“Ditadura mata, vive de morte. Não apenas da sociedade, da democracia, mas de seres humanos de carne e osso”, disse a ministra Carmen Lúcia, em palavras definitivas no julgamento acontecido esta semana no Supremo Tribunal Federal (STF).
“O primeiro momento na democracia brasileira em que militares poderão ser condenados vai acontecer neste ano (2025). É fundamental a punição para a estabilidade democrática.” As palavras são de Leonardo Avritzer, professor titular aposentado do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Leonardo afirma que o retorno ofensivo dos militares à vida política nacional, sobretudo a partir do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, tem relação com a inimputabilidade da ditadura militar, que perdurou de 1964 a 1985”. (Zero Hora, ‘Quarenta anos após o fim da ditadura, Brasil volta a discutir futuro da democracia’, 15-16.03.25, p. 4).
É um momento histórico, portanto, por todas as razões do mundo, o que está sendo vivido por brasileiras e brasileiros esta semana. Para quem era guri em 1964, 13 anos de idade, estando no Seminário Seráfico dos franciscanos em Taquari (RS), e escutava pelos corredores, via Rádio Guaíba, sem entender o que estava acontecendo, os discursos a favor do golpe e da ditadura de Carlos Lacerda. Agora, 61 anos depois, é uma mudança política de fortalecimento da democracia, algo nunca visto na história do Brasil. O guri ontem, em 1964, e o idoso, hoje, em 2025, tendo passado por mil coisas na vida, exalta, mais do que nunca, em tempos muitos difíceis no Brasil e no mundo, a liberdade, a justiça e, sobretudo, a democracia, conquista, espera-se que definitiva, do povo brasileiro.
Democracia está vivendo
Assistir pela segunda vez o filme Ainda estou aqui, recebidas todas as premiações e exaltado no Brasil e no mundo, torna a História e o que aconteceu nos anos 1960 e 1970 muito mais impactante. O filme é um retrato histórico, uma reflexão, um testemunho de tempos que nunca mais devem acontecer. Assim como ver, dias atrás, em ato bolsonarista no Rio de Janeiro, numa janela de um apartamento, a faixa ‘Sem Anistia’, dizendo que a impunidade acabou, que os crimes contra a democracia devem ser julgados e condenados exemplarmente. E anunciando ao mundo que, finalmente, espera-se, a democracia está vencendo no Brasil.
Diz a doutora em Ciência Política e professora emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Céli Pinto: “A democracia atravessa um momento de fragilidade no mundo, mas não é tão fácil quebrá-la hoje como foi nas décadas de 60 e 70 na América Latina. Temos a liberdade de imprensa, Congresso e oposição funcionando, liberdade de ir e vir. O que existe, atualmente, é o crescimento de autocratas eleitos que minam a democracia por dentro. Não são mais ditadores tomando o poder em cima de um tanque”. (Zero Hora, 15-16.03.25, p. 4).
Povo está vivo
Vigilância e resistência. Vigilância, olhos abertos sempre, contra golpes, contra exílios, contra mortes, contra a tortura, contra ditaduras. Resistência, resistência, resistência, sempre, todos os dias, a favor da paz, a favor da soberania, a favor dos direitos, especialmente dos mais pobres entre os pobres, da classe trabalhadora, das mulheres, das juventudes, do povo negro, da população LGBTQUIA+, dos indígenas, sempre, sempre a favor da justiça e da democracia.
A luta nas ruas, as manifestações a favor da democracia e contra anistia aos golpistas que vão acontecer em todo Brasil nos dias 30 e 31 de março e 1º de abril de 2025 são sinais e anúncios de que o povo brasileiro não só está vivo, quanto está atento e atuante. Não se toleram mais ditaduras. Não se aceitam mais golpes. Viva a democracia!
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.