Queridas amigas e amigos,
Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.
Em uma noite de setembro de 2024, o presidente da Argentina, Javier Milei, estava diante de uma grande multidão no Parque Lezama, em Buenos Aires. Ele vestia sua jaqueta de couro escura e discursava aos gritos, enquanto a multidão devorava cada palavra. “Aqui estão os trolls, jornalistas corruptos e obscuros. Esses são os trolls”, disse. Então, apontou para as pessoas na multidão e disse que elas eram invisíveis porque os jornalistas tinham “o monopólio dos microfones”. Era uma linguagem dura, uma réplica da declaração de Donald Trump de que os jornalistas são os “inimigos do povo” (que é um eco da declaração do presidente dos EUA, Richard Nixon, ao seu conselheiro Henry Kissinger em 1972: “A imprensa é o inimigo. A imprensa é o inimigo. O establishment é o inimigo. Os professores são o inimigo. Os professores são o inimigo. Escreva isso no quadro-negro 100 vezes e nunca se esqueça”). Essas declarações não vêm sem custo. Desde que Milei assumiu o cargo em dezembro de 2023, os ataques a jornalistas aumentaram.
A Argentina tem uma história dolorosa. O país lutou contra regimes militares por quase um quarto do século passado: 1930–1932, 1943–1946, 1955–1958, 1962–1963, 1966–1973 e 1976–1983. A mais perturbadora da série foi a última ditadura, na qual uma junta militar do exército, marinha e força aérea comandou o país por quase oito anos, desapareceu (uma maneira educada de dizer assassinou) pelo menos 30 mil pessoas e roubou centenas de bebês de famílias de esquerda. Quase toda a minha geração de esquerda foi assassinada por essa ditadura.
A ditadura tinha um nome assustador: Processo de Reorganização Nacional. Esse “processo” significava a remoção sangrenta de toda a ala esquerda do país, de sindicalistas a comunistas e jornalistas (toda a arte desta carta é de pintores e fotógrafos comunistas da Argentina, um tributo ao seu amplo talento). Em uma carta surpreendente aos líderes militares do país, o jornalista Rodolfo Walsh escreveu sobre os assassinatos em massa, “a política que vocês planificam em seus Estados maiores, discutem em suas reuniões de gabinete, impõem como comandantes chefe das três armas e aprovam como membros da Junta de Governo”.

Quarenta e oito anos atrás, em 25 de março de 1977, Rodolfo Walsh, aos 50 anos, foi morto na Escola de Mecânica da Marinha (ESMA), para onde foi levado após ser baleado repetidamente por um esquadrão de soldados no cruzamento das avenidas San Juan e Entre Ríos, em Buenos Aires. Walsh tinha acabado de postar várias cópias de sua carta para a Junta quando foi encontrado e emboscado. Quando um dos atiradores, Ernesto Weber, foi levado a julgamento décadas depois, ele disse: “Nós tombamos Walsh. O filho da puta se escondeu atrás de uma árvore e se defendeu com uma 22. Nós metemos bala nele, mas ele não caía, o filho da puta”.
Há vários anos, uma jovem repórter me escreveu para lhe enviar uma lista de jornalistas cuja escrita eu admirava. Vasculhei um velho caderno e encontrei a lista que eu tinha feito para ela. Não é muito longa, com apenas dez nomes: Wilfred Burchett, Eduardo Galeano, Ryszard Kapuściński, Gabriel García Márquez, John Reed, Agnes Smedley, Edgar Snow, Helen Foster Snow, Rodolfo Walsh e Ida B. Wells. Algumas características unem o trabalho desses jornalistas: primeiro, rejeitaram a estenografia da imprensa capitalista e queriam contar as histórias do mundo do ponto de vista dos trabalhadores e camponeses; segundo, não apenas descreveram eventos, mas os colocaram dentro dos grandes processos do nosso tempo; terceiro, não apenas escreveram, mas elaboraram suas histórias, seu paladar emocional informado por seu senso do que o leitor precisava saber; e, finalmente, não escreveram apenas do ponto de vista dos perseguidos, mas acreditaram neles e escreveram sobre as lutas do nosso mundo com sinceridade, sem ironias. Burchett, um australiano, foi a primeira pessoa não japonesa a entrar em Hiroshima e anunciar os efeitos reais da bomba nuclear para o mundo; Márquez, um colombiano, despedaçou as mentiras de seu governo e contou a verdadeira história dos homens no navio de combate Caldas que morreram no Caribe em 1955; e Wells, dos Estados Unidos, detalhou os horrores do linchamento, que se tornou a maneira como o racismo continuou a estrutura da escravidão, mesmo depois desta ter sido formalmente abolida. Esses foram grandes escritores com imensas histórias para contar. É difícil não admirá-los.
Entre esses escritores estava Walsh. Embora eu só o conhecesse por seu livro Operação Massacre (1957) e pela carta final que escreveu antes de ser assassinado, o livro sobre aquele incidente foi suficiente para consolidar sua reputação.
Walsh não era intrinsecamente um homem de esquerda. Ele gostava de xadrez e quebra-cabeças. Uma noite, em um café onde estava jogando xadrez, Walsh ouviu que havia um sobrevivente de um massacre brutal nos arredores de Buenos Aires de alguns homens acusados de fomentar uma revolta armada contra os militares que depuseram Perón em 1955. Poucos dias depois, Walsh encontrou o sobrevivente, Juan Carlos Livraga, e ouviu sua história. Isso mudou tudo. Walsh agora era um jornalista viciado em histórias.
Essa história começou em 9 de junho de 1956, quando vários homens se reuniram no bairro de Florida para ouvir uma luta de boxe no rádio. Não era uma luta de boxe qualquer. O argentino Eduardo Jorge Lausse, que derrotaria a lenda cubana Kid Gavilan mais tarde naquele ano, em setembro, enfrentou o campeão chileno dos médios Humberto Loayza no Estádio Luna Park, em Buenos Aires. O que os homens que ouviam o rádio não sabiam era que haveria uma revolta naquela noite liderada por oficiais militares leais ao presidente deposto Juan Perón. Eles não tiveram participação nisso. No entanto, os soldados chegaram na rua onde estavam reunidos, os prenderam e os levaram para um lixão e disseram para eles correrem; e então os alvejaram. Sete sobreviveram, correndo para salvar suas vidas ou se fingindo de mortos no meio do lixo.
Quando Walsh recebeu a dica, ele contratou a jornalista Enriqueta Muñiz (1934–2013) para trabalhar com ele na história. Seus cadernos, publicados em 2019, em Historia de una investigación. Operación masacre de Rodolfo Walsh: una revolución de periodismo (y amor), [História de uma investigação. Operação Massacre de Rodolfo Walsh: Uma revolução de jornalismo (e Amor)], detalha sua busca metodológica pelos sobreviventes e suas histórias. Eles descobriram, por exemplo, que as prisões ocorreram antes de um Estado de Emergência ser declarado, mas os assassinatos ocorreram depois. Isso significava que os militares haviam realizado um assassinato a sangue frio de homens da classe trabalhadora que não tinham nada a ver com os eventos políticos daquela noite. Eles só queriam ouvir Lausse colocando Loayza no chão.
Juan Carlos Castagnino (Argentina), Milharal, 1948.
Nenhum grande veículo queria a história de Walsh. Ele publicou uma enxurrada de artigos em uma série de pequenos periódicos, como Mayoría e Revolución Nacional, até que finalmente a editora Sigla publicou Operación Masacre (que ele dedicou a Muñiz). Walsh e Muñiz queriam que os homens responsáveis pelos assassinatos fossem presos, mas isso simplesmente não aconteceu. Um dos culpados, o chefe de polícia Coronel Desiderio Fernández Suárez, morreu ileso em 2001.
Em 1959, Walsh foi a Cuba, encontrou a revolução revigorante, conheceu seu colega argentino Che Guevara e — com seu amor por quebra-cabeças — decodificou os sinais dos EUA que então alertaram o governo cubano sobre a invasão na Baía dos Porcos em 1961. Em Cuba, Walsh trabalhou na Prensa Latina, a agência de notícias do estado cubano, antes de se juntar ao conselho editorial da Problemas del Tercer Mundo [Problemas do Terceiro Mundo, dirigido por dissidentes do Partido Comunista Argentino] e depois editar o jornal da Confederação Geral de Sindicatos da Argentina (CGT), que funcionou de maio de 1968 a fevereiro de 1970. Enquanto trabalhava na CGT, Walsh investigou o assassinato de Rosendo García em 13 de maio de 1966. García, um líder do sindicato dos metalúrgicos, foi assassinado em um tiroteio com colegas sindicalistas liderados por Augusto Timoteo Vandor, morto a tiros em 1969. Walsh escreveu dois livros sobre assassinatos que definiram a política da Argentina: ¿Quién mató a Rosendo? (Quem matou Rosendo?, 1969), sobre o assassinato de García, e Caso Satanowsky (O caso Satanowsky, 1973), sobre o assassinato em 1957 do advogado Marcos Satanowsky pelas agências de inteligência do Estado.
Lino Enea Spilimbergo (Argentina), O terraço, 1930.
Em 1969, um entrevistador perguntou a Walsh sobre sua política. “Obviamente, devo dizer que sou marxista”, respondeu, “mas um mau marxista porque leio muito pouco: não tenho tempo para me educar ideologicamente. Minha cultura política é mais empírica do que abstrata”. Essa foi uma resposta honesta. Os instintos de Walsh se inclinaram para a Revolução Cubana. Ele se juntou a organizações políticas, mas seu coração estava no jornalismo. Quando os militares começaram a se mover na Argentina como parte da Operação Condor do governo dos EUA, Walsh fundou a Clandestine News Agency (Ancla) com Carlos Aznarez (que agora dirige o Resumen Latinoamericano) e Lila Victoria Pastoriza (que foi torturada por dois anos pela junta militar e agora escreve na Revista Haroldo). Quando a filha de Walsh, María Victoria, que estava na luta armada contra a ditadura, e Alberto Molina, foram encurralados pelo exército em Buenos Aires, eles levantaram as mãos e disseram: “ustedes no nos matan; nosotros elegimos morir” (vocês não nos matam; nós escolhemos morrer) e atiraram em si mesmos. Então Walsh pegou sua máquina de escrever e começou a redigir sua longa carta à Junta, que enviou no aniversário do golpe. Deveria ser leitura obrigatória para todos.
O tom da carta é ao mesmo tempo empírico e fantástico: “Foi descoberto em agosto de 1976, por um morador local que mergulhava no Lago San Roque, em Córdoba, o que era essencialmente um cemitério subaquático. Ele foi até a delegacia de polícia, onde não levaram seu relatório, e ele escreveu aos jornais, que não o publicaram’.
Adriana Lestido (Argentina), Mãe e filha da Praça de Maio, 1982.
Os jornais também não publicam os assassinatos e prisões do nosso tempo. Eles ficam maravilhados com o Oscar e a Paris Fashion Week. Eles não têm tempo para a loucura libertária de Milei, a destruição de instituições para beneficiar bilionários. Se a mídia escreve alguma coisa, os Mileis e Trumps os chamam de “inimigos do povo”, agentes deste ou daquele governo.
Enquanto isso, esses monstros que usam máscaras humanas fraudam seu próprio povo em nome do nacionalismo e entregam sua riqueza nacional a uma classe que não quer mais compartilhar o planeta conosco. Isso é o que Walsh teria escrito. É o que Walsh exigiria que escrevêssemos em seu lugar.
Cordialmente,
Vijay