Ao Jairo Carneiro, Padre Tonico Bremm, Frei Sérgio e Tia Appolonia Thereza Heck Reckziegel
1954, há mais de 70 anos, me surge a primeira lembrança da minha vida. Estou na casa da família, do vô José, então já falecido, e da vó Gertrudes Heck, na Linha Santa Emília, Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul. Casarão grande daqueles dos tempos antigos, onde realizou-se o casamento da tia Thereza Heck e do tio Norberto Reckziegel, com bandinha e tudo dentro de casa. Os casais dançavam a mil, eu, 2 a 3 anos de idade, circulava no meio deles, dançando também. Nunca mais esqueci. Lembrei tudo isso esta semana na despedida da tia Thereza no hoje necrotério na antiga escola São Luiz de Santa Emília, onde estudei nos anos 1950/60.
E sem poder esquecer Frei Sérgio Görgen, que partiu há poucas semanas, muito e justamente lembrado na Romaria da Terra/2026, na terça de carnaval, em Caaró, Caibaté, RS, ele que continua todos os dias presente e vivo.
Assim como está presente o conterrâneo e amigo pe. Tonico Bremm, parceiro das boas lutas, da fé e da coragem, que partiu durante o carnaval, deixando saudades mil.
E ainda surge no coração o amigo, companheiro e parceiro de muitas jornadas, Jairo Carneiro, membro da Coordenação nacional da JOC, fundador do CEDAC, militante da Pastoral Operária, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Porto Alegre, presidente da CUT-RS. Jairo despediu-se há poucos dias, deixando na lembrança mil boas lutas, e na saudade uma vida inteira de amizade e companheirismo.
Estou falando, por enquanto, de despedidas de amigos e companheiros há menos de 1 mês. E os feminicídios, todos os dias? Em 2026, já são 20 só no Rio Grande do Sul, quase média de um a cada dia. E as tempestades, os ciclones, deixando dezenas de mortos, como estes dias em Juiz de Fora e cidades vizinhas?
Estamos ainda no início de 2026, que mal começou e já está mais do que cheio de tristes e difíceis acontecimentos. Como pode acontecer tudo isso ao mesmo tempo? Como explicar, e aceitar? Sem esquecer, ao mesmo tempo, da falta de paz no mundo, das crises sociais e econômicas, das ameaças, mais uma vez, do império americano, entre outras muitas coisas, fatos e sofrimentos mil.
O Brasil às vezes parece estar dominado pelo narcotráfico e pelo crime organizado, tal o grau de más notícias todos os dias, com prisões, a violência acontecendo em todas as esquinas e comunidades. E não podem ser esquecidos os muitos e diferentes casos de corrupção, que começam, finalmente, a ser desvendados, como o do Banco Master, envolvendo figuras públicas, milhões e bilhões de recursos nas mãos e bolsos de meia dúzia de ladrões sem vergonha na cara.
O mundo está sob mil ameaças de todos os tipos, como fazia tempo não se vivia ou não se tinha notícia. Os apelos pela paz do Papa Leão XIV, de Lula e de outras lideranças parecem não surtir efeito. Continuam as guerras, continuam as mortes, especialmente de crianças, de jovens, de mulheres, como se não houvesse mais caminho para o diálogo e a convivência, se não fraterna, pelo menos respeitadora dos espaços e do respeito mínimo e básico entre países e nações.
Alguém sabe como irá seguir e terminar 2026? Chegaremos vivas e vivos em 2027?
Neste contexto, as eleições de outubro no Brasil tornam-se a cada dia mais importantes, senão decisivas, para o futuro do país-continente, e também o futuro do mundo e a sobrevivência da humanidade. E também as eleições no Rio Grande do Sul, onde faz-se mais do que necessário ressuscitar o OP, Orçamento Participativo, e a plena participação popular nas políticas públicas.
O que fazer, quais as prioridades nos 10 meses que faltam para a chegada de 2027? Como se organizar? Como reverenciar, na vida e na politica, amigos e companheiros como Frei Sérgio, pe. Tonico, Jairo Carneiro, e pessoas construtoras de famílias e comunidades como tia Thereza, com quem aprendi, criança, a dançar na vida em todos os sentidos? Como garantir paz, convivência fraterna, respeito pela outra, pelo outro, pelos direitos e dignidade de todas e todos? E não só no sentido macro, de nações, mas no cotidiano, no sair de casa e no caminhar na rua todos os dias, no encontro feliz de vizinhas e vizinhos, na alegria de viver e conviver.
A vida não está fácil. Mas é preciso acreditar no futuro, é preciso ter fé na vida, é fundamental cuidar da natureza e da Casa Comum. Afinal, um outro mundo e um outro Brasil, além de urgentes e necessários, ainda são possíveis de serem sonhados e construídos.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

