“Se amar aos pobres incomoda, amemos até o fim.”
Pe. Júlio Lancellotti
Natal é nascimento. Portanto, é vida. Ainda mais se o primeiro Natal-nascimento, há mais de 2 mil anos, aconteceu numa manjedoura ou estrebaria, no meio de animais, com os pastores, cuidando de suas ovelhas, só foram saber dos fatos depois. Quando souberam do feliz acontecimento, correram para ver quem tinha nascido. Era Jesus, com seus pais Maria e José. Foram abençoados para o resto da vida, assim como Jesus, Maria e José.
Meus Natais, como os de todas e todos, têm mil histórias e, em geral, boas lembranças.
Imaginemos o Natal nos anos 1950 e 1960 na Linha Santa Emília, Venâncio Aires, Rio Grande do Sul, numa grande família de descendentes de alemães, cristãos-católicos praticantes e participantes ativos da comunidade São Luiz. Somos nove irmãs/irmãos.
Para as crianças, tudo começava com a feliz expectativa de muitos presentes, preparados pelos papais Léo, Lúcia, avó Gertrudes e tia Leonida. Ao mesmo tempo, era preciso fazer o grande presépio na sala de uma casa com 4 quartos, com um pinheiro enorme, acompanhado o ano inteiro no seu crescimento nos potreiros ao lado de casa, propriedade da família de agricultores familiares até hoje.
Depois, hora de colocar tudo ao redor do pinheiro. As crianças, esperando a véspera de Natal, 24 de dezembro, eram enviadas para um potreiro vizinho, onde todas e todos se encontravam, filhas e filhos de parentes, para passar o tempo, brincar e jogar futebol. Era quando, segundo os adultos, viria Papai Noel. Chegávamos em casa no final da tarde, e estava tudo pronto. E muito bonito. Papai Noel tinha marcado presença.
Depois, era ir dormir cedo para levantar cedo no dia seguinte, dia de Natal. Lá estavam, ao redor do presépio, os presentes, esperados com ansiedade, que o Papai Noel tinha trazido durante a noite.
Festa, alegria. Era a única vez no ano que se recebiam presentes. Depois, momento de ir na celebração na comunidade, comer muita coisa boa, bolos, chocolates, doces de todos os tipos, e um bom churrasco ao meio dia.
Acreditávamos em tudo. Só muito mais tarde, anos depois, já com uma certa idade, s descobrimos que não tinha nenhum Papai Noel chegando sem poder ser visto. Era a generosidade da família que garantia a alegria e a festa coletivas.
Era assim o Natal naqueles tempos de família e comunidade reunidas. A vida de Jesus, o bom Pastor, aquele que ensinava o bem, que queria que se praticasse sempre a bondade, que a família e a comunidade eram essenciais na vida, ficava conosco o ano inteiro.
Muito tempo depois, segunda metade dos anos 1970, então morando numa comunidade de freis franciscanos na vila São Pedro, na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre e Viamão, o Natal, nascimento de Jesus, também tinha muita festa e celebração. Era preparado nos grupos de famílias que se reuniam no mês de dezembro na casa das famílias. E rezavam junto, e liam os textos do Evangelho e da Bíblia, e refletiam sobre a vida, o significado mais profundo da chegada e presença de Jesus, amparado por seus pais Maria e José. E conversavam sobe o que significava tudo isso para quem morava em vilas populares, era trabalhadora/trabalhador, fazia esforço o ano inteiro para melhorar sua vida, lutava coletiva e solidariamente pelo bem de todas e todos. Era assim nos anos 1970/1980, e ainda é assim hoje, 2025, na Lomba do Pinheiro, através das CEBs, Comunidades Eclesiais de Base, das Associações de Bairro, do Conselho Popular da Lomba do Pinheiro, do Núcleo de Reflexão Política, do Cursinho Popular KiLomba, das Cozinhas Solidárias e Comunitárias.
O Natal mais difícil da minha vida aconteceu em 1975, há exatos 50 anos. Eu era morador da Vila Franciscana no bairro Partenon, Porto Alegre, nos primeiros tempos dos anos 1970 morando com Dom Cláudio Hummes, professor e mestre. Estudante de Teologia e Letras na PUCRS, eu era representante, em nome do Dait, Diretório Acadêmico de Teologia, dos alunos de teologia junto à direção da faculdade. Ao mesmo tempo, era representante geral dos alunos, em nome do DCE, junto à Reitoria da Universidade. Dia 24 de dezembro de 1975, véspera de Natal, fui chamado ao gabinete do reitor Irmão José Otão e comunicado por ele que eu e mais três colegas, que tínhamos sido suspensos por 30 dias das aulas na Teologia em novembro de 1975, não teríamos renovada nossa matrícula para o ano de 1976. Ou seja, em palavras diretas, fomos expulsos da universidade por atuação no movimento estudantil numa linha de pensamento, atuação e compromissos que não estavam de acordo com a orientação conservadora da universidade.
Dia seguinte, 25 de dezembro de 1975, era o nascimento de Jesus. Na minha cabeça de jovem franciscano, militante do movimento estudantil, nada de bom aconteceu. Só tristeza e dúvidas sobre o futuro.
A vida continuou. Estamos em 2025, ano também muito difícil em todos os sentidos. Mas o presidente Lula, mais uma vez, celebrou o Natal das Catadoras e dos Catadores, cercado de vida, alegria e solidariedade. Eu estou de novo celebrando o Natal com a família e comunidade São Luiz de Santa Emília. As sobrinhas Sabrina, seu filho Arthur, e Priscilla, com meu apoio, fizeram um pequeno presépio em cima do fogão a lenha na cozinha da casa, com um pinheirinho, e com as mesmas imagens do presépio grande dos anos 1950. Foi e está sendo tri.
Jesus pobre e comprometido com os mais pobres entre os pobres continua nascendo nas comunidades e nos corações. Viva a vida! Viva o amor! Viva as famílias e comunidades reunidas!
* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

