política positiva

Câmeras corporais reduziram em 76% a violência policial em São Paulo. Mas por que tem gente que ainda é contra?

A pesquisadora Jessy Daiane Silva Santos comparou a implantação dos equipamentos em São Paulo e Bahia, onde os movimentos populares pressionaram pelas câmeras

Câmaras corporais garantem legalidade de ações e protegem cidadãos de eventuais abusos
Câmaras corporais garantem legalidade de ações e protegem cidadãos de eventuais abusos | Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil

A política de uso de câmeras corporais por policiais militares reduz a letalidade policial e a morte de policiais. No entanto, parte da sociedade e da classe política defende que os dispositivos inibem a “ação forte contra o crime”.

Uma análise de dados desde 2019 indica redução de 76% na letalidade policial no estado de São Paulo por causa do uso de câmeras. É o que mostra a tese de doutorado de Jessy Dayane Silva Santos, pesquisadora da área de segurança pública.

Ao BdF Entrevista, Santos, que se dedicou a olhar a experiência com câmeras corporais nos estados de São Paulo e Bahia, avalia que a rejeição ao uso da tecnologia ainda persiste no campo ideológico, já que na perspectiva técnica não há o que questionar. “Há um embate ideológico sobre o tema da segurança pública. Esse exemplo que eu dei, de que há uma concepção na sociedade de que, se a pessoa cometer um crime, todo tipo de abuso contra ela pode acontecer, tortura, execução. Há um imaginário que defende isso. Por mais que a nossa lei não seja assim, há um imaginário que defende isso e uma subcultura que pratica isso. E um certo apoio social também. Tem uma parte da sociedade que apoia essa posição. E eu acho que o embate sobre ter ou não ter está mais nesse campo, que é essa parcela que identifica que aquele que comete crime pode ser tratado de qualquer forma, pode ser torturado, pode ser executado, entende que a câmera inibe o policial de ter uma postura mais firme contra o crime”, explica.

Santos explica que as câmeras passaram a ser implementadas a partir do entendimento de que os índices de violência policial eram altos e que colocavam em risco também os agentes. Tanto é que a iniciativa de São Paulo, estado pioneiro na adoção da ferramenta, partiu da corporação para o governo. “Quem propôs, quem teve a iniciativa, quem formulou e quem implementou foi a polícia para o governo. A corporação passa a estudar, vai conhecer experiências mundo afora, elabora uma proposta, apresenta para o governo [João] Doria, o governo Doria adota e implementa”, afirma.

Na Bahia, também objeto de estudo da pesquisadora, o movimento foi inverso. “A proposta vem do governo para a polícia, vai para o debate com a sociedade e passa a ser implementada. Então, nas entrevistas, aparece um peso maior dos movimentos sociais, do movimento negro, do movimento da juventude, na reivindicação para que a Bahia incorporasse essa política, e em São Paulo aparece mais que uma preocupação de profissionalização pela própria polícia”, explica.

Santos destaca, no entanto, que, mais do que as câmeras, é preciso que haja uma política de segurança pública que coloque a vida em primeiro lugar. O dispositivo vai trazer elementos para a construção disso. “Não é só a câmera, mas sim uma política de redução do uso da força, uma política de maior profissionalização e uma política que introduz novas concepções e novos olhares sobre o que é o trabalho da polícia militar e qual deve ser a sua conduta com relação às ações para que evitem o evento morte. Na prática, todo esse debate está em torno da ideia de que, sim, a violência existe, a atuação da polícia existe, mas como que a gente consegue construir uma política de segurança pública que evite o evento morte?”, pondera.

Assista ao programa completo abaixo:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Luís Indriunas

|

Newsletter