18.12.1945 – 18.12.2025. Celebramos os 80 anos do mano velho Adão Pretto, que nos deixou fisicamente em 05 de fevereiro de 2009. Adão Pretto está vivo, muito vivo no nosso coração.
Escrevi em Adeus, mano velho, quando de sua despedida (Relendo Veredas, Grupo Vereda – Prosa, José Eduardo Degrazia (org.), Bestiário- CLASS, 2017, pp. 169-172):
“Lembro tantas coisas. Por exemplo, de quando nos conhecemos, em 1985, conversa em sala apertada no Seminário dos franciscanos em Três Passos, RS, reunidos ao redor de uma mesa pequena, eu, frei Sergio Görgen, Antônio Marangon. Acertar tua entrada e do Marangon no Partido dos Trabalhadores. Foste eleito deputado estadual constituinte gaúcho em 1986 comigo, José Fortunati e Raul Pont. Teu lema e teus símbolos: a enxada e UM PÉ NA LUTA, OUTRO PÉ NO PARLAMENTO (Selvino Heck, em Adeus mano velho).
Foram teu lema e inspiração a vida inteira, como presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Miraguaí (RS), permanente presença nas Romarias da Terra, nas ocupações no campo e em todas as lutas na defesa dos mais pobres entre os pobres, das trabalhadoras e dos trabalhadores.
“Lembro das batalhas da constituinte estadual, nós 4 no meio de 55 deputados, o PT estreante, mas dando os rumos de uma Constituição com perfil popular e cidadão, nós brigando pelas boas causas dos pequenos, inserindo artigos que garantiam processos democráticos, espaços de defesa dos trabalhadores. Por teu trabalho, acabaste premiado com o Prêmio Springer de melhor deputado” (Adeus, mano velho, pp. 169-170).

“Lembro-me que como enfrentavas os latifundiários, tanto nas ocupações de terra, quanto no Parlamento. Um dia, depois de tantas provocações do deputado Carlos Azambuja, grande fazendeiro de Bagé, fronteira do Brasil com o Uruguai, quase o atacaste com o suporte do microfone; eu estava por perto para te segurar na tua justa indignação, e para não seres punido pelas regras da Casa” (Adeus mano velho, p. 170).
“Lembro-me das campanhas eleitorais onde tua gaita e tua voz cantavam e declamavam as lutas do povo, o sonho da Reforma Agrária e de uma sociedade sem explorados nem explorados.
Lembro-me de tantas marchas e ocupações de terra em que te fazias presente, às vezes estávamos juntos, ou eu te substituindo como deputado, quando havia mais de um lutar para ir defender quem lutava pela terra e estava ameaçado pela direita conservadora e pela Brigada Militar.
Lembro-me com saudade e ternura, e o referi na Assembleia Legislativa no momento das homenagens, da simplicidade com que, da tribuna, me saudavas como Selvino ‘Hécks’ e ao Raul ‘Pontis’, mais um ‘s’ no final dos nossos sobrenomes, o que acabou referência amiga e de brincadeira quando nos (re)encontrávamos em algum lutar e para muita gente que adotou a expressão, (Vi pela primeira vez o Raul chorar, falando de tu e do teu mandato colado aos movimentos sociais, como deveria ser o de todos os parlamentares).
Lembro-me do teu inseparável chimarrão, que sempre me socorria quando me encontrava contigo em algum lugar, eu que não sou de carregar os apetrechos nas viagens Brasil afora.
Lembro-me do apartamento/hotel em Brasília, porto seguro para quem vinha de todos os cantos deste país imenso, e era acolhido à la gaúcha com um chimarrão, uma pinga, uma comida quente e um colchão para deitar os ossos.
Lembro-me do nosso último encontro em Canoas, 1º de janeiro de 2009, posse do prefeito Jairo Jorge, encontro infelizmente rápido, mas que seguirá gravado em minha memória.
Mano velho, plantaste muitas sementes, como falaram Olívio Dutra e o presidente Lula na homenagem final. Sementes que se traduzem em filhos biológicos, mas pr9nciipalmente em filhos da luta e do teu/nosso sonho de justiça, de liberdade, de democracia, de igualdade, de partilha. As sementes estão germinando, irão crescer e já começam a dar frutos aqui e acolá na América Latina, e ainda darão muitos frutos” (Selvino Heck, Adeus, mano velho).
Teu Edegar, que conheci guri, vai ser o próximo governador do Rio Grande, sucedendo teu líder trabalhista Leonel Brizola, teu líder e amigo Olívio Dutra, teu líder Tarso Genro.
E digo hoje, 18.12.25, como escrevi lá atrás, na tua partida. “Vai, mano velho, camperear em outros campos, mas, por favor, como bom pastor, não esquece de olhar por nós e para nós, de nos acompanhar com tua alegria, teu riso sempre presente, teus causos, tua música, tuas trovas inesquecíveis com o Severiano, teus discursos inflamados que levantavam a multidão, tua defesa dos sem-terras, das-os pequenas-os agricultoras-es, das-os camponesas-es, das-os trabalhadoras-es do campo e da cidade.
Não te esqueceremos jamais, mano velho. Serás sempre um facho de luz, um brilho permanente, uma estrela. Sim, uma estrela a iluminar os pampas onde tem terra para distribuir e onde as-os lutadoras-es acamparão para resistir, plantar e produzir” (Selvino Heck, Adeus, mano velho, p. 172).
* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

