Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990); Participante da Ciranda pelo CEAAL Brasil, CAMP e Articula PNEPS-SUS.

Um 1º de Maio aos 25 anos; um 1º de Maio aos 75 anos

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Dia da trabalhadora doméstica
O Dia da Trabalhadora Doméstica é celebrado em 27 de abril. | Crédito: Divulgação

1º de Maio é dia de luta. 1º de Maio é dia de mobilização

AOS VINTE E CINCO ANOS

Aos vinte cinco anos

descubro a vida./E me vejo farrapo,/ser em trânsito,/operário e lavrador.

Aos vinte cinco anos

sou povo em marcha:/sinto como povo,/berro como povo,/vivo como povo,/cheiro povo.

Aos vinte cinco anos

escrevo simples,/uso toscas imagens,/palavras comuns,/poucas metáforas.

Aos vinte cinco anos

canto a liberdade.

Aos vinte cinco anos

amo a vida,/seus reflexos,/suas minas.

Aos vinte cinco anos

declaro-me francamente contra a guerra,/o ódio, a fome e a mordaça.

Aos vinte cinco anos

penso o mundo com meus próprios olhos/e viajo o medo com meus próprios pés.

Aos vinte cinco anos

me proclamo irmão.

Aos vinte cinco anos

me alimento de raízes e seivas,/de árvores, animais e pedras.

Aos vinte cinco anos

faço greve contra os sistemas,/as estruturas, a opressão, as algemas.

Aos vinte cinco anos

me armo de coragem/para assinalar o homem e o universo.

Aos vinte cinco anos

me sei pequeno diante de Deus.

O poema, escrito em abril de 1976, 25 anos completados, está no livro Em mãos, de poetas do Grupo Veredas, com o título geral Amargo Canto e com as seguintes referências, 50 anos atrás: “Eu não sabia que ser poeta é ser sócio da dor”, de João Nogueira; “Não sou interessado em nenhuma teoria./ Amar e mudar as coisas me interessa mais”, de Belchior em Alucinação; “Mi Pueblo es americano”, Sérgio Ricardo.

Eram tempos de ditadura militar. Os poetas do Em mãos foram considerados  subversivos, segundo o Dops e SNI, como consta no meu processo de anistiado político, em andamento. Os tempos, em 1976, eram de movimento estudantil em grandes mobilizações, o que levou à minha expulsão, e de mais três colegas, da PUCRS, estudantes de teologia, eu frade franciscano.

Os 25 anos foram celebrados com simplicidade, com muitas orações e alguma poesia, na Vila Franciscana, no bairro Partenon, Porto Alegre, como podem atestar os ainda amigos hoje, Frei Nestor Schwerz, Dom frei Aloísio Dilli e Frei Nelson Junges.

O 1º de maio em 1976 deve ter sido comemorado, com mobilização social e povo na rua, neste contexto de dificuldades e repressão política.

Estamos em 2026, 75 anos completados, devidamente comemorados com um poema, declamado no 13º Encontro nacional do Movimento Fé e Política, acontecido em São Bernardo do Campo, SP, de 24 a 26 de abril, quando também foi lançado meu primeiro livro sólo: Fé e política – Ensaios de uma vida peregrina (Ed. USIDEIAS, 2026).

ESPERANÇAR

Aos setenta e cinco anos

continuo descobrindo a vida./E me vejo tonto,/olhando e querendo entender o mundo,/trabalhador aposentado/e militante sonhador.

Aos setenta e cinco anos,

trocentos poemas escritos para elas e alguns para eles,/textos e reflexões mil/carregados de história,/conjuntura,/ sofrimento/e algumas vitórias.

Aos setenta e cinco anos

canto a soberania/e a (falta) de democracia.

Aos setenta e cinco anos

exalto o tempo,/seus cansaços,/louvo o vento,/canto a natureza.

Aos setenta e cinco anos

luto contra a desigualdade,/pela paz,/ pela fraternidade,/com fé, ousadia e coragem.

Aos setenta e cinco anos

circulo pelas ideias,/declamo os sonhos nunca perdidos,/anuncio a utopia da Sociedade do Bem Viver,/reverencio a liberdade.

Aos setenta e cinco anos

me anuncio profeta,/cantor da vida,/amante do futuro.

Aos setenta e cinco anos

choro o tempo vivido,/bebo todos os sabores,/como todas as alegrias,/agroecológicas e saudáveis,/mergulho no impossível.

Aos setenta e cinco anos

não me alimento de ditaduras,/estou presente nas boas lutas,/me alimento das palavras,/não canso de esperançar.

Aos setenta e cinco anos

estou sempre à procura,/incansável de olhar atento,/disponível para (quase) qualquer aventura,/tento ser poeta e revolucionário.

Aos setenta e cinco

estou vivo, muito vivo./E digo para todo mundo:

Ninguém solta a mão de ninguém

Os tempos em 2026 não estão fáceis. A luta no Brasil, e no mundo, continua sendo por soberania popular e democracia, em meio a guerras, crise climática, numa crise civilizatória.

As comemorações do 1º de maio de 2026 em Porto Alegre estavam previstas para o centro da capital gaúcha.  “A Praça da Alfândega foi palco da primeira manifestação pública do 1º de Maio no Brasil (Brasil de Fato RS, 1º de Maio reúne Luta, Feira e Festa pelo Rio Grande do Sul, 24.04.26). A Praça da Alfândega conta a história de Porto Alegre e do movimento operário gaúcho. A primeira manifestação em espaço aberto pelo 1º de Maio aconteceu na praça em 1892. E a primeira greve de trabalhadoras e trabalhadores do Rio Grande do Sul, em 1906, teve a praça como local de concentração. A greve, que em 2026 completa 120 anos, mobilizou mais de 5 mil trabalhadores e parou a cidade. E foi na praça, naquele ano, que nasceu a Federação Operária do Rio Grande do Sul, uma ancestral das atuais centrais sindicais.”          

Por questões climáticas, com previsão de chuva, o local das manifestações em Porto Alegre será a Casa do Gaúcho, no Parque da Harmonia (Brasil de Fato RS, Festival do Trabalhador e da Trabalhadora será na Casa do Gaúcho, em Porto Alegre, 28.04.26). 

1º de Maio é dia de luta. 1º de Maio é dia de mobilização. 1º de Maio é dia de celebração. Viva as trabalhadoras e os trabalhadores! Viva a vida!

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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