Vozes da Capital

Vozes da Capital é uma coluna colaborativa onde você vai encontrar todo tipo de assunto apresentado por escritores de diferentes raças, gêneros, credos, gerações, profissões e interesses, com textos sempre voltados para o cotidiano da capital federal. Organização de Naiara Lira e Antônio Tegethoff.

Por uma capital, de fato, cultural: que dá sentido à vida antes de ser produto

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Celebração da Casa Moringa reúne cultura popular, saberes tradicionais e sustentabilidade neste domingo (26) em Taguatinga, com entrada gratuita e programação acessível para todas as idades. | Crédito: Foto: Davi Mello

Cultura dominante, elitista, encontra resposta e contraponto potente nas periferias

João Peçanha*

Conta o mito que a capital federal nasceu como símbolo moderno, arrojado, fruto do sonho e coragem de JK, e do trabalho de candangos e candangas oriundas dos mais diversos cantos do Brasil. Por essa lógica, Brasília se tornaria um grande cadinho, com contribuições diversas que formariam, ano após ano, uma potência cultural – com uma cena que traduziria o espírito da “capital de todos”. 

Mas, ao que parece, a questão cultural da cidade vem sendo pensada, desde a sua inauguração, no sentido de frear (na verdade, controlar) essa potência. Usaremos a música como exemplo neste texto.  

Brasília foi palco de diversos movimentos musicais, entre eles: o Samba (e o Choro) em seus primeiros anos, a famosa cena do Rock brasiliense dos anos 1980-90, seguida pelo chamado Pagode 90. Nos anos 2000 surge um novo Choro brasiliense, seguido pelo Sertanejo e, novamente, o Pagode no início dessa década. 

Todos esses movimentos se destacaram e se projetaram nacionalmente em algum momento. No entanto, apesar do sucesso, não foram capazes de fazer com que Brasília ampliasse seus aparelhos de cultura de forma significativa. Mesmo aqueles movimentos musicais que se estruturaram e formalizaram politicamente (como o Choro, representado pelo Clube do Choro) não conseguiram impulso suficiente para alavancar, de forma definitiva, a cena musical da cidade.

Não foram capazes, por exemplo, de manter os espaços musicais que surgiram sob sua influência – como é comum em outras cidades. Após alguns anos de brilho, sempre aconteceram retrações significativas. O movimento musical surge, se expande, se consolida… E, de repente, a “mão do silêncio” retoma, pouco a pouco, tais espaços.  

É como se existisse um dispositivo limitante que, a partir de um ponto, cortasse a expansão, contendo a potência cultural. Em outras palavras: parece existir, ao longo dos anos, uma política brasiliense conservadora que busca manter a cidade controlada, restrita à política, impedindo-a de expressar plenamente sua vocação multicultural. Sim, parece um pouco de “teoria da conspiração”. Parece, mas não é. 

A partir disso, o principal problema parece ser a centralização da cultura no Plano Piloto e, por consequência, a falta de apoio à cultura nas periferias – o chamado “entorno” (palavra que revela certo elitismo). Segundo Japão – importante nome do Rap da Ceilândia e uma das referências da cena nacional, líder do Viela 17, “a centralização da cultura no Plano Piloto é um espelho que reflete uma velha lógica: a de que o centro merece o palco e a periferia deve se contentar com as migalhas”. 

É importante observar que até mesmo no centro da capital os espaços culturais públicos são poucos e negligenciados – podemos citar o exemplo do Teatro Nacional, que acaba de ser reaberto parcialmente após 10 anos de reformas. Tais espaços são ainda mais raros nas periferias.

Assim, a cultura fica restrita a locais privados, seguindo sempre a lógica de mercado, de consumo, gerando um elitismo cultural que valoriza apenas as expressões culturais dos mais endinheirados, reproduzindo fielmente as desigualdades socioeconômicas da cidade.  

Como nos ensina a Sociologia, a sociedade é território em disputa: aqui a cultura dominante, elitista, encontra resposta e contraponto potente nas periferias. Japão nos lembra que nas quebradas a cultura se mantém como trincheira, como resistência viva: “Aqui não tem glamour, tem verdade. Não tem verba, tem luta. O que pra muitos é espetáculo, pra nós é sobrevivência”. 

Essa resistência em nome da sobrevivência, do sentido à vida, se dá de forma coletiva: “O pessoal daqui não tem esse poder aquisitivo, então pensando nesse povo começamos a fazer o samba em praça aberta, para que todos tivessem acesso”, diz Negro Vatto, pioneiro do Samba na Comunidade – um dos primeiros coletivos de samba do DF, que se reúne na Praça da Bíblia, no P Norte, Ceilândia. Do encontro de amigos amantes do samba, o Samba na Comunidade acabou se tornando inspiração para movimentos em outras periferias. 

Poderíamos citar ainda outros trabalhos culturais que fazem a diferença a partir de um olhar periférico: como o Sarau-vá, também na Ceilândia; os barracões de escolas de samba pelo DF, os coletivos de rock, teatro, cinema, capoeira e outros vários de tantos gêneros e artes que seria impossível reproduzir neste espaço. A lição que esses exemplos ensinam é certeira: o caminho para uma capital melhor, em todos os sentidos, passa pelo investimento e descentralização da cultura.  

A esperança da Brasília tal qual aquela do mito fundador – moderna, inclusiva, democrática – passa pela necessidade de se olhar para a Cultura da cidade. Em especial, aquela popular, construída para dar sentido à vida antes de ser produto, aquela que é tão necessária e nutritiva quanto o pão na mesa da família. 

Brasília tem muito a aprender com suas periferias. Como nos afirma Japão: “Enquanto o centro concentra os holofotes, as quebradas iluminam a cidade com a luz própria da resistência. E essa luz não apaga, porque vem de quem aprendeu a transformar silêncio em voz e esquecimento em arte”. 

Que toda Brasília possa se iluminar para ser, de fato, a Capital Cultural democrática desse país. Por uma Capital, de fato, Cultural.

*João Peçanha é músico, sociólogo e mestre em Música pela Universidade de Brasília (UnB).

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF

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Editado por: Clivia Mesquita

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