Valerio Arcary

Valerio Arcary é professor titular no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), militante da Resistência/PSol, e autor de O Martelo da história, entre outros livros.

Notas sobre a turbulência mundial

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Fumaça sobe após ataque aéreo israelense nos subúrbios do sul de Beirute, área densamente povoada e frequentemente alvo de bombardeios
Fumaça sobe após ataque aéreo israelense nos subúrbios do sul de Beirute, área densamente povoada e frequentemente alvo de bombardeios | Crédito: AFP

'Hoje chuva e amanhã vento, tudo muda num momento' - Provérbio popular português

1. A análise das turbulências no mundo deve considerar, em primeiro lugar, as duas guerras em curso. Não são um ex abrupto da personalidade das lideranças. Não é relevante se Trump é megalomaníaco, paranoico, narcisista ou demencial. Só uma perspectiva histórica atribui sentido a estas guerras. Elas são uma aposta dos EUA, sob uma direção nacional-imperialista mais agressiva do governo Trump, mas em grande medida herdeira da estratégia [do ex-presidente estadunidense, Joe] Biden, de preservar sua posição de supremacia no mundo diante do fortalecimento da China. Há quatro anos se iniciou a guerra na Ucrânia, mas é impossível compreender o conflito ignorando que a invasão russa foi precedida por uma ofensiva imperialista de oito anos, liderada pela Otan, contra Moscou, que passou pelo apoio a uma guerra civil no vale do rio Don. Seria injusto desprezar que há uma dimensão defensiva na resistência de Kiev, mas mais grave seria desconhecer a natureza interimperialista da guerra, já que o governo [do presidente ucraniano, Volodymyr] Zelensky só se mantém porque tem apoio incondicional econômico, político e militar da União Europeia e dos EUA. As posições, essencialmente, inalteradas de guerra na Ucrânia são uma confirmação de que não existe uma solução militar. O projeto de Washington e de Bruxelas responde à estratégia de impor a exclusão ou, pelo menos, um grande isolamento à Rússia, principal Estado aliado de Pequim, do mercado mundial. Não farão concessões a Moscou se a Rússia não sinalizar distanciamento da China. A guerra de Israel e dos EUA contra o Irã se aproxima de dez semanas e responde ao projeto de conquistar domínio sobre o Oriente Médio, impondo uma subordinação a Teerã e ameaçando o acesso da China a uma das maiores reservas de petróleo e gás do mundo. O balanço destas duas guerras só poderá ficar claro considerando esta estratégia. Esta é a régua para aferir o desenlace dos atuais conflitos, e não o que Trump diz e desdiz todos os dias.

2. A subestimação do sentido da ofensiva dos EUA seria um erro irreparável. As declarações estapafúrdias de Trump, anunciando um “armagedon” um dia e um cessar-fogo no dia seguinte, são um “estilo” errático de disputa político-ideológica, mas não devem poluir a análise. O ataque contra a Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro no início de janeiro são indivisíveis desta estratégia que ressuscitou a doutrina Monroe e declarou a recolonização do hemisfério ocidental, inclusive a Groenlândia, como espaço vital de Washington. Os EUA ambicionam o deslocamento de Estados independentes para garantir o isolamento de Pequim. A contraofensiva é uma resposta à estratégia chinesa de articulação de um bloco por meio dos Brics. Se a Venezuela aceitar que não pode continuar vendendo petróleo para a China, o governo do PSUV, liderado por Delcy Rodrigues, pode permanecer no Palácio de Miraflores, mas a independência do seu Estado foi sacrificada. Se Teerã aceitar a supervisão de seu programa nuclear, compartilhar o controle do estreito de Ormuz com os EUA ou condicionar o fornecimento de petróleo para a China, a relativa independência do Irã será sacrificada, mesmo se o governo da liderança xiita permanecer no poder. O criminoso cerco a Cuba, uma pequena ilha inofensiva para os EUA, mas com imenso valor simbólico e ideológico, pode ser antessala de uma agressão brutal contra Havana e responde, portanto, a uma estratégia de dominação do mundo, subvertendo a coexistência pacífica que prevaleceu na relação com a China. Sinaliza para Pequim até onde Washington está disposto a ir. Obedece ao cálculo de que o custo das intimidações políticas e provocações militares — seja contra a Rússia, a Venezuela, o Irã, Cuba e até mesmo alguns aliados na União Europeia — é pequeno diante do desafio estratégico de colocar Pequim na defensiva. Inclusive, o custo das pressões inflacionárias sobre a economia mundial é somente um custo transitório. A mensagem é clara: se a China, aliás, legitimamente, decidisse exercer seu controle sobre o estreito de Taiwan, ameaçando o abastecimento dos semicondutores para a economia dos EUA, as retaliações seriam apocalípticas.

3. A questão estratégica é a decisão do núcleo duro da classe dominante dos EUA de reverter a tendência de lento, mas ininterrupto declínio de sua liderança econômica. O Produto Interno Bruto (PIB) mundial em 2026 deve alcançar, segundo as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), algo um pouco acima de US$ 125 trilhões de dólares. Estima-se que o PIB dos EUA seria de US$ 30 trilhões, um pouco menos de 25%, e o da China de US$ 20 trilhões. Quando estes cálculos consideram a paridade de poder de compra (PPC), a diferença é, qualitativamente, menor. Mas a questão decisiva é que estes dados, embora relevantes, não falam por si mesmos. Economia é poder. Mas a força econômica é indivisível da força política. O peso relativo dos EUA é declinante, irreversivelmente, mas somente se Washington não mobilizar ativa e até agressivamente suas, por enquanto, três grandes vantagens relativas em comparação com a China: (a) a superioridade militar dos EUA permanece intacta, e as demonstrações de força obedecem ao cálculo de intimidação; (b) a ilimitada capacidade de financiamento pela força do dólar como principal moeda de entesouramento permanece incólume, e garante que o endividamento do Estado pode se expandir; (c) o sistema de alianças com a União Europeia e o Japão permanece sólido, apesar de tensões sobre os custos da Otan. A maior debilidade comparativa que condiciona a supremacia estadunidense é a dificuldade de preservar estabilidade política sustentada pela coesão social interna. Avançou nos EUA um processo de fragmentação social e política. A China ainda está em posição militarmente inferiorizada e financeiramente limitada, e os Brics ainda são somente um laboratório exploratório. Mas o relógio da história não para. A importância dos três fatores que ainda favorecem os EUA está diminuindo. Esta dinâmica explica a estratégia de ganhar tempo de Pequim. A capacidade política de Pequim de mobilizar a maioria do povo, se for incontornável, até para a necessidade da guerra, parece ser superior. Esta desvantagem relativa é uma das razões que explicam por que uma fração da burguesia yankee apoia uma liderança de extrema direita com impulso neofascista: a necessidade de limitar as liberdades do regime democrático-liberal que condicionam sua capacidade de manobra.

4. O tempo corre contra Washington e é por isso que surgem as frações burguesas que apoiam governos liderados por movimentos de extrema direita neofascistas. A subversão dos regimes democrático-liberais que respeitam as liberdades democráticas e reconhecem a alternância é indispensável para preservar os privilégios exorbitantes das potências que exploram o mundo. A dominação imperialista do mundo, tal como se impõe hoje, indefinidamente, é insustentável sem a imposição de regimes autoritários. Todas as tentativas de preservação da supremacia da Tríade, em especial do papel inconteste dos EUA na liderança, exigirão um custo econômico-social tão elevado que a internalização de uma crise social severa, com ataques terminais às conquistas do pós-guerra ainda de pé, será, irreversivelmente, uma questão de tempo. A relação de forças entre os países na periferia e os Estados no centro da ordem mundial está em mudança. A principal mudança é o robusto e constante fortalecimento da China. Mas a existência, também, de Estados como a Índia ou o Brasil, a Turquia ou o Paquistão são exemplos de nações semiperiféricas que aumentaram suas posições de força relativa. Neste contexto, a desvalorização, desconsideração ou minimização do perigo do crescimento da extrema direita internacional seria fatal. Ocorrerão oscilações e turbulências no processo em curso de luta pelo poder por dentro das regras dos regimes democrático-liberais, mas o neofascismo faz uma disputa política implacável com “instinto de poder”.

5. Nem as crises econômicas, nem as disputas no sistema de Estados, embora ameacem a estabilidade da ordem imperialista, são suficientes para deslocá-la. Só a mobilização revolucionária de massas poderia fazê-lo. Mas as duas “ondas” do século XXI — as derrotas dos governos neoliberais na América do Sul e a Primavera Árabe — foram interrompidas e derrotadas. O sentido de uma estratégia anticapitalista em uma etapa reacionária da história é garantir uma ininterrupta acumulação de forças, por meio de batalhas parciais em cada país, inspirada em cálculo internacionalista lúcido. A aposta estratégica deve ser a luta por uma revolução popular anti-imperialista, portanto, socialista. Mas não podemos escolher o terreno de combate. Neste contexto, o destino das eleições presidenciais no Brasil é vital. Uma derrota de Lula diante de Flávio Bolsonaro em outubro teria consequências devastadoras na América Latina. Por outro lado, uma vitória de Roberto Sánchez contra Keiko Fujimori no Peru, ou de Iván Cepeda na Colômbia, mas, sobretudo, de Lula no Brasil estabeleceria uma linha de contenção para Trump.

Editado por: Thaís Ferraz

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