Ouça a Rádio BdF

Romaria da Terra 2025: cuidado com a casa comum

Desde 1978, aconteceram 46 Romarias, na terça de carnaval. Dia 4 de março de 2025 acontecerá a 47ª, em Arroio do Meio, Diocese de Santa Cruz do Sul, com o tema 'Reconstruir e cuidar da casa comum com fé, esperança e solidariedade'

27 de fevereiro de 1979. Papai Léo, agricultor familiar, e eu nos metemos no ‘fuquinha’ de guerra, eu então frade franciscano e morador da vila São Pedro, Lomba do Pinheiro, Viamão-Porto Alegre, e da Pastoral da Juventude, em especial do CETA, Centro de Treinamento para a Ação, e fomos de Santa Emília, Venâncio Aires, até Tiaraju, São Gabriel, para a Romaria Penitencial, organizada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), Pe. Alex Kloppenburg, que conheci na Faculdade de Teologia da PUCRS, à frente. Tema da primeira Romaria, em 1979: ‘Justiça para todos, vamos salvar a mãe terra’.

A primeira Romaria aconteceu em Caiboaté, São Gabriel, com o tema ‘A salvação do índio está na consciência do branco’. Foi chamar-se como Romaria da Terra, segundo Frei Wilson Dallagnol no livro ‘As Romarias da terra no Rio Grande do Sul’ (CPT RS, 2ª  edição, 2009), na terceira Romaria, acontecida de novo em Tiaraju, em 19 de fevereiro de 1980, com o tema ‘Alto lá…! Esta terra tem dono’. As Romarias aconteceram com o apoio e coordenação da CPT, do CIMI, Conselho Indigenista Missionário, das CEBs, Comunidades Eclesiais de Base. E com alguns personagens principais: do Pe. Alex  Kloppenburg, Pe. Arnildo Fritzen, Pe. João Schio, Pe. Orestes Stragliotto e Irmão Antonio Cecchin, e dos participantes das Comunidades de Base e romeiros e romeiras de todo Rio Grande do Sul e dos grupos de jovens do CETA e de religiosas e religiosas que moravam nas vilas populares, especialmente na Região Metropolitana.

Foi também em São Gabriel, com as bênçãos do Pe. Alex, que aconteceu o 1º Encontro das CEBs , Comunidades Eclesiais de Base do Rio Grande do Sul, de 7 a 9 de setembro de 1979, com o tema ‘A árvore do sistema – causas e consequências dos problemas’ . E houve então um anúncio profético do Irmão Antônio Cecchin aos participantes, entre os quais eu, em  7 de setembro, durante o café da manhã: “Acabaram de ser ocupadas, segundo notícia do Pe. Arnildo Fritzen na madrugada, as Fazendas Macali e Brilhante em Ronda Alta.” Era a continuidade no Rio Grande do Sul das lutas pelas terra, que seguiram com o Acampamento da Encruzilhada Natalino, a Ocupação da Fazenda Annoni, e o (re)surgimento dos movimentos do campo, em especial o MST, e assim por diante (‘Nosso jeito de ser Igreja – Memória histórica e eclesial dos Encontros de CEBs da Arquidiocese de Porto Alegre (1980-2015), 35 anos de história’, Frei Wilson Dallagnol, Ed. Evangraf, outubro de 2015).

Desde 1978, aconteceram 46 Romarias, na terça de carnaval. Dia 4 de março de 2025 acontecerá a 47ª, em Arroio do Meio, Diocese de Santa Cruz do Sul, com o tema ‘Reconstruir e cuidar da casa comum com fé, esperança e solidariedade’.

Por que a Romaria da Terra de 2025 será em Arroio do Meio? Arroio do Meio, junto com os demais municípios do Vale do Taquari, foi extrema e cruelmente atingido nas enchentes de 2023 e 2024. Casas, casas derrubadas, água entrando em toda a cidade, famílias  desalojadas no meio da dor e das mortes. Um quadro de absoluta tristeza e sofrimento.

Dom Itacir Brassiani, nomeado bispo da Diocese de Santa Cruz do Sul, da qual Arroio do Meio faz parte, fez um gesto de pastor. Dias antes da cerimônia formal de ser bispo, no segundo semestre de 2024, fez questão de ir a Arroio do Meio. E buscou, no meio de suas águas turvas, ainda turvas e cheias de sofrimento, o seu báculo de ordenação episcopal: um pedaço de madeira de uma árvore que ´sobreviveu´ às águas. Gesto de fé, gesto de solidariedade com a comunidade, gesto de compromisso com o povo que, na dor, buscava forças para sobreviver na fé e na coragem da Boa Nova do Evangelho.

RECONSTRUIR E CUIDAR DA CASA COMUM: A crise climática atravessa o Brasil e o mundo. A paz está longe, às vezes quase fora do alcance. A democracia está sob permanente ameaça. A Casa Comum, na expressão do Papa Francisco, precisa ser cuidada todos os dias, todas as horas, todos os minutos, todos os segundos.

: Para quem conhece Arroio do Meio e é, como eu, natural de Venâncio Aires, Diocese de Santa Cruz do Sul, que fica entre os dois Vales, o do Rio Pardo e o Taquari, sabe o que significa a fé na vida, na comunhão, sua presença no cotidiano dos lares, comunidades, matinhos e lavouras de uma região de agricultura familiar e camponesa.

ESPERANÇA: É preciso cuidar do futuro, e esperançar o tempo todo. Esperançar, na feliz expressão do educador popular e cristão Paulo Freire, não é esperar as coisas acontecerem. É, sim, todos os dias, todo o tempo, fazer a esperança acontecer, na união das comunidades, na união das pessoas, na dor e no sofrimento, na festa e na alegria.

SOLIDARIEDADE: Foi o que se viu na tragédia, nas enchentes, ao redor das mortes e do sofrimento coletivo. Solidariedade total, seja dos moradores, seja de quem veio de longe e ajudou a superar a fome, a casa aos pedaços, a moradia destruída, a reconstruir a vida,  acontecer as Cozinhas Solidárias e Comunitárias e todas as formas possíveis de amorosidade.

Por isso, a 47ª Romaria da Terra não podia ser em lugar diferente. O Papa Francisco, na Fé, na Esperança, na Solidariedade, faz do cuidado com a Casa Comum e da ecologia integral sua lição de fé e vida, como cristão, jesuíta e franciscano ao mesmo tempo. E nós, povo santo de Deus e povo da luta desde a primeira Romaria da Terra, estamos e estaremos todas e todos, romeiras e romeiros, sonhadoras e sonhadores, em Arroio do Meio na terça de carnaval, 4 de março de 2025. ‘Um outro mundo é possível’, e é cada dia mais urgente e necessário.

* Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Veja mais