O Carnaval acabou e, como dizem, o ano começou. Para muitos, ele começou com aumento.
Na mobilidade, que está sempre em movimento — perdoem-me pelo trocadilho —, as notícias não param de chegar e elas se resumem a uma palavra: aumentos.
O primeiro aumento registrado no ano foi o da tarifa de ônibus. Anunciado em janeiro de 2026, inicialmente suspenso, acabou confirmado em 1º de fevereiro. A passagem passou de R$ 4,30 para R$ 4,50. Considerando o deslocamento de ida e volta pelo famigerado SEI, o custo diário chega a R$ 9,00. Na escala 6×1, são R$ 243,00 por mês. Diante de um salário-mínimo de R$ 1.621, isso representa 15% da renda comprometidos com um serviço que ainda enfrenta problemas de confiabilidade, conforto, pontualidade e segurança.
Não é casual, portanto, a fuga constante de usuários do transporte público no Brasil.
Os dados ajudam a dimensionar o problema. Desde 2012, o site Mobilize acompanha a relação entre o preço do transporte urbano e a renda nas 27 capitais brasileiras e em algumas cidades do mundo. O Recife não é a capital mais cara do país — ocupa o 5º lugar entre as 27 —, mas o dado central é outro: proporcionalmente, os brasileiros comprometem mais renda com transporte do que moradores de cidades internacionalmente consideradas caras. Em Pequim (China), o gasto corresponde a 2,3% da renda. Em Nova York, a 3,39%. Em Paris, 4,78%. E em Londres, 5,93% ao mês.
Quando o vale-transporte pode atingir até 6% do salário-base, percebe-se como o orçamento familiar fica pressionado. O sistema pesa — e pesa mais para quem ganha menos.
Diante desse cenário, muitos migram para os aplicativos. No entanto, a alternativa também encareceu. A revista Exame registrou que as corridas por aplicativo, como Uber e 99, subiram 60,8% no Recife em 2025, acima da média nacional de 56,08%. No ano anterior, o reajuste médio havia sido de 9,97% entre janeiro e dezembro.
Some-se a isso o chamado “preço dinâmico”, aplicado em momentos de maior demanda — como na saída dos shows do Marco Zero neste recente Carnaval. Diferentemente do transporte público, cujo valor é fixo, o usuário dos aplicativos se submete a variações imprevisíveis. E o serviço coletivo nem sempre atende com qualidade durante a madrugada, apesar de experiências positivas como o Expresso Folia.
O resultado dessa combinação — tarifa elevada, perda de usuários e encarecimento das alternativas — aparece nas ruas. Cresce o número de motociclistas, impulsionado pela maior facilidade de aquisição da motocicleta. Esse movimento impõe um desafio urgente: como integrar esse veículo à dinâmica urbana com segurança viária? A resposta envolve redução de velocidade, políticas públicas consistentes e fiscalização efetiva. Pode parecer distante, mas é um horizonte necessário que sempre deve ser “batido”.
Em São Paulo, a criação da chamada “faixa azul”, destinada exclusivamente às motos nas grandes avenidas, buscou organizar essa circulação. No entanto, registrou-se alta de quase 15% nas mortes de motociclistas em relação a 2022, quando as faixas azuis começaram a ser implementadas. Segundo a pesquisa “Impacto da faixa azul na Segurança Viária: sinistros, velocidade e percepções de motociclistas em São Paulo”, recém lançada, o excesso de velocidade é o principal fator associado ao risco de letalidade nessas faixas.
Os aumentos, portanto, não se limitam às tarifas do transporte público, pauta quente para as eleições que se aproximam. Eleva-se o comprometimento da renda, aumenta a migração para alternativas duvidosas, aumentam os congestionamentos, a poluição e o risco nas ruas. O paradoxo está colocado.
Que possamos, em breve, escrever sobre outro tipo de crescimento: o da qualidade do transporte público e o da segurança urbana como prioridades efetivas de política pública.

