não humana”. (Mística e política, Selvino Heck, abril/90).

Segue o texto de Mística e Política: Sem mística, a política torna-se razão pura. E sendo pura razão, acaba mecanicista, dogmática, doutrinarista. Não envolve mais o ser humano como um todo, com suas emoções, seus vacilos, suas contradições e seu vigor. A mística sustenta a militância, qualifica-a, move-a, torna-a mais humana e global. A mística vai além da razão teórica, faz o ser humano envolver-se todo, inteiro, na sua ação. Mística é vida, é alimento, é explosão de corações e mentes.

A mística é o que sustenta a vida, o que a alimenta, o que a recheia, o que a faz ir além da razão, o que a informa do transcendente. Fazem parte essencial da relação entre mística e política: a) Ternura e afetividade; b) A gratuidade; c) A indignação, a revolta, o inconformismo; d) A alegria e a generosidade; e) A busca da verdade e f) Homem novo, mulher nova.

Mudar as estruturas sociais e econômicas não é suficiente se não mudarmos o homem, se não acabarmos com seu egoísmo individualista, seus vícios capitalistas, sua incapacidade de doação, seu racionalismo exacerbado. O ser humano é um ser global cujas forças espirituais, morais devem ser impulsionadas e revividas no fazer político diário. A mística dá este impulso, faz esta relação, cria e recria o individual vivido no coletivo.

É preciso dar um sentido maior à luta e perceber toda sua dimensão. E criar uma mística capaz de empolgar as massas, superar o puro racionalismo e uma dinâmica de identificação coletivas. Para que se evite a robotização da política ou que se rotinize a prática política. A mística consciente assumida ajuda a atravessar o tempo, solidifica a militância, reanima-a a cada momento, faz que transcenda a dureza do dia a dia, o sensabor dos mesmos e aparentemente inúteis gestos cotidianos, estimula o sentimento que foge ao controle, faz explodir a paixão revolucionária. (Mística política, Selvino Heck, abril/1990).

O desafio em 2025 é, e continua sendo, como escrito em Ser é poder, publicado em 2002 pelo CEBI, Centro de Estudos Bíblicos, e Editora Paulus, livro organizado por Luiz José Dietrich: “Eis, sem dúvida, um enorme desafio. Como construir valores humanistas, libertários, socialistas? Como viver e praticar uma ética solidária, respeitadora do outro e da outra e da sua individualidade, compreensiva com a diferença, reta no compromisso e firme na justiça? Como manter viva a chama da transformação e construir uma mística que impulsione o corpo e o espírito, e não deixe que o tempo e as vicissitudes da vida, da realidade e do poder empurrem para a falta de brilho, para o continuísmo ou até para a canalhice? Como alimentar e realimentar o sonho e a utopia?”. (Selvino Heck, em A cidadania e questão do poder – Exercício do poder no cotidiano, em Ser é poder, pp. 83-106).

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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