Queridas amigas e amigos,
Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.
Vivemos num mundo de cabeça para baixo. Os líderes das nações mais ricas, as antigas potências coloniais, querem reabilitar a linguagem do imperialismo: o elogio ao passado e o desejo de repetir esse messianismo no presente. Enquanto isso, os povos das nações mais pobres reivindicam paz e desenvolvimento, bem como um pedido de desculpas pelos crimes do colonialismo e reparações pela pilhagem perpetrada durante esse período. A palavra de ordem do povo é simples: “Que seja feita a justiça”. Ela ressoa agora, mas se intensificará com o tempo.
![Christopher Cozier (Trinidad e Tobago), Tropical Night [Noite tropical], 2006–2014.](https://www.brasildefato.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Christopher-Cozier-Trinidad-and-Tobago-Tropical-Night-2005–2015-1020x1024-1.webp)
Quando autoridades dos Estados Unidos vêm à Europa para discutir geopolítica, altos funcionários europeus ouvem atentamente. No ano passado, na Conferência de Segurança de Munique, o vice-presidente estadunidense JD Vance repreendeu os europeus pelo que chamou de crise “criada por nós mesmos”. Ele foi criticado por sua insolência em relação à democracia europeia, que ele repreendeu por não dar a devida atenção à “questão” da migração e por se preocupar excessivamente com a ascensão de um tipo específico de extrema direita.
Jornais europeus, do The Guardian ao Le Monde, criticaram Vance por sua insolência. No entanto, a maioria dos altos funcionários liberais europeus — da Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, Kaja Kallas, ao Secretário-Geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Mark Rutte — baixaram a cabeça e disseram que a Europa faria bem em cumprir as metas estabelecidas pelos Estados Unidos para gastos militares. Essa busca pela militarização tem caminhado lado a lado com uma capitulação constante à extrema direita.
Este ano, o representante dos EUA na Conferência de Segurança de Munique foi o Secretário de Estado Marco Rubio. Em seu discurso, Rubio ofereceu uma lição de história bastante precisa:
Durante cinco séculos, antes do fim da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente se expandiu — seus missionários, seus peregrinos, seus soldados, seus exploradores partiam de suas costas para cruzar oceanos, colonizar novos continentes e construir vastos impérios que se estendiam por todo o globo. Mas, em 1945, pela primeira vez desde a época de Colombo, começou a se contrair. A Europa estava em ruínas. Metade dela vivia atrás de uma Cortina de Ferro, e o restante parecia que logo seguiria o mesmo caminho. Os grandes impérios ocidentais entraram em declínio terminal, acelerado por revoluções comunistas sem Deus e por levantes anticoloniais que transformariam o mundo e estampariam a foice e o martelo vermelhos em vastas extensões do mapa nos anos seguintes.
A orientação histórica geral de Rubio está correta. O colonialismo europeu esteve em ascensão aproximadamente desde 1492 – a chegada às Américas, a conquista e a escravização — até meados do século 20. Então, após a derrota do fascismo na Guerra Mundial Antifascista, liderada pela União Soviética e travada a um custo imenso na China, o colonialismo europeu foi relegado a um segundo plano pela rápida ascensão dos movimentos comunistas e de libertação nacional, com os comunistas no Vietnã (1945), na China (1949) e em Cuba (1959) vencendo contra todas as probabilidades e inaugurando experiências comunistas em nações mais pobres.
![María Magdalena Campos-Pons (Cuba), De las dos aguas [Das duas águas], 2007.](https://www.brasildefato.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Maria-Magdalena-Campos-Pons-Cuba-De-las-los-aguas-2007.webp)
| Crédito: Reprodução
Rubio nasceu em Miami, Flórida. Seus pais deixaram Cuba em 1956, cerca de três anos antes da Revolução Cubana. Em seu discurso, Rubio deixa claro que se vê inteiramente como herdeiro da Europa cristã, sem qualquer ligação com a rica cultura cubana de seus pais — uma cultura construída sobre as heranças da África, da Ásia e dos povos indígenas das Américas, bem como sobre as dos migrantes asturianos, galegos e catalães da Península Ibérica. A Revolução Cubana buscou gradualmente desmantelar as antigas hierarquias racistas da sociedade de plantation e construir uma sociedade de cidadãos cubanos iguais. Esse é o tipo de descolonização que Rubio abomina.
Durante a era da descolonização e do socialismo, disse Rubio, “muitos passaram a acreditar que a era de domínio do Ocidente havia chegado ao fim e que nosso futuro estava fadado a ser um eco fraco e pálido do nosso passado”. Mas os líderes do mundo atlântico não cederam. “Nossos antecessores reconheceram que o declínio era uma escolha, e foi uma escolha que se recusaram a fazer.”

Assim, argumentou Rubio, hoje a liderança ocidental deve se manter firme e rejeitar o que ele apresenta como um declínio inevitável, defender os valores ocidentais contra o comunismo e se comprometer com novas formas de colonialismo (seja em Gaza ou no Hemisfério Ocidental). Com que tipo de Europa os Estados Unidos buscam se aliar? Nas palavras de Rubio: “Uma Europa que tenha o espírito criador da liberdade que enviou navios para mares desconhecidos e deu origem à nossa civilização” — em outras palavras, uma Europa colonial para um Estados Unidos imperial.
Os líderes europeus presentes saudaram Rubio com uma ovação de pé. Eles se sentem perfeitamente confortáveis com algumas guerras coloniais, desde que os Estados Unidos estejam ao seu lado para fornecer apoio e proteção militar. Não houve indignação com o discurso de Rubio, nem consternação com a demonstração flagrante de chauvinismo e colonialismo ocidental. Para a liderança europeia, parece inaceitável criticar as normas democráticas da Europa, mas é totalmente aceitável defender o retorno do colonialismo ocidental.
Enquanto um novo sentimento de soberania e construção de uma vida digna para os povos da África, Ásia e América Latina cresce no Sul Global, os líderes do Norte Global celebram a Era de Colombo e anseiam por um retorno a esse período. Eles querem invadir seus museus, vestir seus morriones (os chapéus de conquistador), entrar em seus caças Lockheed Martin F-35 Lightning II e bombardear impiedosamente os povos do Sul.
Foi isso que os Estados Unidos fizeram com a Venezuela em 3 de janeiro de 2026, o que vêm fazendo com a Palestina e o que pretendem fazer com Cuba e o Sahel. Podem ter um vasto poderio militar, construído com seus tesouros saqueados, e podem até usar esse poder para incutir medo em grande parte da população mundial, mas jamais conquistarão respeito ou submissão. Isso fica claro pela reação mundial à flagrante violação da soberania da Venezuela, pela forma como as pessoas se uniram em apoio a Cuba diante das tentativas de sufocar a Revolução Cubana e pela indignação de praticamente todos os habitantes deste planeta com o genocídio em curso contra o povo palestino.
![Kelly Sinnapah Mary (Guadelupe), Notebook of No Return [Caderno Sem Volta], 2017.](https://www.brasildefato.com.br/wp-content/uploads/2026/03/Kelly-Sinnapah-Mary-Guadeloupe-Notebook-of-No-Return-2017-941x1024-1.webp)
Em dezembro de 2025, a Câmara Baixa do Parlamento da Argélia aprovou por unanimidade um projeto de lei que declara que a colonização francesa de suas terras, de 1830 a 1962, foi um crime contra a humanidade. O governo argelino já havia pressionado a União Africana (UA) sobre o assunto, que em fevereiro de 2026 adotou uma resolução para designar o dia 30 de novembro como o Dia Africano de Homenagem aos Mártires Africanos e às Vítimas do Tráfico Transatlântico de Escravos, da Colonização e do Apartheid; para convocar uma Conferência Internacional sobre os Crimes do Colonialismo, que a resolução descreve como “genocídio contra os povos da África”; e para buscar “reconhecimento e reparação internacional por esses crimes históricos”. Na reunião da UA, o presidente de Gana, John Dramani Mahama, afirmou que seu país apresentaria uma resolução à Assembleia Geral das Nações Unidas em março de 2026 para reconhecer o Tráfico Transatlântico de Escravos como o “crime mais grave contra a humanidade”. “Todos os povos de ascendência africana aguardavam por este dia”, disse Mahama. “A verdade não pode ser enterrada. Os fundamentos legais são sólidos; o imperativo moral é inegável”.
De um lado do Mar Mediterrâneo, o Norte Global vê a colonização como algo positivo e sugere seu retorno, enquanto, do outro lado, o Sul Global a condena veementemente com base em fatos históricos e exige reparações. Os comentários de Mahama surgem na sequência do lançamento do livro de Kwesi Pratt Jr., Reparações: História, luta, política e direito, para o qual Mahama escreveu um prefácio incisivo. No livro, apresentado na cúpula da UA em Malabo (Guiné Equatorial) em julho de 2025 e lançado em Accra em setembro de 2025, Pratt argumenta que o Norte Global deve ao povo africano entre US$ 2 trilhões e US$ 3 trilhões em salários não pagos e entre US$ 4 trilhõe e US$ 6 trilhões por exploração colonial não remunerada. Somados, esses valores totalizam entre US$ 6 trilhões e US$ 9 trilhões. No extremo superior, isso representa um décimo do PIB anual do Norte Global e é muito maior do que a dívida externa total do continente africano, de US$ 1,5 trilhão (que, no mínimo, deveria ser perdoada como um gesto de contrição).

Enquanto isso, no Caribe, o primeiro-ministro Gaston Browne, de Antígua e Barbuda, tirou o terno, colocou uma bandana e, sob o nome de “Gassy Dread”, juntou-se à estrela do reggae Gramps Morgan para lançar o single Reparations em fevereiro de 2026. Aqui estão alguns trechos da letra:
Reparação e justiça devem chegar
África e Caribe como um só.
Não caridade, mas expor com ousadia
Restituição pelo trabalho e pelo ouro.
Através do oceano, arrancados da terra,
Correntes nos pés, chicote na mão.
Mas a luz de Jah nos guiou através da tempestade
Agora um novo dia de justiça nasce.
Eles saquearam corpos, diamantes e cana.
Gerações carregaram o peso e a dor.
Mas o povo é forte, ainda sobrevivemos.
Agora é hora de deixar a justiça chegar:
Reparação e justiça devem chegar.
De fato, o primeiro-ministro Browne deveria enviar o link de sua música para Marco Rubio e para todos os chefes de governo europeus. Rubio anseia pelo “espírito” colonial que enviava navios para “mares desconhecidos”. Mas os povos do Sul Global se lembram do que esses navios carregavam — e do que levaram. Se o mundo atlântico quer falar de “civilização”, que comece pela restituição: cancelando dívidas ilegítimas, devolvendo riquezas roubadas e pagando reparações por séculos de pilhagem colonial e exploração neocolonial. A era da impunidade colonial acabou. A justiça precisa ser feita.
Cordialmente,
Vijay

