Uma das manifestações populares mais tradicionais de todo o país, que acontece no domingo (12) o Círio de Nazaré, é celebrado há mais de 200 anos em Belém do Pará e reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Com origens católicas, a manifestação marca a devoção à Nossa Senhora de Nazaré, mas, com o tempo, passou a receber pessoas de todos os lugares do país e do mundo e acabou se tornando um ato de celebração à diversidade religiosa, como destaca Maria José da Conceição Gama, conhecida como dona Zezé, mestre da cultura culinária paraense.
“O Círio de Nazaré consegue unir todas as religiões. Para você ter uma ideia, tem uma uma casa de evangélicos em um determinado local por onde o Círio passa que distribui água para os romeiros. É uma comoção que envolve todas as religiões, independente de cor, raça e crença”, explica, em entrevista ao Conversa Bem Viver.
O Círio, cujos preparativos já estão em curso e as celebrações duram todo o mês de outubro, também reúne manifestações com raízes indígenas, negras e quilombolas, expressas nas tradições cultuadas durante as procissões, mas também na culinária típica.
“Você sente o cheirinho da maniçoba em todos os lugares. O Pará é um estado de uma culinária muito rica e abrangente. Em qualquer ponto da cidade, você encontra uma maniçoba. Mas, no Círio, não tem uma casa que não tenha a maniçoba. A cidade fica cheirando também a pato no tucupi. São muitas iguarias e todo mundo fica deliciado”, descreve Zezé, que é dona de um restaurante, o Quintal da Zezé, em Cachoeira do Arari, na Ilha do Marajó, onde também nasceu. A maniçoba é um prato feito à base de maniva (folha da mandioca), que necessita ser cozida por até sete dias e é um dos pratos servidos pelas famílias no almoço de domingo do Círio.
Ela é enfática ao afirmar que a experiência é inexplicável e comovente. Mas, mesmo com a ansiedade para o Círio, Zezé explica que outro grande evento também tem gerado expectativas na população paraense: a COP 30, que nesta edição será em Belém, entre os dias 10 e 21 de novembro.
“Como amazônidas e como marajoaras, o que a gente espera é um resultado positivo, porque, se continuar do jeito que está, eu não sei aonde vamos parar. Estamos apostando todas as fichas nessa COP. Esperamos que saia um documento sério e alguma coisa que traga uma solução para mudar a situação do clima”, afirma.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – O Círio de Nazaré realmente mexe com a população de Belém?
Dona Zezé – Você não tem noção da grandeza que é o Círio de Nazaré. Quem nunca participou não imagina como essa cidade fica, com gente de tudo quanto é lugar. É grandioso demais, um movimento de fé muito grande. Agora mesmo, os romeiros já estão chegando, caminhando a pé, vindos de cidades longes, para chegar aqui com muita dificuldade, mas também com muita fé no coração. É uma coisa única e inexplicável. Só vivendo para sentir a grandeza.
A senhora se lembra do seu primeiro Círio?
Eu lembro como se fosse hoje. O primeiro Círio que eu presenciei aqui em Belém do Pará foi na década de 1983, quando eu estava grávida do meu primeiro filho. Estava difícil de acompanhar, porque eu já estava com a gravidez bem avançada, e fomos esperar a passagem em um determinado lugar.
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Mas é uma emoção muito grande, uma comoção muito grande. Então, isso ficou marcado como primeiro Círio, mas era também a minha primeira gestação. Eu fui para a praça assistir a passagem da santa, para celebrar a vinda do meu primeiro filho. Isso toca no coração da gente.
O Círio, de alguma forma, acontece durante todo o outubro, mas o grande momento é o segundo domingo do mês?
Isso. No domingo, a santa sai da Igreja da Sé e vem para a Basílica de Nazaré. Mas são várias procissões. Hoje, estamos contando com 14 procissões durante todo o mês. Todos os dias têm uma procissão e todas essas procissões são lotadas de gente e emocionantes. E assim vai seguindo. Tem a romaria e uma série de coisas.
O público fica mesmo presente. Pode chover ou fazer sol que o pessoal está ali. É só mesmo muita fé para mover tudo isso. Só vivendo para sentir toda a emoção que a gente tem durante esse período.
Mesmo com origem católica, o Círio consegue abarcar as diferentes fés?
O Círio de Nazaré consegue unir todas as religiões. Para você ter uma ideia, tem uma uma casa de evangélicos em um determinado local por onde o Círio passa que distribui água para os romeiros. É uma casa de evangélicos, mas, no dia do Círio, eles põem uma mesa na frente da casa e vão distribuir água para os participantes da procissão. A igreja evangélica Assembleia de Deus também distribui água para os romeiros.
É uma comoção que envolve todas as religiões, independente de cor, raça e crença. O que importa primeiramente é a fé. E nós, católicos, celebramos também a Nossa Senhora.
Falamos bastante de religião, mas a comida também marca muito o Círio de Nazaré. É verdade que Belém, nessa época, cheira a maniçoba?
E está cheirando mesmo, pode ter certeza. Você sente o cheirinho da maniçoba em todos os lugares. O Pará é um estado de uma culinária muito rica e abrangente. Quando chega no período do Círio, a coisa aumenta muito mais, mas a maniçoba tem o tempo todo.
Em qualquer ponto da cidade, você encontra uma maniçoba. Mas, no Círio, não tem uma casa que não tenha a maniçoba. Então, a cidade fica cheirando também a pato no tucupi. São muitas iguarias e todo mundo fica deliciado.
O gosto da maniçoba não se assemelha em nada com o da feijoada. Não tem grão de feijão. O que tem é a maniva, que é de onde a gente extrai o tucupi, e as folhas são moídas para fazer a maniçoba.
Então, ela não se assemelha à feijoada, a não ser por ingredientes como o toucinho, o pé de porco, o charque, o porco em si e os chouriços. Mas o gosto é totalmente diferente.
Tem que ferver a maniva por sete dias, para ficar bem moreninha e tirar o gosto amargo. Porque a folha, logo que você ferve, tem um gosto amargo. Tem que cozinhar bastante para desaparecer esse gosto amargo. Quando chega no sexto dia, você já pode ir adicionando comida para ir pegando o sabor. Fica uma comida deliciosa. Se não ferver bastante pode causar algum dano para a saúde também, por ser uma erva.
A senhora possui um estabelecimento de culinária. Como é gerir o Quintal da Zezé, que fica em Cachoeira do Arari, na Ilha do Marajó?
Eu trabalho no ramo da culinária desde 2003, quando comecei com entregas de marmitas em domicílio. Em 2007, nós construímos o estabelecimento, que é um espaço pequeno e comporta 40 pessoas sentadas.
Cachoeira e a Ilha do Marajó também têm os seus pratos típicos. Nós temos o frito do vaqueiro, que é uma iguaria carro chefe da cozinha marajoara. É chamado frito do vaqueiro porque é uma iguaria criada nas fazendas como forma de conservação da carne. Os vaqueiros matavam um animal e não tinham como consumir a carne de uma vez só. Não tinha energia elétrica nas fazendas e eles tinham que encontrar uma forma de conservação da carne.
Então, eles entenderam que a gordura poderia conservar aquela carne sem ela ir para a geladeira. Daí, criaram esse prato que leva como único condimento o sal. Ele apura na própria gordura e, depois de frio, fica envolvido naquela gordura da conservação. Quanto mais tempo passa naquela gordura, mais saboroso fica.
Quem te passou todo esse conhecimento sobre a culinária?
O frito do vaqueiro é de origem dos negros que viviam e eram empregados nas fazendas. De origem indígena, nós temos um prato que é feito mais em Cachoeira do Arari e se chama quinhapira.
É um prato indígena feito com o suco do Tucumã, aquela frutinha que tem o caroço duro, e o peixe salgado. A quinhapira, na língua tupi-guarani, significa peixe e pimenta.
Os indígenas utilizavam o sal, que naquela época eles extraíam de mururé e caçuá. Eles pegavam esse sal, desidratavam a pimenta, misturavam nesse sal e salgavam o peixe. A pimenta não só ajudava a conservar o peixe, como espantava os insetos.
Segundo alguns relatos, os indígenas que habitavam a Ilha do Marajó tinham também a técnica de extrair o suco, que eles chamavam de vinho do tucumã. Eles pilavam o tucumã no pilão, coavam na peneira de palha, e tiravam o vinho do tucumã. Eles colocavam esse peixe salgado para cozinhar dentro daquele vinho de Tucumã, chamado de quinhapira. Você não tem noção de como fica saboroso servido com arroz branco, uma maravilha.
Já o tacacá, um prato muito usado aqui na região do Marajó, a gente não sabe se é uma comida ou se é uma bebida. Para mim, é uma bebida. A gente toma tacacá.
Temos uma série de influências que denominaram esses pratos e essa culinária, e fomos aprendendo. Eu, particularmente, não me considero chefe de cozinha, porque eu não passei por uma faculdade, não tenho nenhum diploma de chefe. Eu me considero mestre de cultura, porque eu me propus a defender a cultura alimentar marajoara.
Estou procurando, dentro do meu espaço, manter essa raiz viva e passar para os nossos jovens, para as pessoas que estão chegando agora, a tradição dos nossos pratos tradicionais, para que não deixem eles ficarem no esquecimento. Eu aprendi com a minha avó, com a minha mãe e com a minha tia. Hoje eu tento passar para outras pessoas dessa mesma forma.
Eu me recuso a mascarar o nosso prato. Eu só faço um frito do vaqueiro se eu tiver uma carne especial para fazer o frito do vaqueiro, para que eu não tenha que mascarar ela com óleo ou com qualquer outra coisa. Tem que ser com a gordura da carne. Eu me propus a defender a culinária marajoara dessa forma, da forma que os nossos antepassados nos passaram. É assim que o restaurante funciona, defendendo o que é original.
Há toda uma história por trás disso. A culinária paraense não é simplesmente um prato. Lá no restaurante, eu costumo servir e contar um pouco da história. Aí, o pessoal diz assim: “aqui a gente sai alimentado e ainda sai com uma bagagem cultural”.
Dona Onete, grande cantora e símbolo da cultura paraense, também nasceu na Ilha do Marajó. A senhora chegou a conhecê-la?
Eu já tive o prazer de recebê-la no meu restaurante. Dona Onete já esteve lá e não perdeu as suas raízes. Ela foi visitar o Marajó no período da pandemia. Passou por Cachoeira, foi visitar a igreja onde ela foi batizada e foi almoçar no restaurante. O prato preferido dela, o que ela escolheu, foi o nosso tamatá, aquele peixe cascudo. Ela disse que não podia faltar e meteu a mão no tamatá, igual o caboclo faz. Se alimentou do jeito que queria e gostou.
Ela passou um pouco da infância dentro de Cachoeira e a mãe dela costumava cozinhar o tamatá para comerem. Então, quando ela ligou, queria que não faltasse tamatá na mesa e foi o que ela mais comeu.
O presidente Lula (PT) também esteve na região recentemente. Ele passou por Cachoeira? Em breve ele retorna ao estado para a COP 30. Como estão as expectativas?
Não, ele foi em Breves. Esteve no Círio de Nazaré do ano passado, mas neste ano não poderá participar. Daqui a pouco ele está chegando para a COP 30. Eu espero que os indígenas sejam ouvidos, porque o movimento está muito grande e a conferência sendo muito divulgada.
Como amazônidas e como marajoaras, o que a gente espera é um resultado positivo, porque, se continuar do jeito que está, eu não sei aonde vamos parar. Estamos apostando todas as fichas nessa COP.
Esperamos que saia um documento sério e alguma coisa que traga uma solução para mudar a situação do clima. Já aconteceram várias conferências e praticamente nada mudou. Eu espero que esse número 30 nos traga sorte e que, por ser aqui na Amazônia, que a gente tenha uma resposta.
Conversa Bem Viver

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