Yara Baiardi

Arquiteta e urbanista, doutora e docente no curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPE. Pesquisadora do Observatório das Metrópoles – Núcleo Recife.

Uma vila olímpica no coração da cidade como presente aos recifenses: quando o público compra o privado

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Vila Olímpica, em Rio Doce, Olinda
Vila Olímpica, em Rio Doce, Olinda | Crédito: Prefeitura de Olinda/Divulgação

Seria um belo plot twist em meio à onda neoliberal. Se alguns clubes estão “à venda”, essa pode ser uma grande oportunidade e um presente para o Recife

Estamos nos primeiros dias do ano de 2026, e é notório o tsunami neoliberal da “privatização” em terras pernambucanas. O caso recentíssimo da concessão da CBTU é um deles. Já comentei, na coluna de junho, que a CBTU inovou nos anos 1980 e entregou, por muitos anos, um serviço de excelente qualidade à Região Metropolitana do Recife. Diante da concretização dos fatos, deixo aqui uma última pergunta: como ficará o SEI com a “privatização” da CBTU? Caso não se lembrem, o SEI (Sistema Estrutural Integrado) é composto pela CBTU e pela GRCT (Grande Recife Consórcio Transportes), tema que abordamos brevemente na coluna de novembro.  

Agora, imaginem um cenário inverso: o público comprando o privado. Parece um sonho, delírio? O ex-jogador de futebol Aloísio Chulapa conta que, quando não tinha recursos financeiros e passava em frente a um clube privado de sua cidade (Atalaia, em Maceió), precisava “pular o muro” para ter acesso àquela infraestrutura esportiva. O mundo girou: ele se tornou um jogador de sucesso e comprou o clube. Como relatado em entrevista emocionante a um podcast, a ideia era simples, mas profundamente transformadora — o clube deveria ser para todos.

Então vamos a uma breve problematização sobre a temática. Vocês já se perguntaram por que temos tantos clubes de esporte e lazer na cidade? Mais especificamente, por que clubes como Sport, Alemão, Português, Santa Cruz, Náutico, AABB, entre outros, surgiram todos na primeira metade do século passado?

A resposta é ampla. Não havia espaços sociais, nem de lazer e, muito menos, a prática de esportes de forma estruturada. Diante disso, a sociedade se organizou coletivamente e criou esses clubes que, não por acaso, tornaram-se, em grande parte, essenciais para a vida da cidade.

Avançamos no tempo e o espírito da nossa época evidencia a decadência de quase todos esses clubes, que já não agregam como antes. O pouco que restou vem se transformando em SAF, Bet e, o que mais importa para o tema desta coluna, na “venda” de seus terrenos, seus propósitos e finalidades sociais, maquiadas de diversas formas. 

O Sport apresentou à Prefeitura, em outubro de 2024, um projeto que destrói praticamente todas as instalações do clube para dar espaço à construção de um mega edifício-garagem (exceto as áreas tombadas) e, sobre ele, instalações esportivas medíocres.  Para piorar, são previstas duas torres de grande impacto visual. Piscinas, quadras e jardins abertos deixam de existir; tudo passaria a acontecer em caixas fechadas. A justificativa apresentada é a reforma da arquibancada do estádio, mas, na prática, a proposta se resume à construção de um grande edifício-garagem.

Pode piorar? Pode. Há pouco tempo, vi um vídeo que anuncia mais uma caixa fechada, agora denominada shopping: o templo máximo do consumo, ao lado da Avenida Agamenon Magalhães, no terreno do Clube Português, com muito espaço para estacionamento de carros, diga-se de passagem. Evidentemente, também se propõem instalações esportivas igualmente medíocres no rooftop do empreendimento.

Diante disso, fica a reflexão:  para alguns, trata-se de viabilidade econômica; para outros, da salvação financeira de mais um clube que não conseguiu se adaptar ao espírito do tempo dos condomínios fechados e ao esvaziamento das práticas sociais e esportivas coletivas.

Todavia,  para a sociedade cada vez mais obesa, adoecida mentalmente e com as “novas” gerações viciadas em telas e empobrecidas nas relações sociais, a pergunta é inevitável: precisamos mesmo de mais um shopping no coração do Recife? Por que o poder público não “compra” um clube privado e o transforma em uma verdadeira Vila Olímpica?

Este cenário seria um belo plot twist em meio à onda neoliberal. Se alguns clubes estão “à venda”, essa pode ser uma grande oportunidade e um presente para o Recife: uma Vila Olímpica à altura da cidade, em localização privilegiada e, sobretudo, pública. O que vocês acham da ideia de o público comprar o privado? Fica como sugestão o debate.

Que 2026 traga menos muros, menos caixas fechadas, menos carros e motos e mais espaços públicos de encontro, movimento e vida, quiçá numa Vila Olímpica.

Editado por: Rostand Tiago

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