OPINIÃO

Laura Sabino: é necessário construir estratégia concreta para criar novos veículos digitais

‘O trabalho de agitação sempre foi importante para desnaturalizar o mundo, mostrar possibilidades de construção e amplia

No audio source provided.
Laura Sabino é comunicadora popular, youtuber e colunista do Brasil de Fato | Crédito: Foto: Reproduição

Nos últimos anos, vimos se consolidar nas redes sociais um fenômeno que, até pouco tempo atrás, parecia impensável: a presença de influenciadores marxistas e de esquerda na internet.

O que antes era um pequeno grupo tentando não ser engolido pelas dinâmicas das plataformas, hoje se desdobra em redes com milhares de espectadores, utilizando formatos e linguagens diversas, das threads curtas aos vídeos longos, do react ao vídeo-ensaio e jornalismo.

O debate sobre o que essas figuras representam é inevitável e saudável. Ele demonstra que amadurecemos: já não discutimos mais se devemos ocupar as redes, mas como ocupá-las, a serviço de qual projeto, com quais objetivos e sob quais limites.

Falo também a partir da minha própria experiência: produzo conteúdo para a internet há oito anos, sendo os últimos cinco com presença direta nas redes, mostrando meu rosto no YouTube, Instagram e TikTok. 

Nesse período, vivenciei as tensões entre produzir conteúdo político e atuar em  organizações  políticas. Passei por experiências organizativas positivas e também por fracassos e pude observar de perto como a dinâmica das redes sociais pode gerar vitórias e, ao mesmo tempo, causar prejuízos a organizações e partidos políticos. Também testemunhei transformações e acontecimentos que, sem a internet, certamente não teriam sido possíveis.

A ausência da esquerda no Congresso não é fruto de incompetência; é resultado de um sistema político estruturado para manter os mesmos grupos no poder

Comecei a produzir na internet em um período em que apenas lembrar que o PT não era responsável por todos os problemas do Brasil já bastava para se tornar alvo. Declarar-se marxista, então, soava quase como um crime. 

Acompanhei de perto a formação de um ecossistema: o crescimento de influenciadores de esquerda e a multiplicação de canais que falavam abertamente sobre comunismo. Lembro da emoção quando o canal Tese Onze alcançou 100 mil inscritos. Parecia o auge. Mais tarde, com Rita Von Hunty chegando a 1 milhão, ficou claro que poderíamos ter peso real no debate político online. No entanto, o caminho se mostrou mais complexo do que parecia, especialmente quanto ao nosso papel nesse cenário.

A ascensão dos influenciadores nos colocou, muitas vezes, na posição de porta-vozes não oficiais de campos políticos inteiros, ou, pior ainda, como bússolas ideológicas e morais. É emocionante ouvir alguém dizer que deixou de ser liberal após assistir a um vídeo meu. Essas histórias dão sentido e energia ao trabalho. 

Mas é preciso ter clareza: ser um bom comunicador não é o mesmo que ser uma liderança política, um quadro militante ou um estrategista. Também não podemos ser confundidos com figuras que não erram ou que não fazem leituras equivocadas.

Papel dos comunicadores progressistas

Chegou o momento de sermos claros: é preciso discutir seriamente o papel dos comunicadores progressistas. A pergunta “o que fazer?” nunca tem uma resposta simples. Ela exige análise, reflexão, ação e disposição para assumir responsabilidades coletivas.

A tão mencionada “autocrítica”, historicamente associada à esquerda, não deve se restringir ao passado. Ela também deve nos levar a pensar sobre como as escolhas do presente moldam nosso campo político no futuro.

Afinal, qual é a nossa meta? Seria, como Virginia, acumular milhões de seguidores? A ideia é tentadora, mas não me parece a melhor resposta. Em primeiro lugar, o engajamento nas redes não se traduz, necessariamente, em comunidade. 

O fato de alguém seguir um canal não significa que acompanhe profundamente o que é dito, nem que se identifique com a esquerda, muito menos que se engaje em uma organização concreta. 

E isso não é um julgamento moral: as redes simplesmente não foram feitas para isso. São ferramentas criadas por e para o capitalismo. Como bem lembra a militante Biana, artista e pesquisadora no Laboratório Etnográfico de Estudos Tecnológicos e Digitais da USP, trata-se de espaços moldados por uma lógica que, muitas vezes, se choca com os objetivos de transformação social que buscamos.

Os algoritmos

Os algoritmos, silenciosos e opacos, não explicam porque determinadas contas são suspensas, censuram palavras como “genocídio”, mas permitem que ecossistemas inteiros de pedofilia continuem existindo. Eles são desenhados para recompensar o conflito, a polêmica e o espetáculo. 

É isso que explica, em parte, o sucesso de debates e reacts: oferecem a encenação perfeita da disputa entre polos, com os famosos cortes virais para ambos os lados. É um jogo duplo. De um lado, ganhamos visibilidade; de outro, normalizamos figuras e espaços que não são necessariamente do nosso campo. 

E, no fim, quando chega a hora da censura, da desmonetização ou do ataque, não são os grandes canais e podcasts “neutros” que sofrem. Pelo contrário: eles continuam crescendo, servindo de vitrine para figuras nefastas, incels, red pills, integralistas e bolsonaristas.

O problema não é e nunca foi o entretenimento político. Ele sempre existiu, sempre existirá, e tem, inclusive, importância. Em muitos casos, é o primeiro contato que algumas pessoas têm com determinados temas.

A linha é extremamente tênue e precisamos pensar quais são os ganhos, as perdas e se elas compensam. Não podemos nos comportar como influenciadores “normais”, porque não somos. As redes não nos veem dessa forma. O público não nos enxerga assim. E o impacto de uma decisão equivocada não se resume a um react engraçado do Felca zombando da qualidade da nossa maquiagem. 

Cada erro pode repercutir politicamente, afetar organizações e influenciar a percepção de um campo inteiro, tornando urgente que cada ação seja ponderada à luz de sua responsabilidade coletiva. Acredite, aprendi isso a duras penas, com muitas porradas.

Veja bem, diferente do que muitos pensam, postar sobre atuação de coletivos, ações sociais e organizações políticas não gera engajamento e nem funciona nas redes, afinal, a lógica do conflito não prioriza isso. 

Historicamente, a burguesia nacional no Brasil concentrou o poder de comunicação, dominando jornais, rádios, emissoras de TV e, mais recentemente, portais digitais

Mas ainda assim, deveria ser papel de todo comunicador ajudar na divulgação dessas ações. As redes não estão em disputa, estão cercadas, assim como sempre estiveram as grandes emissoras de TV e rádio.

Mesmo com tudo isso, é possível sim assumir o engajamento como uma meta, mas é preciso lembrar que o que torna os cases de direita tão populares na internet é, antes de tudo, a presença cotidiana que seu discurso assume. As ideias de direita são as ideias dominantes de nossa época. 

Igrejas evangélicas periféricas, por exemplo, funcionam hoje como verdadeiros centros culturais: oferecem solidariedade, distribuição de currículos e cestas básicas, e acolhem as mazelas e dificuldades de pessoas em territórios segregados. Nesse sentido, o engajamento é útil para divulgar nosso conteúdo, mas, sem presença constante, ele se torna apenas mais um conteúdo interessante, passageiro e sem efeito duradouro.

Outra resposta possível para essa encruzilhada é formar influenciadores que também sejam quadros políticos institucionais, como a direita fez. Mas há limites claros. A ausência da esquerda no Congresso não é fruto de incompetência; é resultado de um sistema político estruturado para manter os mesmos grupos no poder, financiado por empresários bilionários, com mecanismos que praticamente impedem que a esquerda se torne maioria. Além disso, disputas eleitorais servem para conquistar governos, não para transformar o Estado.

As conjunturas não são dadas, fixas ou permanentes, elas são construídas. E penso que o papel dos influenciadores é também ajudar a construir essas conjunturas, afinal, o trabalho de agitação sempre foi importante para desnaturalizar o mundo, mostrar possibilidades de construção, ampliando o horizonte, gerando desconforto e mostrando que tem grupos fazendo coisas incríveis.

Soa contraditório que um setor da esquerda, historicamente crítico aos limites do capitalismo, agora veja nas vitórias eleitorais para presidência ou Congresso a principal solução. 

Afinal, ser marxista é compreender que o problema não está na comunicação, mas na estrutura em que essa comunicação se sustenta; não no povo que “não sabe votar”, mas nas engrenagens eleitorais que moldam o poder; não em um presidente incapaz de acabar com a miséria, mas no fato de que, dentro do capitalismo, a miséria é parte constitutiva do sistema. Mesmo entendendo o papel da disputa eleitoral, cabe a nós lutar pelo fim desse sistema.

Entre agosto de 2020 e junho de 2024, o Brasil Paralelo investiu R$ 24,5 milhões em publicidade, acumulando quase 11 milhões de inscritos em suas redes, além de manter sua própria plataforma. Nikolas Ferreira, por exemplo, aplicou mais de R$ 700 mil, quase um milhão, apenas no impulsionamento de um reels.

As plataformas

Sabemos também, graças aos próprios documentos apresentados durante o julgamento do escândalo da Cambridge Analytica, que mais de 5 mil dados de cada usuário foram utilizados para traçar perfis psicológicos refinados com o objetivo de vencer plebiscitos e eleições. 

As plataformas, portanto, têm um lado ideológico explícito, que se manifesta tanto na ausência de regulamentação da mídia, sua principal pauta, quanto na seletividade com que tratam contas, perfis e conteúdos. 

Elas determinam quem sofre quedas de alcance, quais perfis são derrubados e quais permanecem sem represálias. A estratégia ideológica dessas plataformas já foi simbolicamente expressa em gestos, como os lugares reservados na primeira fila da posse de Donald Trump.

Mesmo que tenhamos bons cases e estejamos crescendo, é fundamental compreender que a vitória política ou cultural não virá dessas plataformas, assim como não virá das TVs, de Hollywood ou das rádios controladas pelo agronegócio. O território digital está cercado, e confiar apenas na visibilidade que ele oferece é ilusório. 

Muito se fala sobre soberania digital, e com razão. No entanto, ela não se limita a expulsar empresas estrangeiras que roubam dados, censuram conteúdos e impõem modelos próprios de comunicação. 

A questão é mais complexa: é necessário construir uma estratégia clara e concreta para criar novos veículos digitais, definindo como funcionarão, sob quais princípios e com quais mecanismos de autonomia e proteção. 

Além disso, o desafio não está apenas fora do país: empresas nacionais também reproduzem lógicas de exploração e controle de narrativas. Um exemplo é o iFood, que, entre seus escândalos, contratou uma agência para difamar Paulo Galo, liderança emergente na luta dos entregadores, demonstrando que a soberania digital exige enfrentar estruturas internas de poder e exploração. 

Historicamente, a burguesia nacional no Brasil concentrou o poder de comunicação, dominando jornais, rádios, emissoras de TV e, mais recentemente, portais digitais. Essa concentração permitiu moldar narrativas, definir agendas e marginalizar movimentos populares, mantendo sob seu controle a circulação de ideias e informações. 

Assim, a construção de uma soberania digital efetiva não pode se limitar a criar plataformas nacionais; é preciso refletir profundamente sobre quem controla essas plataformas, como são reguladas e a quais interesses sociais e políticos elas servem, sob pena de reproduzir os mesmos padrões de concentração e exploração presentes nos meios tradicionais.

O que estamos construindo?

No trabalho alienado, imposto pelo capitalismo, o trabalhador não se reconhece no que produz. O fruto de seu esforço se torna algo externo a ele, que o domina e explora. É um trabalho que aprisiona, em vez de libertar. 

Por outro lado, o trabalho que nos transforma é aquele em que o indivíduo projeta sua vontade, sua criatividade e seus conhecimentos no mundo, produzindo algo que reflete sua própria essência. Esse é o trabalho que permite a realização coletiva e a construção de autonomia.

A concentração da comunicação permitiu moldar narrativas, definir agendas e marginalizar movimentos populares, mantendo sob controle da burguesia a circulação de ideias

O nosso trabalho nas redes tem se colocado em qual dessas formas? Tem nos aproximado da luta ou deslumbrado as figuras? Quando vemos vídeos de influenciadora que se dizem de esquerda se gabando de que sua sandália custa mais que um carro, debochando dos “erros de portugues” de quem tenta rebater ou usando o número de seguidores como argumento, talvez seja hora de refletir sobre o caminho que estamos trilhando e, muito provavelmente, nos passos que precisamos dar pra trás.

Acredito que a resposta não pode vir dos comunicadores populares; ela deve ser buscada junto aos movimentos sociais, coletivos, grupos e frentes. Os comunicadores de esquerda precisam ouvir mais, estudar com profundidade os temas que querem debater, participar de processos de formação e opinar menos sobre organizações das quais sequer fazem parte. 

Talvez seja o momento de não apenas estar à frente em palestras mas também sentar-se nas cadeiras, aprender. O debate é novo, necessário e importante porque estamos falando de algo inédito, um trabalho importante que surge há pouco tempo. 

Este texto pode soar pessimista, mas, na verdade, é profundamente otimista. Historicamente, as maiores organizações, frentes e conquistas da classe trabalhadora nasceram das lutas sociais. O coletivo sempre foi nossa arma mais poderosa, e só dentro dele temos chance de transformação real. Fora da luta popular coletiva, não há oxigênio para nossa ação.

Laura Sabino é comunicadora popular, youtuber e colunista do Brasil de Fato. 

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

|

Newsletter