Conversa Bem Viver

A arte não sufoca nenhum lugar de fala, afirma escritora Aline Bei

Já está disponível nas livrarias de todo o Brasil a mais recente obra de Aline Bei, 'Uma delicada coleção de ausências'

Aline Bei também é autora de Pequena Coreografia do Adeus e O Peso do Pássaro Morto
Aline Bei também é autora de Pequena Coreografia do Adeus e O Peso do Pássaro Morto | Crédito: Divulgação

Já está disponível nas livrarias de todo o Brasil a mais recente obra de Aline Bei, Uma delicada coleção de ausências, romance que apresenta as histórias do passado, do presente e projeções sobre o futuro de uma família formada por três mulheres — neta (Laura), avó (Margarida) e bisavó (Filipa).

A narrativa também é transpassada pela ausência de uma quarta personagem (Glória), a mãe de Laura. Com personagens complexas, que aproximam e afastam o afeto do leitor ao longo do desenvolvimento da trama, o livro aborda violências, mas sem perder de vista a esperança. 

“Questões como violência sexual e pedofilia são tão difíceis de serem elaboradas porque têm o lugar do absurdo, do inacreditável, mas essas coisas acontecem.  A arte está aí para vir ao nosso socorro, porque a literatura, o cinema e a música, quando se envolvem com esse tipo de narrativa, trazem sutilezas contempladas. Não sufoca nenhum lugar de fala. A arte é o melhor caminho para falar sobre essas coisas”, destaca Bei, em entrevista ao Conversa Bem Viver.

Ela também é autora de Pequena Coreografia do Adeus e de O Peso do Pássaro Morto, sucessos com os quais o novo lançamento forma uma “trilogia involuntária”.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato – Os livros Pequena Coreografia do Adeus, O Peso do Pássaro Morto e, agora, Uma Delicada Coleção de Ausências formam, de fato, uma trilogia involuntária?

Aline Bei – É exatamente isso o que eu sinto. Sentia já no processo de escrita do Delicada, de uma forma latente. Agora tenho visto os livros caminhando juntos. Há uma caminhada que estabelece uma espécie de irmandade entre eles. Eles são lidos juntos. Quando eu autografo livros, quando eu estou nos eventos, as leitoras e leitores costumam ter os três e, se não têm, eles estão com uma expectativa da leitura do próximo,  como se cada livro fosse um gesto de um mesmo corpo. 

Eu tenho essa impressão. Na verdade, já tinha um tanto desse pressentimento de que cada livro de um autor é uma parte de um todo, de uma obra que está sendo construída em tempo real. Nunca sabemos onde tudo vai se interromper, porque os motivos nos ultrapassam também. Mas a ideia, até onde podemos planejar, é que cada livro possa escutar o que o outro fez e trazer mais um elemento para a roda, que continua girando a partir do início de cada jornada de escritor. 

No meu caso, começo com o Pássaro e continuo esse processo com o Pequena, que acolhe muitas descobertas do Pássaro, que já havia acolhido descobertas dos meus textos mais curtos. E Delicada escuta os dois livros anteriores e também propõe um movimento em direção a alguma outra coisa que é o meu próximo livro. 

Então, eu me sinto essa autora que tem uma comunicabilidade muito grande entre livros e uma ideia de que, na verdade, com cada um deles, estou construindo um gesto, um gesto que só vai ser compreendido na sua totalidade quando eu terminar, quando todas as obras estiverem de pé convivendo juntas.

O Uma Delicada Coleção de Ausências fala de uma trinca, de três mulheres, duas mulheres e uma menina.  Como o enredo do livro se desenvolve?

Quando você disse que são três, eu já estava pensando mesmo que são quatro, considerando a ausência de Glória, que é a mãe da Laura, filha de Margarida, a neta de Filipa. Ela não está. No entanto, essa presença é marcada de alguma forma pela sua própria ausência. Eu sinto que a Glória molda o modo como essas mulheres se comportam umas com as outras e com o espaço. 

E, inclusive, a Glória, com esse nome, é uma metáfora por si mesma. O que me mostrou que esse livro tinha uma camada subterrânea foi a ausência dela e ela ter esse nome. Surgiu para mim a personagem com esse nome. Então, eu entendi que tinha alguma sombra que se estabelecia no livro, alguma coisa que aconteceria e que eu fui descobrindo ao longo da própria escrita.

Mas, também em alguma medida, apesar de todas elas serem nomeadas, como tem uma questão geracional e muitos silêncios herdados nessas histórias todas, eu sinto que cada uma é a si mesma e a outra simultaneamente. É possível a gente ver o futuro de Laura na avó e na bisavó. 

É possível a gente sentir o passado de Glória com a Laura, e os passados da Margarida e da Filipa também, em alguma medida. É bonito esse labirinto espelhado, porque em outros livros meus eu estava trabalhando a questão do salto temporal, para trazer um pouco da perspectiva da vida. 

Eu tenho sempre esse desejo de trazer a vida, mas a vida talvez na sua completude pelo fragmento. Então, fico com essa expectativa de passar por uma vida. No Pássaro tem isso. Na Pequena Coreografia do Adeus também tem a jovem Júlia passando pela vida dela como um todo. 

E, neste livro de agora, eu acho que o meu modo de encontrar a vida, na sua amplitude, é realmente olhar para essas mulheres em relação umas com as outras, para que a gente perceba essa linha do tempo. O que também é singular em cada uma e o que é estrutural, porque todas elas são marcadas por uma violência invisível, mas que vai fervendo no livro. 

A gente vai encontrando essa violência na nossa caminhada. Ela não é nomeada muitas vezes. Ela gera estranhamento em algumas leitoras e leitores e ela só é descortinada absolutamente quase no final do livro. Mas tem um pressentimento de alguma coisa que vai acontecer e não só que vai acontecer, mas que já aconteceu, porque nem tudo na relação dessas mulheres está dito. Está na superfície do livro. Há muitas coisas por baixo. 

Então, foi um trabalho interessante de fazer, que é um trabalho de fundo. Ou seja, ao invés de se dedicar apenas à superfície da história, também construir o que vai embaixo e que modifica a nossa impressão da superfície. Então, foi um trabalho interessante, além da terceira pessoa também, que é uma novidade nesse livro e que a gente pode pontuar como um outro personagem. O narrador é um personagem também.

O que você quer dizer com a expressão “silêncios herdados”, em relação às violências que perpassam a história do livro?

Essa é a chave de leitura mais importante de todo o trabalho. Inclusive a palavra “delicada” também talvez seja um modo de a gente compreender o todo do livro. Muitas pessoas têm escrito dizendo: “poxa, eu não encontrei a parte delicada do livro”. Mas as pessoas talvez estejam olhando para a palavra “delicada” só pelo significado da fragilidade, que está implícita no livro. 

Mas a palavra “delicada” também vem em uma argumentação das coisas que são difíceis de se colocar em palavras, assuntos que faltam vocabulário para dar conta. Quando a gente fala “é um assunto delicado”, é porque a pessoa já precisa preparar uma escuta, que não é a escuta que ela tem no cotidiano, para conseguir absorver aquilo. Não vai ser uma coisa fácil de ser dita e também não vai ser uma coisa fácil de ser ouvida. Então, delicada tem essa ambiguidade que me interessava.

Questões como violência sexual e pedofilia são tão difíceis de serem elaboradas porque têm o lugar do absurdo, do inacreditável. É inacreditável que essas coisas aconteçam, mas a gente sabe, por outro lado, que elas acontecem continuamente e acontecem muitas vezes em segredo, e, quando a coisa estoura, ela estoura muitos anos depois. 

Me parece que quase já é tarde demais e aí a coisa acontece assim, estoura na linguagem, estoura para o outro, porque é muito difícil acreditar que essas coisas aconteceram. E depois, a linguagem também tem um teor de realidade. Quando a gente começa a trazer vocabulário para um drama, para uma tragédia como essa, colocamos realidade nisso.

Eu acho que tem um lado da vítima que também, às vezes, parece que quer voltar no tempo. E aí, se você fala, aquilo passa a existir não só dentro de você, mas fora também. Aquilo ganha uma amplitude e realmente passa. Você vai ter que enfrentar o luto daquilo ter acontecido com você. Parece que no momento que se guarda o que aconteceu, ainda é possível modificar alguma coisa, como se aquilo fosse um pesadelo.

Tem essa carga também, são muitas camadas. É muito difícil falar sobre essas coisas, mas eu acho que a arte está aí para vir ao nosso socorro, porque a literatura, o cinema, a música, quando se envolvem com esse tipo de narrativa, trazem sutilezas contempladas. Não sufoca nenhum lugar de fala. Pelo contrário, coexiste tudo isso numa mesma estrutura que vai reverberar justamente a complexidade do acontecimento. Então, por isso que eu acho que a arte é o melhor caminho para falar sobre essas coisas.

A humanização da ausência também tem relação com o termo “delicada”?

Eu sinto também que, nesse livro, trabalhei uma questão que nos outros abordei um pouco menos. Os livros anteriores tinham uma coisa fixa. Os personagens e as histórias se apresentavam e cresciam na sua apresentação. Então, o que o livro era, o que a personagem era, estava posto talvez desde as primeiras páginas e isso desdobrava em direção a outras cenas e possibilidades. 

Por exemplo, a relação que a gente tem com a personagem do Pássaro não varia. A gente continua ali com ela perdendo as coisas. Podemos ter vários caminhos, mas ela tem essa questão fixa. A Júlia também. A Vera talvez seja uma personagem que tem mais camadas, no sentido de a gente olhar e pensar: “bom, podemos dizer que ela foi uma péssima mãe, mas também há outras coisas aqui que a gente pode olhar e trazer uma complexidade para essa personagem”. Ela não foi só ruim. A vida também não deu espaço, não deu linguagem para ela ser diferente.

Agora, neste último livro, temos personagens que não são completamente confiáveis. Podemos começar o livro com uma impressão delas, principalmente das mulheres adultas. As crianças não, mas as mulheres adultas, começamos com uma impressão e podemos, ao longo da narrativa, pelo modo como as coisas se encaminham, mudar a nossa perspectiva. 

Acho que um exemplo está na história da Filipa, que chega muito carrancuda, muito fechada, cheia de preconceitos, num discurso opressor, mas, aos poucos, conforme a narrativa vai avançando e a presença dela vai adensando pela casa, é possível a gente sentir a ternura e o modo como essa mulher também foi ferida, como ela se apodera da religião como uma espécie de poder possível que ela nunca conseguiu alcançar na vida.

Nisso, então, ela consegue usufruir de algum lugar de poder, que é esse lugar da moral, de dizer o que é certo e o que é errado. É uma personagem que, aos poucos, vai se tornando lentamente adorável. E não começa nesse ponto. E há outros personagens na trama que são o contrário, que a gente tem um afeto por eles e, no decorrer da narrativa, eles vão mostrando as suas sombras. A traição acontece não só no livro, mas também com a leitora que se sente traída em alguma medida por ter confiado naquela figura ou na outra. 

Eu nunca tinha trabalhado com personagens assim em transição. E eu senti nisso uma coisa interessante para se trabalhar. Foi uma coisa que me deu prazer construir um personagem que não é fixo no julgamento que a gente pode ter dele. Isso vai se tornando mais complexo ao longo da trama.

Por que você escolheu o circo para aparecer logo na abertura do livro?

O circo foi curioso, porque, quando eu estava escrevendo o Delicada, me parecia um livro que não começava e nem terminava. Nos meus outros livros, comecei o livro exatamente na folha que está publicada e continuei o caminho de uma maneira linear. O Delicada não, porque ele foi uma montagem. Depois, eu peguei todas as cenas e comecei a montar o livro. 

O circo surgiu em uma das cenas de banho que nem entraram no livro depois, ficaram no inconsciente, porque as cenas de banho tinham muitas. Eu coloquei minhas personagens para conviver, para entender um pouco da personalidade de cada uma delas e eu sinto que os cômodos da casa também têm o seu próprio temperamento e moldam esses corpos em direção a certas atitudes. 

Então, o banheiro, por exemplo, que é um lugar etéreo, é um lugar de limpeza, de renovação, de nascimento e morte, sujeira, todas essas questões mais íntimas. Essas conversas surgiam no banheiro e depois acabou acontecendo essa brincadeira entre a Margarida e a Laura, que é o confessionário, que também já é possível pressentir a partir dessa brincadeira uma educação católica. 

A Filipa está implicada nessa brincadeira do confessionário que elas têm no banho, mas basicamente, para quem não leu o livro ainda, é uma relação que elas contam segredos uma para outra, avó e neta, coisas que elas não falariam se não tivesse esse suporte da brincadeira do confessionário.

Então, em uma dessas conversas entre as duas, a Margarida contou para a Laura que ela teve uma vida no circo, que ela fugiu com o circo. Quando ela contou isso, eu deixei que a história corresse um tempo. Não sabia ainda que ia se transformar no prólogo. O circo é um inconsciente simbólico do livro. Na verdade, ele sustenta toda a parte de baixo do livro. Porque a Laura também adoraria ir para o circo. 

O circo está na cidade, quando isso se torna um presente contínuo entre avó, neta e bisavó. O circo está na cidade e a Margarida não deixa a Laura visitar o circo porque ela tem medo que a neta fuja como ela também fugiu. Elas têm uma sensibilidade de que essa família é uma família de heranças. E há muitas vocações simultâneas. 

Então, o circo pode ser uma delas. A arte, a fuga, que também é uma herança que elas carregam, não só o silêncio, mas a fuga, o escape. O circo surgiu como uma possibilidade simbólica para construção de um corpo que é um corpo extra cotidiano, um corpo que vai encontrar uma outra possibilidade de ser a partir do mistério, da representação, da elaboração, da arena, do contato com o público, uma expansão desse corpo que seria previsto apenas para violência, mas que encontra no palco da arena uma possibilidade de desdobramento em outras máscaras mais amplas, mais difíceis de serem agarradas. 

Eu sinto que é no circo que está a liberdade absoluta do ser, porque está na arte também, em alguma medida. Então, foi muito importante encontrar o circo, que deu o elo completo para essa relação.

Agora, a questão da quiromancia foi algo que me aconteceu fora do livro, antes do livro. Eu vi uma mulher em Buenos Aires e ela era uma quiromante. Eu acho que se não tivesse visto ela e não tivesse me impactado tanto visualmente, eu não teria trazido esse ofício para Margarida. Isso não era uma coisa que estava no meu imaginário continuamente. Eu não pensava em quiromancia. Apesar de eu adorar tarot, astrologia, etc, eu nunca tinha pensado em colocar uma personagem que criasse futuro. 

E nas mãos também, que é um elemento fundamental do livro, o corpo, as linhas, os traços. Então, ter visto essa mulher me fez trazer esse ofício para Margarida e eu acho que, dessa forma, o futuro também se infiltra no livro, porque é um livro que temos o presente, temos o passado, com a história dessas mulheres, mas temos também o futuro, apontado como um pressentimento, a adivinhação. Também a partir do que se elabora no presente podemos perceber como esse futuro se dará e ter esperança. 

Conversa Bem Viver

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Editado por: Luís Indriunas

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