Os casos de intoxicação por contaminação de bebidas alcoólicas com metanol chamam a atenção, entre outras coisas, para a necessidade de fortalecimento do sistema nacional de fiscalização.
Na avaliação do ex-ministro extraordinário do Combate à Fome e Segurança Alimentar José Graziano, os fatos recentes deixam ensinamentos também para o setor da indústria alimentícia.
“As formas de falsificação estão aumentando e nós continuamos com as formas tradicionais de fiscalização. Nós agora estamos assustados com o metanol, mas e a quantidade de agrotóxicos que ingerimos nos produtos alimentícios? Essa é uma atenção que tem sido negligenciada. Só quando há uma crise que nós corremos atrás do prejuízo. Mas é melhor prevenir do que remediar”, destacou, em entrevista ao Conversa Bem Viver.
Graziano, que também foi diretor geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), comenta ainda sobre a saída do Brasil, pela segunda vez, do Mapa da Fome da Organizações das Nações Unidas (ONU). Mesmo comemorando, ele destaca que o país ainda tem muito em que avançar.
“Temos cerca de 18 indicadores. O Brasil zerou um deles, mas não cumpriu a maioria dos outros 17. Nós não estamos no paraíso. Temos hoje menos de 2,5% da população subalimentada, mas, considerando que somos mais de 200 milhões de habitantes, ainda é um número expressivo. Produtos ultraprocessados são vendidos livremente no Brasil, sem nenhum controle, sem nenhum imposto adicional”, destaca.
Leia a entrevista completa:
Brasil de Fato – Os recentes casos de intoxicação por metanol deixam quais ensinamentos importantes?
José Graziano – Não é de hoje que se falsifica bebidas no mundo. Há uma tradição histórica disso. O que eu diria é que o problema está na fiscalização, que está cada vez mais difícil, porque as técnicas de falsificação são cada vez melhores. É como a história das falcatruas no sistema financeiro. As formas de falsificação estão aumentando e nós continuamos com as formas tradicionais de fiscalização.
O Brasil tem uma agência só, que é a Anvisa, para cuidar da saúde e da alimentação, e ainda fazer a fiscalização. Claro que complementam isso as ações do Ministério da Saúde, do Ministério da Fazenda e outros interessados em combater a falsificação. Mas está na hora de o Brasil pensar em uma estrutura dissociada, uma estrutura única para o tema da qualidade do alimento.
Isso permitiria investigar não apenas o tema da falsificação, mas também os temas das contaminações em geral. Nós não sabemos o quanto de pesticida nós estamos consumindo. Nós agora estamos assustados com o metanol, mas e a quantidade de agrotóxicos que ingerimos nos produtos alimentícios?
Essa é uma atenção que tem sido negligenciada. Só quando há uma crise que nós corremos atrás do prejuízo. Mas é melhor prevenir do que remediar. Está na hora de ter um sistema preventivo de ação governamental, para evitar chegar nesse desastre que nós estamos vivendo hoje com a falsificação de bebidas com metanol.
Com qual perspectiva precisamos dar continuidade ao combate à fome no Brasil?
Desde 2015, o Sistema Nações Unidas fixou a Agenda 2030, com 17 indicadores objetivos. O segundo deles é a fome zero. Ou seja, acabar com a fome no mundo. Esse objetivo tem vários índices para o seu acompanhamento. Um deles e o mais importante, na minha opinião, é o número de pessoas mal alimentadas.
A fome é um sinônimo de má alimentação, mas esse não é o único indicador, nem a fome se traduz apenas pela má alimentação. Tem pessoas que acham que comem bem, mas estão subnutridas. A nutrição e a qualidade são outros aspectos importantes.
Tem uma série de outros indicadores da performance do desempenho do objetivo número 2 da Agenda 2030. O Brasil cumpriu um deles, que é reduzir o número de pessoas subalimentadas.
Nós temos hoje menos de 2,5% da população subalimentada. Considerando que somos mais de 200 milhões de habitantes, ainda é um número expressivo. 2,5% da população do Brasil ainda é maior do que a população do Chile. É quase a população da Argentina. Ou seja, são mais de 20 milhões de pessoas.
O Brasil também é muito desigual regionalmente. A distribuição regional do Brasil acentuou muito as desigualdades já existentes anteriores. Então, hoje, por exemplo, a região Nordeste, que era sempre tratada como sinônimo de fome no Brasil, foi ultrapassada pela região amazônica.
A Amazônia, onde vamos fazer agora a COP 30, tem o maior índice de subalimentação do Brasil. O que eu chamo muita atenção é que nós temos cerca de 18 indicadores. O Brasil zerou um deles, mas não cumpriu a maioria dos outros 17. Nós não estamos no paraíso. Nós temos muita coisa para fazer.
No que diz respeito, particularmente, à questão da fome, a gente não presta a atenção devida hoje ao tema da má alimentação. Nós vemos as pessoas comendo bem, mas vemos uma transformação brutal. Eu, outro dia, vi uma entrevista de uma professora da Unicamp que dá aula de educação alimentar e ela começa o curso passando vídeos dos anos 80. É uma diferença brutal. O número de pessoas obesas é visível.
Nós tivemos recentemente, aqui na cidade, uma mudança nos assentos dos pontos de ônibus que tiraram aqueles cercadinhos de um e transformaram alguns em dois. Dois assentos para uma pessoa. Isso está se refletindo agora no próprio assento de avião, que também está cobrando das pessoas obesas um custo maior para ter um assento mais largo.
Isso tudo não é só um problema de custos. É um problema principalmente de impacto na saúde. Pessoas com obesidade têm uma propensão maior a diabetes e a doenças vasculares. No caso de crianças, após a obesidade, é muito difícil sair dessa condição ou pelo menos recuperar integralmente a sua capacidade física.
Há uma série de preconceitos contra pessoas gordas, mas você está destacando os aspectos da saúde. Certo?
Exatamente. Há pessoas que têm genética propensa à obesidade, mas há pessoas que têm problemas de saúde que as levam à obesidade. Estou tratando daquelas pessoas que, por terem uma má alimentação, estão caindo na condição de sobrepeso ou de obesidade. O Brasil tem hoje cerca de 25% da população obesa e um a cada quatro brasileiros é obeso.
Isso traz uma carga muito grande para o SUS, em demanda de atendimento de doenças não transmissíveis, como a diabetes, que mata milhões de pessoas por ano no Brasil. Há um custo altíssimo para o setor público. Por quê? Porque essas pessoas estão cada vez comendo pior.
Isso tem a ver, por exemplo, com a quantidade de propaganda de ultraprocessados. É uma imitação de carne, imitação de queijo, o pão com uma série de outros ingredientes artificiais, aditivos de açúcar, de sal e de outros, que são viciantes. Você não consegue comer um só.
Esses produtos ultraprocessados são vendidos livremente no Brasil, sem nenhum controle, sem nenhum imposto adicional. Esses produtos são muito baratos, quando comparados com uma fruta, uma verdura ou um legume, além do fato de você encontrar essas porcarias em qualquer lugar que você vai.
Mas não encontra frutas com a mesma facilidade, mesmo na época da safra. Agora, nós vamos entrar na época da safra de manga, por exemplo, mas é difícil achar uma manga para comprar na periferia de São Paulo ou aqui em Campinas.
Está em debate no Brasil a taxação dos produtos ultraprocessados. Você tem acompanhado esse debate no Congresso Nacional?
Eu tenho acompanhado muito esse debate de perto e estou impactado com o descaramento dos nossos representantes na Câmara e no Senado, quando defendem que não podem aumentar o imposto, porque isso afetaria principalmente as pessoas mais pobres.
Pessoas que estão nas faixas de renda mais baixas consomem mais os produtos ultraprocessados. Justamente por isso você tem que aumentar o preço, para eles deixarem de consumir isso. Hoje, no mundo, 50 países, pelo menos, já adotam esse imposto sobre bebidas açucaradas, porque senão a Coca-Cola, por exemplo, acaba sendo mais barata que a água mineral.
Essa é a contradição que nós vivemos hoje. Eu estou falando da Coca-Cola como um exemplo, mas são as bebidas açucaradas em geral, sejam refrigerantes, sejam aquelas imitando derivados de leite, como o Toddynho.
Pouca gente sabe disso, mas o Toddynho, do ponto de vista de indução a engordar, é mais prejudicial do que uma Coca-Cola. E não há nenhum alerta sobre isso. Você compra o Toddynho achando que está fazendo bem para o seu filho. Não tem nada no rótulo condenando.
Estou morando atualmente no Chile e lá, desde 2016, nós empreendemos uma série de ações de política para aumentar o imposto sobre essas bebidas açucaradas, mas também para inserir rótulos de alerta.
Uma bebida que tiver um selo negro é porque ela tem excesso de açúcar, excesso de sal, excesso de gorduras saturadas, etc. No Brasil, existe a famosa lupa, mas ela é tão pequenininha que você precisa de uma lupa para enxergar o selinho. No Chile não. É um selo grande que aparece destacado na embalagem.
Além de ter o selo na embalagem, esse produto não pode ter nenhuma propaganda que atraia a criança. Não pode ter um desenho de um bichinho, ser colorido, etc. E não pode ser armazenado no supermercado na prateleira à altura do seu olho. Tem que estar no chão. Esse conjunto de ações é importante.
O imposto sozinho tem um poder menor que quando combinado com outras medidas, como o selo frontal e a proibição de propaganda. Mas, ainda assim, todos os 50 países do mundo que adotaram impostos sobre bebidas açucaradas reduziram de 6% a até 25% o consumo.
Conversa Bem Viver

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