Vanda de Assis

Vereadora de Curitiba pelo PT, assistente social, educadora popular,
Freiriana, promotora legal popular e servidora pública licenciada.

Foto Diretoria de Comunicação Social / CMC

A pedagogia do ódio nas escolas cívico-militares do Paraná

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'Deixar corpo no chão': vídeo que circulou nas redes mostra alunos cantando música com apologia à violência em colégio cívico-militar do Paraná
‘Deixar corpo no chão’: vídeo que circulou nas redes mostra alunos cantando música com apologia à violência em colégio cívico-militar do Paraná | Crédito: Divulgação

Ao cantar isso, os estudantes não celebram a lei, mas a sua suspensão. Não glorificam a justiça, mas assassinatos sumários

Um vídeo gravado em um colégio cívico-militar de Curitiba expõe uma prática perturbadora: alunos, uniformizados e em formação, são obrigados a entoar uma canção cuja letra é um hino de ódio e violência. Os versos, musicados como hino escolar, glorificam a figura do “policial fardado” em oposição ao “favelado” e transformando a morte em espetáculo, “Homem de preto, qual é sua missão? Entrar na favela e deixar corpo no chão”.

A cena, longe de ser um incidente isolado, é a ponta visível de um projeto pedagógico perverso que normaliza a barbárie e institucionaliza o racismo estrutural brasileiro.

A letra da cantiga não é uma brincadeira aleatória; é um manual concentrado de estereótipos. Ela opera uma divisão do mundo entre os “de bem” (representados pela instituição policial-militar) e os “bandidos” (identificados com o “favelado”). Esta associação direta e criminalizante entre moradia popular e bandidagem não é inocente. Ela atualiza um racismo científico do século 19, que buscava correlacionar fenótipo, geografia e caráter. A favela, território historicamente negro e periférico no Brasil, é transformada em zona de exceção, e seus moradores, em inimigos a serem abatidos, não cidadãos a serem integrados.

A referência em “deixar corpo no chão” ecoa tragicamente casos reais de violência policial excessiva e letal, majoritariamente contra corpos negros e pobres, como das inúmeras vítimas de chacinas em comunidades. Ao cantar isso, os estudantes não celebram a lei, mas a sua suspensão. Não glorificam a justiça, mas assassinatos sumários. A escola, que deveria ser espaço de reflexão crítica e construção de cidadania, torna-se palco de um ritual de adestramento que naturaliza o extermínio.

Esta prática não pode ser dissociada do contexto mais amplo da militarização da gestão escolar no Paraná e no Brasil. O modelo cívico-militar, apresentado como solução para “disciplina” e “valores”, frequentemente se sustenta em uma lógica belicista e autoritária. A ordem unida, o uniforme rigoroso e a hierarquia rígida preparariam, em tese, “melhores cidadãos”. No entanto, o caso curitibano revela o que está por trás dessa formação: a cidadania para alguns é construída sobre a desumanização de outros. A “disciplina” aqui serve para calibrar o ódio, direcionando-o contra o alvo historicamente construído como problema social: a população pobre, negra e periférica.

Portanto, a obrigatoriedade do canto não é um mero absurdo pedagógico, mas um ato político profundamente racista. Ele instrumentaliza a escola para reproduzir e reafirmar o racismo estrutural. Ensina-se aos jovens que há vidas que merecem ser cantadas em verso de guerra e outras que podem ser reduzidas a alvos. Corrói-se qualquer possibilidade de empatia e reforça-se a segregação espacial e social como ordem natural.

Enquanto a escola militar do governador Ratinho Jr (PSD) ensina a cantar o extermínio, ela silencia sobre os reais problemas do país: a desigualdade social, a herança escravocrata e a violência de Estado. Combater essa prática é mais do que proibir uma música, é desmontar uma pedagogia que enxerga na violência contra favelados e, por extensão, contra a população negra, um método legítimo de educação e controle social.

*Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas
Sindicalizadas/os no SISMUC

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