AOS VINTE E CINCO ANOS
Aos vinte cinco anos
descubro a vida./E me vejo farrapo,/ser em trânsito,/operário e lavrador.
Aos vinte cinco anos
sou povo em marcha:/sinto como povo,/berro como povo,/vivo como povo,/cheiro povo.
Aos vinte cinco anos
escrevo simples,/uso toscas imagens,/palavras comuns,/poucas metáforas.
Aos vinte cinco anos
canto a liberdade.
Aos vinte cinco anos
amo a vida,/seus reflexos,/suas minas.
Aos vinte cinco anos
declaro-me francamente contra a guerra,/o ódio, a fome e a mordaça.
Aos vinte cinco anos
penso o mundo com meus próprios olhos/e viajo o medo com meus próprios pés.
Aos vinte cinco anos
me proclamo irmão.
Aos vinte cinco anos
me alimento de raízes e seivas,/de árvores, animais e pedras.
Aos vinte cinco anos
faço greve contra os sistemas,/as estruturas, a opressão, as algemas.
Aos vinte cinco anos
me armo de coragem/para assinalar o homem e o universo.
Aos vinte cinco anos
me sei pequeno diante de Deus.
O poema, escrito em abril de 1976, 25 anos completados, está no livro Em mãos, de poetas do Grupo Veredas, com o título geral Amargo Canto e com as seguintes referências, 50 anos atrás: “Eu não sabia que ser poeta é ser sócio da dor”, de João Nogueira; “Não sou interessado em nenhuma teoria./ Amar e mudar as coisas me interessa mais”, de Belchior em Alucinação; “Mi Pueblo es americano”, Sérgio Ricardo.
Eram tempos de ditadura militar. Os poetas do Em mãos foram considerados subversivos, segundo o Dops e SNI, como consta no meu processo de anistiado político, em andamento. Os tempos, em 1976, eram de movimento estudantil em grandes mobilizações, o que levou à minha expulsão, e de mais três colegas, da PUCRS, estudantes de teologia, eu frade franciscano.
Os 25 anos foram celebrados com simplicidade, com muitas orações e alguma poesia, na Vila Franciscana, no bairro Partenon, Porto Alegre, como podem atestar os ainda amigos hoje, Frei Nestor Schwerz, Dom frei Aloísio Dilli e Frei Nelson Junges.
O 1º de maio em 1976 deve ter sido comemorado, com mobilização social e povo na rua, neste contexto de dificuldades e repressão política.
Estamos em 2026, 75 anos completados, devidamente comemorados com um poema, declamado no 13º Encontro nacional do Movimento Fé e Política, acontecido em São Bernardo do Campo, SP, de 24 a 26 de abril, quando também foi lançado meu primeiro livro sólo: Fé e política – Ensaios de uma vida peregrina (Ed. USIDEIAS, 2026).
ESPERANÇAR
Aos setenta e cinco anos
continuo descobrindo a vida./E me vejo tonto,/olhando e querendo entender o mundo,/trabalhador aposentado/e militante sonhador.
Aos setenta e cinco anos,
trocentos poemas escritos para elas e alguns para eles,/textos e reflexões mil/carregados de história,/conjuntura,/ sofrimento/e algumas vitórias.
Aos setenta e cinco anos
canto a soberania/e a (falta) de democracia.
Aos setenta e cinco anos
exalto o tempo,/seus cansaços,/louvo o vento,/canto a natureza.
Aos setenta e cinco anos
luto contra a desigualdade,/pela paz,/ pela fraternidade,/com fé, ousadia e coragem.
Aos setenta e cinco anos
circulo pelas ideias,/declamo os sonhos nunca perdidos,/anuncio a utopia da Sociedade do Bem Viver,/reverencio a liberdade.
Aos setenta e cinco anos
me anuncio profeta,/cantor da vida,/amante do futuro.
Aos setenta e cinco anos
choro o tempo vivido,/bebo todos os sabores,/como todas as alegrias,/agroecológicas e saudáveis,/mergulho no impossível.
Aos setenta e cinco anos
não me alimento de ditaduras,/estou presente nas boas lutas,/me alimento das palavras,/não canso de esperançar.
Aos setenta e cinco anos
estou sempre à procura,/incansável de olhar atento,/disponível para (quase) qualquer aventura,/tento ser poeta e revolucionário.
Aos setenta e cinco
estou vivo, muito vivo./E digo para todo mundo:
Ninguém solta a mão de ninguém
Os tempos em 2026 não estão fáceis. A luta no Brasil, e no mundo, continua sendo por soberania popular e democracia, em meio a guerras, crise climática, numa crise civilizatória.
As comemorações do 1º de maio de 2026 em Porto Alegre estavam previstas para o centro da capital gaúcha. “A Praça da Alfândega foi palco da primeira manifestação pública do 1º de Maio no Brasil (Brasil de Fato RS, 1º de Maio reúne Luta, Feira e Festa pelo Rio Grande do Sul, 24.04.26). A Praça da Alfândega conta a história de Porto Alegre e do movimento operário gaúcho. A primeira manifestação em espaço aberto pelo 1º de Maio aconteceu na praça em 1892. E a primeira greve de trabalhadoras e trabalhadores do Rio Grande do Sul, em 1906, teve a praça como local de concentração. A greve, que em 2026 completa 120 anos, mobilizou mais de 5 mil trabalhadores e parou a cidade. E foi na praça, naquele ano, que nasceu a Federação Operária do Rio Grande do Sul, uma ancestral das atuais centrais sindicais.”
Por questões climáticas, com previsão de chuva, o local das manifestações em Porto Alegre será a Casa do Gaúcho, no Parque da Harmonia (Brasil de Fato RS, Festival do Trabalhador e da Trabalhadora será na Casa do Gaúcho, em Porto Alegre, 28.04.26).
1º de Maio é dia de luta. 1º de Maio é dia de mobilização. 1º de Maio é dia de celebração. Viva as trabalhadoras e os trabalhadores! Viva a vida!
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

