- Os Atos pelo Sem Anistia, aproveitando o momento da data do golpe de 1964, indicam um caminho. Foram um acerto político, em primeiro lugar, pela linha justa. Unimos duas bandeiras que são o centro da tática: “Ditadura nunca mais” e “Cadeia para Bolsonaro”. Foram atos de “vanguarda”, no sentido de que se colocou em movimento uma militância ampla. Mas a jornada foi em escala nacional e, em São Paulo, a marcha foi, em comparação às últimas manifestações, forte, intensa e empolgada. Todos saíram de moral reforçada, e isso conta. Não foram menos de dez mil ativistas que saíram às ruas entre as 13h e as 17hs, e a passeata até o DOI-Codi foi emocionante. O ativismo amplo saiu feliz. As pessoas se olhavam com orgulho. Voltamos às ruas e fomos bem.
- O fato do “bando dos sete” estar na condição de réus, e Braga Netto estar preso é um fato histórico no Brasil, e alimenta a expectativa de que Bolsonaro será condenado. A perspectiva de uma vitória importa no ânimo das pessoas. Pesou o fato do ato de Bolsonaro em Copacabana não ter “bombado”, pesou a repercussão do filme “Ainda estou aqui” que se transformou numa ferramenta de luta na “guerra cultural”, pesou a convocação unitária da Frentes Brasil Popular e Povo sem Medo, e pesou o engajamento de Boulos na preparação. Estivemos na beira do precipício em 2022 e, até agora, não invertemos a relação de forças. Ninguém deveria esquecer que estivemos “por um triz”.
- Fica uma lição “granítica”: com uma linha acertada, a unidade pelo menos das forças de esquerda mais importantes, a esperança de que “o dia pode nascer feliz”, e uma direção que impulsiona a luta e inspira confiança é possível mobilizar com força, começando por mover os setores mais conscientes. Não seremos milhões nas ruas em pouco tempo. Mas esta luta não será uma prova de velocidade. Será uma maratona contra a extrema direita. Exige unidade e persistência. Precisamos de Lula e precisamos ganhar tempo. Precisamos de Lula para sair da defensiva e para derrotar o bolsonarismo em 2026. Precisamos ganhar tempo, porque a situação internacional já deixou claro que o enfrentamento contra os neofascistas não se esgotará em 2026.
- Mas, se estes atos foram úteis para acumulação de forças, o desafio não se esgota nesta iniciativa. O mais importante é compreender que a esquerda precisa de campanhas políticas que se articulam com a estratégia de derrotar o bolsonarismo em 2026. Uma campanha é uma luta por um programa. Este é o sentido do plebiscito em setembro pela taxação dos super-ricos, e pela redução da jornada de trabalho para acabar com a escala 6×1. O mergulho em um “sonambulismo quietista” é um erro. A esquerda, desde suas correntes mais moderadas até às mais radicais, deve se comprometer numa Frente Única que organize a militância para a agitação e propaganda em torno destes dois eixos, indivisíveis da luta pelo Sem Anistia.
- [A verdade é que não estamos bem, quando pensamos a dinâmica em longo prazo. Claro que uma maior força ou fraqueza do governo não depende somente das pesquisas de opinião da “semana” que são uma “régua” momentânea. A correlação política de forças deve ser avaliada considerando outros fatores como: (a) as relações de poder entre o governo e o Congresso Nacional e a Justiça, as Forças Armadas, a mídia, as disputas nas redes sociais; (b) a luta entre os partidos, as disputas nas redes sociais, a guerra ideológica que é a forma contemporânea, em linguagem gramsciana da “guerra de posições”. Além disso, a correlação política de forças não se autonomiza da correlação social de forças, em outro nível de abstração, mais estrutural, que são as posições das classes, frações de classe e grupos sociais, que permanece desfavorável porque a “massa” da burguesia está na oposição e arrasta a maioria da classe média e, entre uma parcela mais remediada dos trabalhadores o bolsonarismo mantém audiência. Isto posto, a queda de popularidade de Lula não foi somente uma oscilação leve. A dinâmica ruim vem ininterrupta desde o segundo semestre de 2024. Não melhorou depois do desastre do pix e da pressão inflacionária dos alimentos, entre outros fatores.
- Sair da condição de defensiva exige lucidez, coragem e inteligência. Lucidez para avaliar a situação tal como ela é, sem autoengano. Coragem para enfrentar o inimigo. Inteligência para abraçar uma tática que abra um caminho para vitórias. Apesar de dois anos de Lula na presidência, a situação não evoluiu bem: a esquerda perdeu as eleições municipais em 2024, a popularidade do governo está em queda há meses e, para piorar, Trump venceu nos EUA. Dois anos não são dois meses. Algo esteve muito errado na estratégia que vingou até aqui. Este balanço não é “impressionismo”. A expectativa de que as “entregas” serão suficientes ignora que, se a situação econômica e experiência de vivência das massas importa, não são o único “termômetro” na luta de classes. O país está fraturado, e há uma “guerra cultural” impiedosa e ininterrupta nas redes sociais. Uma estratégia que repousa somente “boa administração” subestima a “superpolitização” da extrema direita. O governo não deve se refugiar na “hibernação”, ou pior, em um “modo vegetal” de fotossíntese noturna à espera das eleições de 2026.
- A aposta estratégica do governo Lula na governabilidade “a frio” é um perigo. Não deu certo até agora. Vai dar certo até 2026? Esta escolha repousa no cálculo de que um giro à esquerda iria produzir uma ruptura da ampla coalizão que explica a decisão do PT de aceitar a indicação de Hugo Motta por Artur Lira para a presidência da Câmara, e de Alcolumbre no Senado. Sim, evidentemente, há riscos, mas Lula não deveria ficar refém da maioria reacionária no Congresso. Estão errados aqueles que concluíram que um giro à esquerda já começou com a indicação de Gleisi, e a apresentação do projeto de reforma do imposto de renda, isenção até cinco mil e taxação acima de cinquenta mil. São inflexões positivas, mas não há giro à esquerda sem a decisão de se apoiar em campanhas políticas e na mobilização popular. Uma “divisão de tarefas” entre os movimentos sociais e o governo é uma tática que já se provou equivocada. Os sindicatos e as Frentes que estão comprometidas com a estratégia de derrotar o bolsonarismo não têm força suficiente. O governo é um instrumento de luta. Não existe um “décimo primeiro mandamento” oculto que proíbe o governo de convocar mobilizações, como tem sido feito na Colômbia por Petro, e no Mexico por Cláudia Sheinbaum.
- O bolsonarismo tem uma estratégia. Faz manobras táticas exploratórias como a convocação de atos pela anistia, embora seja consciente que somente provoca ruído nas redes sociais e turbulências no Congresso Nacional. Mas serve para a acumulação de forças fazer a denúncia de “perseguição” política. Sabem que serão condenados e presos. O cálculo de Bolsonaro é lançar uma candidatura, se necessário de dentro da prisão, até o último momento e depois substituir por um aliado incondicional. Quer disciplinar a extrema direita e bloquear o espaço da centro-direita para que até o limite da inscrição jurídica legal as eleições de 2026 sejam uma polarização dele contra Lula. Sua expectativa é que, se uma candidatura como a de Tarcísio de Freitas vencer, será beneficiado por um indulto. Não esconde o plano de conquistar maioria no Senado para poder alterar a composição atual do Supremo Tribunal Federal. Há disputas no espaço da extrema direita, mas se enganam aqueles que subestimam Bolsonaro.
- Infelizmente, uma parcela da esquerda combativa radical não está de acordo que precisamos ganhar tempo e, muito menos, que precisamos de Lula. Alguns se declaram independentes do governo, e outros assumem a estratégia de oposição de esquerda. Independência é criticar o que se pensa que está errado, mas priorizando a defesa do governo diante do bolsonarismo. Quem defende a avaliação de que o governo mantém intacta uma política econômica neoliberal, e se apoia na burguesia contra os trabalhadores escolheu estar na oposição. Há um “grão” de justiça na crítica à política de Galípolo no Banco Central e de Haddad com o arcabouço fiscal, que desaceleram o crescimento. Mas, não é tão simples. A verdade é que a política econômica do governo é híbrida, e combina o ajuste fiscal com uma variedade ampla de medidas contracíclicas e reformas progressivas. Neoliberal é a estratégia do governo Milei. O governo Lula é um governo reformista, ou seja, de colaboração de classes, “fraco”. O posicionamento no terreno de oposição desconsidera que a única alternativa realista é que seja substituído pela extrema direita. Diante desta relação de forças, seria um erro integrar o ministério, e aceitar a disciplina de governo. Um partido não pode ter um pé dentro e outro fora. Seria deslealdade, quem está no governo denunciar o governo. Mas é um erro muito grave apostar numa estratégia de desgaste do governo, como se estivéssemos em 2005, não em 2025. Porque despreza que os beneficiados pela corrosão de Lula é, inevitavelmente, a extrema direita.
- Por último, mas não menos importante, dois meses de Trump já transformaram a situação mundial. Tudo mudou. O Brasil não será imune ao deslocamento das “placas tectônicas”: está em curso uma ofensiva brutal do imperialismo norte-americano. O sistema capitalista atravessa quatro crises de dimensão estrutural, não conjuntural, e elas são o fundamento da fratura na classe dominante, que atravessa o mundo, entre a ala que se deslocou para o apoio ao movimento neofascista, e ala liberal: (a) a dimensão econômica remete aos limites de uma lenta recuperação pós-pandêmica, com forte pressão inflacionária, em contraste com o crescimento dinâmico da China, que ameaça a supremacia norte-americana e da Tríade, e explica o contra-ataque protecionista dos EUA com a guerra tarifária para favorecer a reindustrialização interna; (b) a dimensão ambiental remete à caducidade das metas de transição energética, seja pela aceleração do aquecimento global com elevação de catástrofes, seja pela decisão de Trump de romper com o Tratado de Paris; (c) a dimensão geopolítica remete ao giro nacional-imperialista de Washington que anuncia um novo projeto colonialista – ameaça de limpeza étnica palestina em Gaza, anexação da Groenlândia, controle do Canal do Panamá, humilhação do Canadá, intimidação do Mexico, domínio das reservas minerais da Ucrânia – e uma estratégia de ruptura com o multilateralismo, desafiando a ONU e a OTAN, para impor uma relação de forças de subordinação à Europa; (d) a dimensão democrática remete à ofensiva autoritária interna de Trump – cerco aos imigrantes, às reivindicações dos movimentos feminista e negro, ataque a população LGBT, às lideranças estudantis dos atos pró-Palestina e, também, contra o funcionalismo público, às universidades, ao mundo da cultura e da arte – e o apoio à extrema direita em Israel, na Europa e, também, na América Latina, onde os regimes democrático-liberais estão ameaçados. Todas estas ações provocarão reações, resistência e conflitos, em distintas proporções. Mas Trump na presidência é um fator qualitativo que não pode ser desconsiderado quando avaliamos o desenlace da luta contra o bolsonarismo no Brasil. Diminuí-lo não é somente ilusão de ótica, mas irresponsabilidade.