Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990); Participante da Ciranda pelo CEAAL Brasil, CAMP e Articula PNEPS-SUS.

Fazenda Annoni, 40 anos, e um banho: a luta continua

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A ocupação da Fazenda Annoni, ocorrida na noite de 29 de outubro de 1985, é amplamente reconhecida como um marco histórico na luta pela terra no RS e na fundação do MST | Crédito: Foto: Eduardo Vieira da Cunha

A ocupação da Fazenda Annoni, a necessidade e urgência da Reforma Agrária Popular e o banho continuam presentes e vivos no Esperançar freireano

7 de setembro de 1979, 1º Encontro Estadual de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), em São Gabriel (RS). De manhã cedo, para alegria e festa de todas e todos,  o Ir. Antônio Cecchin anuncia: “Ocupamos as fazendas Macali e Brilhante, na linha de frente o Pe. Arnildo Fritzen.”

Cléo Bonotto, cujo pai, Ivo, de Santiago (RS), era da Comissão Pastoral da Terra (CPT), criada em 1975, e que participou da 1ª Romaria da Terra gaúcha, faz, em 2008, sua dissertação de Mestrado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com o título: Tendo a Cruz por Bandeira: Movimentos religiosos contra-hegemônicos na América Latina, inspirando as Histórias da Formação e Prática de Agentes religiosos em Movimentos Populares no Rio Grande do Sul (1970-1980).

Depois de entrevistas com Antônio Cecchin, Selvino Heck, Frei Sérgio Görgen, Marcelo Barros, Padres Irineu Stertz e Carlos Ivo Menegais, Irmã Teresinha Hoffmann, Ivo Bonotto, Celso Gaiger, Frei Arno Reckziegel, João Damian, Frei Betto e Leonardo Boff, entre outras e outros, escreve Cléo Bonotto: “A partir do 1º Encontro estadual de CEBs em São Gabriel, em setembro de 1979, acontece a primeira ocupação de terra no Estado, fazendas Macali e Brilhante, em Ronda Alta, com a presença do vigário de Ronda Alta, padre  Arnildo Fritzen. Ocupação que foi o embrião do futuro Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e, logo depois, em Canoas, a primeira grande ocupação urbana liderada pelo Ir. Antônio Cecchin e sua irmã Matilde Cecchin. Ir. Antônio relata que as ocupações urbanas e rurais foram planejadas no Encontro de CEBs de São Gabriel: “E nós, para não ficar para trás, no Natal de 1979, ocupamos em Canoas. Lá os Sem-terra e nós aqui, em Canoas. A partir da Igreja das CEBs)” (Depoimento do Ir. Antônio dado em 2007).    

Segue a dissertação de Cléo Bonotto, falecido tragicamente em acidente em 2011 com 29 anos (ver artigo de Selvino Heck, Cléo Bonotto, mais um, 14.04.2011): “Em 1981, o acampamento da Encruzilhada Natalino, também em Ronda Alta, tornou-se o símbolo nacional de resistência dos sem-terra e foi o embrião de MST. Essas mobilizações contaram com o apoio irrestrito da CPT, e, nos primeiros momentos, seus agentes estiveram como representantes e dirigentes dos sem-terra. O padre Arnildo Fritzen, ligado à CPT, e a freira italiana Aurélia Durandi foram os principais coordenadores do acampamento e eram considerados os grandes mentores das ocupações.”

Há 40 anos, há outro acontecimento histórico: a ocupação da Fazenda Annoni. Conta o livro História e Memórias do PT gaúcho (1978-1988), da Fundação Perseu Abramo/Centro Sérgio Buarque de Holanda, Secretaria de Formação Política do PT-RS, com redação final de Alexandre Fortes: “Em outubro de 1985, cerca de 6.500 agricultores, insatisfeitos com o Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), e com a condução que o governo Sarney vinha dando à questão agrária, ocuparam uma área de 9 mil hectares da Fazenda Annoni, em Sarandi, que já havia sido desapropriada pelo Incra em março de 1972, com o objetivo de assentar 200 famílias de “afogados”, obrigadas a abandonar suas terras para a construção da Barragem do Passo Real, um ano antes. No entanto, em 1974, apenas 53 famílias tinham sido transferidas e – fato que adiaria ainda mais o processo de assentamento -, o proprietário Ernesto Annoni entrou com dois processos na Justiça: o primeiro reclamando do preço pago pelas terras e o segundo buscando anular a desapropriação, com a justificativa de que o Incra errara ao classificar suas terras como latifúndio mal explorado.”

Segue a narração de Histórias e Memórias do PT gaúcho (1978-1988): “Cansados de esperar pela Justiça, os agricultores, “saindo de 32 municípios, com 150 caminhões, 20 ônibus e 15 motos”, ocuparam as terras improdutivas da Annoni. Montado o acampamento, começaram as tratativas com o governo no dia 29 de novembro, um mês depois da ocupação, ‘os acampados realizaram uma manifestação em Porto Alegre, em frente ao Incra, exigindo a desapropriação de 40 mil hectares até dia 15 de dezembro e prometendo que, se não fosse cumprido, iriam lavrar as terras da Fazenda Annoni’. Como nenhum hectare de terra foi desapropriado, os acampados da Annoni cumpriram o prometido, apesar da presença ameaçadora de um cerco policial gigantesco, contrabalançada pela ida ao local de caravanas de solidariedade partindo de todo Estado.”

Segue o relato: “Passados mais de 8 meses de acampamento e sem perspectiva alguma de solução, os agricultores resolveram, em junho de 1986, articular uma grande mobilização para pressionar o governo da nova República. Assim nasceu a proposta de uma longa caminhada de Sarandi a Porto Alegre. Após 28 dias, os sem-terra chegaram à capital. Depois de realizarem manifestações pela Reforma Agrária e contra a violência dos latifundiários em cada cidade por onde passavam, os 250 colonos foram recebidos por grandes concentrações em São Leopoldo, Canoas e na Praça da Matriz em Porto Alegre, na qual cerca de 20 mil pessoas se reuniram em apoio às suas demandas.”    

Terminada e vitoriosa a histórica ocupação da Annoni, fomos, os apoiadores presentes, para uma pequena festa de bons comes e bebes, como não podia deixar de ser, num momento especial e histórico. João Pedro Stédile e eu, empolgados, atiramo-nos, depois da meia noite, nas águas da Barragem do Passo Real, tri felizes, na fé e na coragem revolucionárias. Felizmente, saímos vivos das águas em 1985, e estamos vivos em 2025.  

Porém, a necessária e urgente Reforma Agrária Popular ainda não aconteceu.  É preciso, em 2025, dizer de novo as palavras de João Pedro Stédile, ditas na revista dos 15 anos do Centro de Assessoria Multiprofissional (Camp): “A Reforma Agrária é uma luta de todas e todos. Queremos os sindicatos e todos os outros segmentos da sociedade envolvidos nela, para que tenha mais produção de alimentos, mais justiça social, mais gente empregada no campo e na cidade. É essencial resgatar a solidariedade, porque não vai haver mudanças na nossa sociedade, se não resgatarmos a solidariedade” (Revista CAMP 15 anos, 1983-1998, p. 13).  

No livro a ser lançado nas comemorações dos 40 anos da Fazenda Annoni, Olhares Cruzados PELA TERRA – MST 40 anos – Alimentando o Brasil (Organização de Dirce Carrion), diz João Pedro Stédile: “Em toda essa trajetória, a marca fundamental foi sempre a luta de massas e a solidariedade como valor humano. Todas as nossas atividades dependem da mobilização de massas e da solidariedade, entre nós, da sociedade conosco, e entre toda a classe trabalhadora.”

Diz mais João Pedro, em 2025: “Aprendemos que lutar pela terra é defender a natureza. Sermos zeladores das árvores, das florestas, das águas, da biodiversidade, para proteger a vida em benefício de toda sociedade. Precisamos nos organizar para produzir alimentos saudáveis, sem agrotóxicos, para nossas famílias e para todo povo brasileiro.

Precisamos contribuir com um novo projeto de país, que consiga, de fato, enfrentar as mazelas do capitalismo e da desigualdade social. Que tenhamos um Estado democrático, a serviço de todo povo, e não mais apropriado por uma classe de privilegiados. Para termos uma democracia popular. Uma sociedade justa e igualitária para todos os brasileiros é o nosso horizonte.”

E profetiza João Pedro Stédile, em 2025, nos 40 anos da ocupação da Fazenda Annoni: “Nosso sonho não tem limites!!! Nosso caminho é longo, mas a cada passo nos aproximamos mais ainda da utopia de um futuro melhor, como nos ensinou Eduardo Galeano. E haverá um dia, que não teremos mais sem-terra, não teremos mais latifúndios, não teremos mais gente que passe necessidade, e todas e todos terão trabalho digno, renda necessária e acesso ao conhecimento E que possam praticar sua cultura, livres de qualquer opressão e exploração. Pode demorar, mas já estamos a caminho…” (João Pedro Stédile, Olhares Cruzados, pela Terra,  Alimentando o Brasil, organização de Dirce Carrion, 2025).

Por isso, repito hoje, em outubro de 2025, 40 anos depois: nosso banho, João Pedro e eu, na madrugada do final de outubro de 1985 na Barragem do Passo Real, lavou não só o corpo, mas a alma, o espírito e o coração, individuais e coletivos. A ocupação da Fazenda Annoni, a necessidade e urgência da Reforma Agrária Popular e o banho continuam presentes e vivos no Esperançar freireano.

A luta continua.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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