Vicente Rauber

Engenheiro especializado em Planejamento Energético e Ambiental.

Histórias da era do petróleo (3)

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Navios comerciais são vistos ao largo de Dubai em 11 de março de 2026. Novos ataques atingiram três navios comerciais no Golfo em 11 de março, com um deles em chamas, enquanto o Irã intensificava sua campanha contra seus vizinhos exportadores de petróleo, ameaçando a navegação no Estreito de Ormuz e mergulhando a economia energética global em crise
Navios comerciais são vistos ao largo de Dubai em 11 de março de 2026. Novos ataques atingiram três navios comerciais no Golfo em 11 de março, com um deles em chamas, enquanto o Irã intensificava sua campanha contra seus vizinhos exportadores de petróleo, ameaçando a navegação no Estreito de Ormuz e mergulhando a economia energética global em crise | Crédito: AFP

Petróleo influencia a vida no planeta desde 1850 e mais incisivamente desde o início do século 20

Inicialmente vamos renovar um convite fundamental. 

O Brasil tem avançado em seu desenvolvimento. Porém ainda temos um grande percurso a percorrer. Quais são os caminhos? Vide no site “Conferência da Soberania” os eventos programados e participe. 

Seguimos falando da Era do Petróleo, que desde 1850 e mais incisivamente desde o início do século 20, influencia a vida no planeta, através dos meios de transporte e de produção.

Na Segunda Guerra Mundial o petróleo participou do início ao fim, sendo decisivo. Vamos falar destas histórias iniciadas na edição (1) desta série.

1 – Judeus ajudaram Hitler na obtenção de petróleo – nesta história usamos a ajuda da premiada obra O Petróleo – Uma história mundial de conquistas, poder e dinheiro, de Daniel Yergin, que reescreveu a história internacional mostrando a participação do petróleo em cada período.

Corria o ano de 1932, em Munique, Hitler já era o grande líder do Partido Nacional Socialista, ou seja, dos nazistas, e estava em franca campanha para assumir o poder. Com o fortalecimento do parlamento (Reichstag), foi nomeado chanceler pelo presidente Paul Von Hindenberg. Desde o início foi eliminando a oposição e tornando o parlamento inútil. A depressão estava forte e em agosto de 1934 faleceu o presidente Hindenberg, e Hitler unificou os poderes, declarando-se Führer (Líder) da Alemanha, perseguindo e eliminando membros do Partido Comunista, judeus e negros.

Hitler conhecia a enorme dependência e dificuldade alemã na obtenção do petróleo, o que dificultava completamente suas pretensões de transformar a Alemanha numa grande potência, especialmente com grandes rodovias, bem como a sua loucura de colocar a “Alemanha acima de todos”.

Voltando a 1932, em Munique, existia um gigante conglomerado químico alemão, que os nazistas denunciavam como “lordes financeiros internacionais” e “judeus donos do dinheiro”.

Tratava-se do grupo I.G. Farben, que mostrou a Hitler como era possível produzir petróleo com carvão mineral, deixando-o completamente hipnotizado em duas horas e meia de conversa.

O que I.G. Farben demonstrou a Hitler foi o que o alemão Friedrich Bergius havia descoberto em 1913, ou seja, a hidrogenação do carbono, obtendo combustíveis líquidos, também chamados de combustíveis sintéticos, como a gasolina e o óleo diesel.

Esta descoberta chamada de processo Bergius, era então detida por outra empresa, Fischer-Tropsch, de quem I.G.Farben comprou a patente.

Na época, o carvão mineral representava 90% dos recursos energéticos alemães, que I.G.Farben utilizou para auxiliar Hitler a desenvolver a Alemanha, incluindo o desenvolvimento, a partir de 1934, de um “carro do povo”, traduzindo para o alemão “Volkswagen”.

I.G. Farben auxiliou amplamente Hitler também durante a guerra, inclusive financeiramente e fornecendo mão-obra escrava. Mas antes retirou todos os judeus entre seus quadros dirigentes e funcionários.

Em 1945 a Alemanha, juntamente com a Itália e o Japão, que formavam o “Eixo”, perderam a guerra para os demais países, principalmente EUA e URSS, denominados “Aliados”.

Os Aliados fecharam a I.G.Farben, que foidividida entre seus fundadores: Bayer, Basf e Hoechst.

A solução que Hitler tinha para o abastecimento de petróleo o limitava muito, sempre tentou atingir reservas petroleiras maiores. Ao atacar a URSS, além de “acabar com os comunistas” seu grande objetivo era alcançar, entre outras, as reservas petroleiras do Cáucaso Soviético, de Baku no Azerbaijão, além de atacar o norte da África, chegar ao Canal de Suez e alcançar o Oriente Médio.

Como sabemos, os alemães sofreram profundamente nas gélidas terras soviéticas, até serem derrotados na maior e mais sangrenta batalha de todas, a de Stalingrado. A partir desta batalha, o exército vermelho promoveu a virada, até marchar vitoriosamente sobre Berlim.

1.1 – Eventos e consequências em torno do petróleo durante a Guerra.

As batalhas em torno do petróleo, especialmente envolvendo o Estreito de Ormuz, na atual guerra EUA/Israel x Irã, não são novas.

Na Segunda Guerra Mundial, eram motivo de disputa todo o tempo, especialmente na parte final da Guerra, quando frotas inteiras foram paralisadas. Em vários países houve forte crise no transporte civil, que limitou-se a transportar suprimentos essenciais. Vejamos alguns exemplos durante a Guerra:

(i) Os aliados bombardeavam as estações que produziam o combustível sintético na Alemanha, o que provocou grande escassez de petróleo. Isto afetou o poderio de guerra da Alemanha, a ponto de paralisar a força aérea Luftwaffe; ao final da guerra nem os blindados tinham combustível;

(ii) Os bloqueios de petróleo eram constantemente usados pela Alemanha. Para superar esta situação,  países europeus integrantes dos Aliados construíram grandes oleodutos, ainda que limitados tecnicamente. Chegaram a implantar o sistema Pipe-lines Under the Ocean (Pluto) sob o Canal da Mancha.

(iii) O Leste dos EUA dependia do petróleo importado por navios, que eram atacados pelos submarinos alemães. Os EUA socorreram-se construindo oleodutos internos;

(iv) Os EUA bloquearam a entrada de petróleo no Japão, que foi socorrer-se para o sudeste asiático, como as Índias Orientais Holandesas, atual Indonésia. Neste contexto, o Japão também atacou Pearl Harbor, impedindo o avanço da frota norteamericana. Depois os EUA usaram este “motivo” para lançar as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. No final da Guerra, os navios de guerra japoneses sequer conseguiam mover-se por falta de combustível;

(v) A URSS adotou uma geopolítica e orientação militar forte para proteger suas reservas de petróleo, fator central de sua vitória sobre os alemães;

Além do uso do carvão mineral para produzir combustíveis, o xisto também foi utilizado para produzir petróleo, como ocorre até hoje em São Mateus do Sul, no Paraná.

Também o etanol teve um papel importante; a Alemanha usava-o em seus mísseis V-2, bem como decretou a mistura de álcool na gasolina. O Brasil chegou a usar 40% de etanol na gasolina naquela época. Os EUA usavam-o em usos industriais e em motores de torpedos.

Vista da cidade de Pístola, onde funcionou um dos hospitais de campanha utilizados pela FEB durante a Segunda Guerra Mundial, na Itália, 1944/1945. Pístola, Itália / Acervo Casa de Oswaldo Cruz

2 – O Brasil buscou solução no Gasogênio

O Brasil também procurou manter-se numa “neutralidade pragmática” até a frota mercante brasileira ser atacada por submarinos alemães/italianos, além de forte pressão dos EUA. Em 22 de agosto de 1942 declarou guerra ao Eixo, a seguir enviando 25000 “pracinhas”, soldados da FEB – Força Expedicionária Brasileira – a lutarem na Itália.

Mesmo os países não envolvidos diretamente na Guerra, sofreram duramente com a falta de abastecimento de petróleo e a inflação. Havia rotas comerciais marítimas interrompidas, havia falta de navios-tanque e a prioridade era o abastecimento das frotas de guerra.

Fonte: Youtube

Esta situação também chegou ao Brasil, que, além de álcool, também socorreu-se do “gás pobre”, com o apoio do Ministério da Agricultura. Este combustível era produzido num equipamento chamado gasogênio acoplado a carros, tratores e ônibus e que usava como matéria prima a queima de madeira e carvão vegetal

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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