Nas últimas semanas a mídia comercial tem destacado o “absurdo” do Brasil ter incentivado (e ainda incentiva) a produção de energia solar e convertida em eletricidade pelos painéis fotovoltaicos e agora não poder usar parte desta energia produzida. Na energia eólica (ventos) também ocorre em parte esta situação. O “absurdo” é ainda maior porque descartamos energia e o preço não baixa.
Nem é um absurdo, e podemos melhorar o uso desta que é a melhor de todas as energias, a energia elétrica.
Realmente chegamos a ponto de não podermos utilizar toda a energia elétrica disponível em determinado horário, e que seria fundamental num horário seguinte. Este não é um problema (bom) somente brasileiro, que se acentuou nos anos recentes, ocorre com todos os países com grande crescimento das energias renováveis, especialmente a solar.
É preciso entender como no Brasil ocorre a geração de energia elétrica e como a mesma é consumida em nossos lares e todas as atividades de nossa vida.
Estamos todos vinculados ao Sistema Interligado Nacional de Energia Elétrica (SIN)
Estamos todos ligados ao Sistema Interligado Nacional de Energia Elétrica (SIN) – que integra o país, à exceção de regiões isoladas da Amazônia e dos arquipélagos de Fernando de Noronha e outros.
O país é interligado por mais de 170 mil km de linhas de transmissão que recebem a energia de milhares de usinas, desde a gigante Itaipu até os excedentes gerados das placas solares dos telhados, transportando-a a todas as regiões, onde é distribuída pelas empresas distribuidoras. Vinculado a 90 milhões de consumidores, é capaz de atender simultaneamente a uma potência de 250 Gw (trilhões de watts). Trata-se do maior sistema integrado do mundo em extensão. Funciona “on line”, ou seja, a energia total gerada a cada momento deve ser igual a energia consumida neste momento mais as perdas.
Possuir o SIN é muito bom, permite transferir a energia das regiões com excedente de energia para as demais regiões em falta. Permite priorizar o uso das energias renováveis em detrimento do uso de combustíveis. É usual, quando, por redução de chuvas, os reservatórios de água de uma região estiverem baixos, esta ser socorrida por outras regiões.
O Operador nacional do Sistema de Energia Elétrica (ONS) coordena o SIN.
A operação deste Sistema, ou seja, decidir quais usinas devem “despachar” sua produção no Sistema a cada momento, além de determinar o desligamento e religamento de linhas de transmissão e subestações, é coordenada centralizadamente pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
O trabalho do ONS consiste fundamentalmente em atender, com os recursos do SIN, a demanda de energia solicitada por todos os consumidores no transcorrer do tempo, ou seja, a chamada “curva de carga” do Sistema.
Nos tempos em que ainda não tínhamos a geração eólica e a solar, em dias com temperaturas amenas (fora do verão), tínhamos uma curva de carga semelhante à figura abaixo. A demanda subia até às 14:00H e se mantinha praticamente constante até o início da noite, chamada de “base”, quando então ia alcançar a sua “ponta” entre 20:00 e 21:00H. A base era atendida com as hidrelétricas (quedas d’água), termelétricas a biomassa (bagaço de cana, renovável) e a usina nuclear de Angra dos Reis (sempre despachada em função de seu preço baixo), tudo algo em torno de 75%. A ponta era complementada com geração termelétrica de combustíveis fósseis, principalmente gás natural, carvão mineral e petróleo.
Curva de carga antes da entrada de eólica e solar, em temperaturas amenas.
Hoje, os combustíveis fósseis participam somente em torno de 10%, fundamentais não somente para auxiliar na ponta, mas representam a segurança do Sistema, porque os recursos naturais são instáveis, dependentes das condições de tempo.
As energias eólica e solar atendem ao crescimento e substituem combustíveis fósseis.
A entrada cada vez mais intensa das formas renováveis, eólica e solar, vieram tanto para atender o aumento da demanda como para substituição dos combustíveis fósseis, estes geradores de poluição e dos gases de efeito estufa.
Nos dias 28 e 29/10/25, tivemos em Porto Alegre o evento “Inter SOLAR Summit Brasil Sul”, evento nacional com participação internacional (Alemanha principalmente), onde foi apresentada e analisada a atual situação brasileira da geração solar, relacionando-a com aspectos de outros países.
A energia solar já é a segunda maior fonte de geração de energia elétrica.
A energia solar já é a segunda mais produzida no Brasil, com 24% na matriz de oferta, superada apenas pela hidrelétrica. Possui instalados 62 Gw (trilhões de watts) de potência, sendo 73% em telhados. A nível nacional possuímos boa ensolação, capaz de render a produção de 2100 kwh/m², enquanto na Alemanha é possível produzir 1186 kwh/m² (situação parecida no Rio Grande do Sul). No último ano, o Brasil instalou potência solar equivalente a uma Itaipu. Desde os preços iniciais, o preço dos painéis hoje é somente de 5%, tornando-se uma das energias menos caras.
Somos a sexta maior produção mundial, atrás da China, Estados Unidos (EUA), Índia, Japão e Alemanha. Percentualmente em relação ao total estamos em segundo lugar, encostando na China. O Rio Grande do Sul (RS) é o quarto maior estado de produção no Brasil, atrás de SP, MG e Paraná.
A curva do pato é um problema brasileiro e de todos os países com intensa produção de eólica e solar.
O principal problema abordado foi a “Curva do Pato” (assim conhecida internacionalmente), ou seja como ficou a nossa (e de outros países) curva de carga após a entrada da eólica e principalmente da solar, especialmente na condição de GD (geração distribuída), em que cada consumidor gera a sua energia, despacha o excedente no SIN, porém requer o socorro de atendimento da rede pública no períodos de baixa ou nenhuma geração.
Em torno do meio-dia a geração solar tem seu melhor momento, o consumo dos respectivos proprietários é próprio e o excedente fica disponível para despacho. É a situação em que a curva de carga está no início do pescoço do pato (Vide figuras abaixo). Em função do acréscimo de energia solar, a cada ano a curva afunda mais.
O ONS, neste momento, não pode aceitar o despacho de todas as gerações solar e eólica, porque isto tornaria o Sistema instável, derrubando-o (blackout)


A partir daí a demanda vai subindo até em torno das 20 horas, ponta da cabeça do pato. A situação é agravada porque os painéis solares já pararam de gerar (não há mais sol) e seus proprietários agora estão vinculados à rede pública. Ainda neste horário, início da noite, a maioria dos veículos elétricos chegam nas suas garagens e suas respectivas baterias são colocadas para recarregamento.
É possível armazenar energia em baterias durante o dia para uso noturno.
Quem já conseguiu encaminhar uma solução foi o estado da Califórnia (EUA) que, entre outras medidas, (i) aplica uma tarifa maior aos consumidores no horário da ponta, incentivando o maior uso da energia para mais tarde (o que implica na troca dos medidores), e (ii) instala grandes bancos de baterias, que acumulam a energia excedente durante o dia, liberando-a no Sistema no horário da ponta. A grande redução dos preços das baterias, atualmente em torno de 8% dos preços iniciais, possibilita esta solução, que também não se efetiva muito rapidamente, devido à grande demanda mundial de fabricação de baterias. Há quem sugira não mais acrescentar geração termelétrica com combustíveis fósseis, substituindo-a por blocos de baterias. O Sistema elétrico brasileiro planeja um leilão de baterias para o próximo ano.
Continuar a produção solar continua sendo fundamental
Enquanto busca-se soluções para a curva do pato, as instalações eólicas e solares devem continuar sendo implantadas. Em especial sugerimos dar preferência às seguintes situações:
(i)-Incentivar que as novas instalações solares (e mesmo as já existentes) também instalem seus bancos de baterias, carregando-as durante o dia para uso noturno e dias sem sol, tornando-se independentes da rede pública (Off grid);
(ii) – Priorizar instalação de painéis solares e banco de baterias nos sistemas isolados da Amazônia e em de Fernando de Noronha, onde hoje a energia elétrica é gerada por combustíveis subsidiados por todos os consumidores brasileiros;
(iii) – Utilizar mais a instalações de painéis e baterias na agricultura, em sistemas isolados, como nos levantes de água, tão necessários no RS e outros estados. A Alemanha usa intensamente esta alternativa; numa plantação de macieiras feita entre painéis solares, reduziu em 85% a pulverização;
(iv) geração de energia elétrica em painéis solares (com ou sem banco de baterias) para geração de hidrogênio verde (H2V) através da eletrólise.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

