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Feliz ano velho, ainda estou aqui

Hoje, 2025, como ontem, 1985, é preciso defender a democracia

Março de 1985, há 40 anos. As notícias desta semana falam da morte de Tancredo Neves e o ex-presidente José Sarney passou a dar entrevistas sobre os acontecimentos, a partir de uma eleição indireta, de sua posse como presidente da República e da volta da democracia, depois de 21 anos de ditadura militar.

Recupero a minha agenda de 1985, entre trocentos mil documentos, livros e materiais de todos os tipos guardados ao longo do tempo. É da JOC, Juventude Operária Católica, bem pequena em tamanho. Na capa, está escrito: Ano Internacional da Juventude – Somos interdependentes, sejamos solidários. Na primeira página, lê-se: Agenda 1985 – Campanha financeira da JOC brasileira para o trabalho de formação e formação dos Jovens Trabalhadores. Em páginas seguintes, está a citação de Flor, da JOC de Belo Horizonte: “A consciência de classe e o compromisso com ela acompanha toda nossa vida, como também as exigências da nossa fé. Mas a consciência de classe, a dimensão coletiva e a fé nos fazem considerar cada trabalhador no seu todo, como centro.”

Segue a agenda de 1985 da JOC: “Algumas de nossas principais reivindicações: Pelo direito ao emprego e estabilidade para todos os trabalhadores. Redução da jornada de trabalho. Ensino público gratuito. Ampliação e melhoria do sistema de escolas profissionalizantes gratuitas. Facilidade de horário de trabalho para jovem trabalhador que estuda. Abertura de mais espaço para participação dos jovens trabalhadores nas decisões políticas”.

A JOC, em 1985, anuncia, em texto tirado do 3º Congresso Nacional de Jovens Trabalhadores: “Nosso compromisso. Continuaremos desenvolvendo um processo de formação a partir de nossa realidade de classe, valores e problemas específicos, avançando na análise das causas, agindo frente às más condições de vida e de trabalho, planejando e revisando constantemente nossas vidas e ações. Continuaremos organizando grupos de trabalhadores, especialmente jovens, a partir do local de trabalho, da categoria e do bairro: que atuem dentro do movimento popular e sindical, contribuindo principalmente para a construção de um sindicalismo novo, a partir da base, classista, massivo, autônomo e unificado”.

Mais adiante, Ana, da JOC de Mauá, SP, e Nonata, de São Paulo, profetizam: “Neste ano que se inicia queremos ver: Alegria nos avanços, abraços, mãos erguidas na luta. Passos decisivos na caminhada, Trabalhadores, Jovens e Adultos, Negros, Índios, Brancos, Homens e Mulheres, Brasileiros, Zambianos, Belgas, Australianos e Japoneses, todos unidos com o mesmo objetivo: Participação, Organização e Conscientização de nossos valores como jovens trabalhadores.”

Março de 2025, 40 anos depois, é possível assinar em baixo de tudo que foi dito, proposto, denunciado, anunciado profeticamente pela JOC em 1985.

Quais os registros na minha agenda da JOC no mês de março de 1985? 02.03.85, sábado: PO, Pastoral Operária Sul, Lages – Encontro Arquidiocesano da PO. 03.03, domingo: PO/Sul, Lages; Encontro  PO Arquidiocesano. 04.03, segunda: Regional Frederico, discussão sobre CUT, em Seberi: tirar planejamento regional a partir do meio dia. 05.03, terça: 18h30m, reunião interna Camp; 20h, Executiva Camp. 06.03, quarta: Reunião CPT – Cepis. Tema: Formação de Agentes. 07.03, quinta: Reunião CPT, Cepis; grupo urbano Camp. 08.03, sexta: Reunião CPT, Cepis. 10.03, domingo: Último dia de entrega material Boletim CAMP. 12.03, terça, 16h:  Reunião Equipe Comunitária Camp. 16.03, sábado: PO, Pastoral Operária Lomba. Curso: Sistema capitalista – modelo brasileiro, conjuntura. 17.03, domingo: PO Lomba. 19.03, terça: Rodeio Bonito, sindicalismo. 22.03, sexta: Executiva nacional PO. 23.03, sábado: Comissão nacional PO – Reunião Palmeira das Missões: eleições/86. 24.03, domingo: Comissão nacional PO. 29.03, sexta: aniversário Marta.”

Os registros na minha agenda da JOC em março de 1985 não são muitos, mas são significativos. Não há nenhum registro sobre a morte de Tancredo e posse de Sarney, nem sobre o aniversário do golpe militar de 1964. Mas há registros de muita luta, organização, formação. A mobilização por Diretas-Já estava em pleno andamento, com enormes comícios em todo o Brasil, assim como a mobilização por uma Constituinte livre e soberana. E havia muito trabalho na base, com formação na ação, mobilização social e popular. Tudo que ainda é preciso fazer hoje, março de 2025.

Para concluir a história e a memória de 1985, registrado na agenda da JOC: “Mulher. A partir do momento em que a mulher desperta para sua realidade e percebe que a luta é específica, e que deve ser vista dentro do conjunto de luta de todo trabalhador, não só ela estará conquistando sua libertação, mas estará contribuindo na libertação do homem enquanto ser” (Bete, JOC São Paulo).

E o belo e mais que atual poema de João, JOC de Vitória: “Revolução. Eu arranquei toda coragem/ que eu tinha no coração./ Acompanhei um vento fraco/ que se tornou um furacão./ Fiquei aqui nesta batalha,/ sobre o vermelho, sobre o chão./ Dei minha vida pela luta,/ dei minha luta pela Nação./ Quando a flor nascer no seco,/ quando o guarda dizer não,/ quando a fome não tiver,/ quando a pedra virar chão,/ quando a noite clarear/ e aparecer a podridão,/ quando os olhos se enxugarem/ e virem nova plantação,/ quando a flor tornar-se fruto,/ deu certo a revolução.”

Vale lembrar dois livros de Marcelo Rubens Paiva, um publicado em 1982, outro em 2015, que virou filme: Feliz Ano Velho! Ainda estou aqui! Hoje, 2025, como ontem, 1985, é preciso defender a democracia.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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