Conversa Bem Viver

No Brasil e na Palestina crianças lutam pelo direito à terra, diz dirigente do MST

Jornada das Crianças Sem Terrinha debateu genocídio da população palestina e os efeitos da crise climática

SEM TERRINHAS
Presentes nos acampamentos, assentamentos, encontros de formação, reuniões, manifestações e ocupações de terra, as crianças são uma das principais fontes de energia do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) | Crédito: Sérgio Cardoso

Presentes nos acampamentos, assentamentos, encontros de formação, reuniões, manifestações e ocupações de terra, as crianças são uma das principais fontes de energia do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e, como de costume, o mês de outubro foi marcado pela  Jornada das Crianças Sem Terrinha

Com o lema Sem Terrinha em ação: defender a natureza é defender o nosso chão, a edição deste ano debateu temas sensíveis, como o genocídio da população palestina na Faixa de Gaza e os efeitos da crise climática, mas sem perder a ternura e a leveza características dos pequenos. 

A programação, que aconteceu nos espaços do MST espalhados em todo o Brasil, contou com brincadeiras, rodas de conversa, oficinas, apresentações artísticas, plantio de árvores, entre outras ações. 

Janaína Rezende, do setor de educação do MST, explica que o objetivo é, por meio de discussões e de atividades lúdicas, mostrar que as guerras e a destruição ambiental são problemas globais, mas têm raízes e impactos nos territórios onde vivemos.

“Falar de guerra, fome e das principais vítimas do genocídio, que são justamente as crianças, é sensível. Mas as crianças sem terrinha já participam da luta pela terra no Brasil e a luta Palestina também é luta por terra. O que está por trás  da luta do MST e da luta do povo palestino é a ação do capital sobre as nossas vidas e os nossos territórios. Por isso, a discussão ambiental tem tanta relação com defender o nosso chão”, explica, ao Conversa Bem Viver.

Confira a entrevista completa:


Brasil de Fato – Qual é a importância da temática e as atividades da jornada deste ano?

Janaína Rezende – A Jornada Sem-Terrinha é sempre um momento muito emocionante, que envolve e sensibiliza o conjunto do movimento para dar visibilidade à participação das crianças na luta do MST. 

Neste ano, a gente trouxe como lema Sem-terrinha em ação: defender a natureza é defender o nosso chão, porque entendemos que a crise climática e o problema ambiental têm uma dimensão internacional, mas se inicia no chão onde a gente pisa.

Então, a proposta foi que as crianças estudassem os biomas e refletissem sobre a questão ambiental a partir dos seus territórios, para tentar entender quais são os impactos do modelo do agronegócio e do capital. 

O objetivo era buscar entender as contradições que estão presentes dentro do próprio território, mas tentando compreender também como elas  se manifestam no mundo todo. Propusemos que as crianças visitassem sistemas agroflorestais, discutissem questões ambientais e olhassem o que está sendo produzido nos assentamentos, como forma de entender a reforma agrária popular enquanto um contraponto e uma medida necessária para enfrentar o desastre ambiental que temos vivenciado.

Também queríamos dar uma dimensão maior para a questão, porque a educação ambiental não é só economizar água enquanto a gente escova os dentes, por exemplo, mas é identificar o agronegócio enquanto o maior responsável pelos impactos ambientais, pelo desmatamento, e pelas consequências disso, como as secas e as enchentes.

Então, a proposta foi que a jornada tivesse ações de estudo, de discussões, mas também de denúncia contra essa situação que a gente tem enfrentado e esse modelo produtivo que tem impactado diretamente as nossas vidas. 

Além disso, a jornada propôs que fossem plantadas mudas de árvores, compondo o Plano Nacional Plantar Árvores e Produzir Alimentos Saudáveis, que o MST já realiza há bastante tempo e tem como meta o plantio de 100 milhões de árvores.

Muitas árvores foram plantadas, por exemplo, para demonstrar a nossa solidariedade ao povo palestino, como mudas de Oliveira (árvore símbolo do Oriente Médio muito presente na Palestina), representando a nossa denúncia ao genocídio que está acontecendo na Palestina. Foi uma forma de envolver as crianças desde já nesse debate.

Quem são as crianças que participam da jornada e qual é o papel delas na luta?

As crianças sempre estão presentes na luta que o MST realiza. Na ocupação da terra, quando as famílias vão para o acampamento, vai a família inteira, incluindo as crianças, os cachorros, o papagaio, o periquito, os gatos, etc.

Então, as crianças, desde os primórdios do MST, desde as primeiras ocupações, sempre estiveram presentes nos acampamentos. Por isso, a luta por educação, por escola e por formação de professores é uma bandeira tão presente ao longo desses mais de 40 anos do movimento.

Essa presença das crianças traz também desafios para o próprio movimento. Inicialmente, o olhar do MST para as crianças tinha como foco a tentativa de garantir a participação das mulheres, considerando que, no Brasil e no mundo, a maior parte da responsabilidade sobre as crianças é feminina. Ou seja, na medida em que o movimento quer garantir que as mulheres participem das cooperativas e da direção política do MST, por exemplo, precisa pensar na construção de um espaço para acolher as crianças, de forma a garantir a participação das mulheres que têm filhos.

Estou falando da luta por escola, mas também por outros espaços, para que as crianças fiquem seguras enquanto as mulheres participam das reuniões, das formações e das atividades de luta. Mas, na medida em que fomos construindo espaços para as crianças, percebemos que também é um direito delas participar. Não é só um direito das mulheres.

As crianças sem-terrinha são as crianças filhas de acampados e de famílias assentadas, que estão no Brasil inteiro participando da luta de acordo com as suas condições. A participação das crianças é muito diferente da de um adulto,  por isso, na jornada, sempre pensamos muito nas atividades que vão ser propostas, como brincadeiras, apresentações artístico-culturais, oficinas, etc.

Também consideramos as desigualdades que existem no Brasil. Crianças mais pobres, muitas vezes, têm negado o direito à literatura, a ver um espetáculo de teatro, a ouvir música boa, entre outros.  Então, os encontros sem-terrinha costumam ter essa característica de oferecer a possibilidade de usufruir desses direitos.

É também um momento de luta. Até hoje, muitas escolas foram conquistadas por causa da mobilização das crianças. As crianças participam da luta do MST, elas também lutam, e a luta educa. Mas tudo isso acontece de acordo com as condições que elas têm, com os recursos compatíveis com a idade, sem querer impor uma forma adultocêntrica de funcionar.

As crianças participam e nos ensinam demais sobre outras formas também de fazer luta, com jeito leve, alegre, divertido, e com bastante brincadeira, porque a luta pode ser isso também.

Qual é a importância da formação das crianças para o futuro?

Discutir, por exemplo, a questão Palestina com as crianças, é bastante sensível. Falar de guerra, fome e das principais vítimas do genocídio, que são justamente as crianças. Mas, considerando que as crianças sem-terrinha já participam da luta pela terra no Brasil, existe essa semelhança de considerar que a luta Palestina também é luta por terra. Isso aproxima o debate, de alguma forma, e faz com que as crianças tenham mais facilidade para compreender e serem ainda mais sensíveis.

Além do plantio de muda, muitas cartinhas foram produzidas em solidariedade às crianças palestinas. A gente entende que o que está por trás  da luta do MST e da luta do povo palestino é a ação do capital sobre as nossas vidas e os nossos territórios. Por isso, a discussão ambiental tem tanta relação com defender o nosso chão.

Sem dúvida, essa jornada nos ensinou demais, porque as crianças também vão nos ensinando formas de lutar e de não perder a esperança diante de tudo o que temos enfrentado. 

Elas se envolvem muito, por exemplo, com o plantio das mudas, no cuidado, na preparação do solo, na rega, mas também no compromisso com as árvores plantadas, entendendo que não basta só plantar árvore, tem que garantir que essa árvore cresça. Tudo isso vai nos ensinando que a luta precisa ser feita, mas com alegria, com recurso e com esperança acima de tudo. 

O mês de outubro é sempre esperado ansiosamente, porque conseguimos também ressignificar os nossos processos de luta e renovar a nossa esperança, a nossa mística. Enquanto houver uma criança erguendo uma bandeira, sorrindo e brincando, seguimos firmes juntos.

Essas trocas são um pouco a base para construção de um novo modelo de nação?

Eu acredito que sim, entendendo que a participação das crianças não se resume só a jornada sem terrinha. Elas estão nos nossos territórios, acampamentos e assentamentos. Elas seguem sendo as principais vítimas das contradições do atual modelo, porque, em um Estado violento e desigual, as crianças são as que mais sofrem as consequências. E, por isso, elas têm uma facilidade muito grande de engajamento.

Mesmo em tempos de telas e de tentativa de cooptação das crianças e da infância, é possível a gente ver as crianças de outra forma, na medida em que a gente se coloca para escutar, acolher e construir junto. Ainda existe essa infância que brinca, que inventa, que transforma, que luta e que nos ensina muito. Isso está muito presente nos nossos acampamentos e assentamentos, mas no Brasil todo.

Para além do MST, as crianças precisam de espaço e de oportunidade para conseguir expressar isso. Nosso papel como adulto é o de criar junto com elas essas condições para que elas sigam sendo livres e podendo crescer de uma forma saudável e feliz. 

A jornada também é sempre um espaço muito festivo e que dá uma visibilidade maior a essa presença que nos acompanha durante o ano todo, mostrando que as crianças do MST também têm um projeto de sociedade, que é a reforma agrária popular. Esse projeto depende da construção de todo mundo, não só dos adultos, mas das crianças também, dos jovens, dos idosos, dos sujeitos LGBTs, etc. A gente só vai construir uma reforma agrária popular e garantir a agroecologia enquanto modelo de produção agrícola, se a gente estiver junto construindo outras relações.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

O programa de rádio Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 7h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é semanal e vai ao ar aos sábados a partir das 13h30 no YouTube do Brasil de Fato e TVs retransmissoras.Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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