Conversa Bem Viver

Estereótipos sobre o Nordeste persistem, mas não condizem com a realidade, diz pesquisador

Livro ‘Só sei que foi assim’, de Octávio Santiago, conta como surgiram os preconceitos em relação ao Nordeste brasileiro

No audio source provided.
Octávio Santiago: 'colocam sempre o nordestino em uma condição de aridez, de escassez, de ausência'
Octávio Santiago: ‘colocam sempre o nordestino em uma condição de aridez, de escassez, de ausência’ | Crédito: Rielson Marcos

Mesmo após mais de um século de “surgimento”, o Nordeste ainda é associado pelo restante do Brasil a diversos estereótipos, como o atraso e a pobreza. Para entender porque esses preconceitos ainda persistem no imaginário brasileiro, já que a região é campeã, por exemplo, em aprovações em concursos públicos e boas notas em exames nacionais, Octávio Santiago dedicou sua tese de doutorado a investigar sobre o tema.

A pesquisa resultou no livro Só sei que foi assim: A trama do preconceito contra o povo do Nordeste, lançado este ano pela Autêntica Editora. O autor discute as origens e a quais setores interessa o atual enquadramento hegemônico da população nordestina. 

“Temos, de um lado, o nordestino que é campeão em aprovação em concurso público, é campeão em notas 1000 no Enem, e que trabalha bastante. Temos uma contribuição enorme para a construção nacional, não só do tijolo, mas também do saber nacional. Esse é o nordestino que talvez não seja o que a televisão mostra. Por outro lado, há grupos que tentam a todo custo convencer o mundo de que uma suposta ascendência europeia os colocaria em uma posição de superioridade”, descreve, Conversa Bem Viver.

Santiago ainda analisa o papel das produções midiáticas, jornalísticas e audiovisuais na construção e manutenção do discurso estereotipado sobre a região. 

“Colocam sempre o nordestino em uma condição de aridez, de escassez, de ausência, que lhe falta tudo, inclusive a gramática. O nordestino que é campeão em concurso e em aprovação no Enem, de repente, não sabe nem falar direito na televisão. Quando há uma redenção, quem vai dar essa redenção é o Sul. O discurso da trama é esse: só quem pode salvar é o Sul do Brasil”, explica, que pode ser ouvida nesse link.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato –  O seu livro é resultado de uma pesquisa sobre a origem dos estereótipos e preconceitos contra pessoas do Nordeste. O que você encontrou no estudo?

Octávio Santiago – Ter espaço para falar sobre esse tema é essencial, não só para mim ou para o livro, mas sobretudo para essa pauta que é tão cara para nós, do Nordeste, e que está ansiando por uma virada de página, para deixar para trás esse preconceito, esse olhar torto que parte do Brasil ainda dirige ao Nordeste e aos nordestinos.

Com informação, podemos enfrentar esse preconceito e entender que já está mais do que na hora de o Brasil se reenquadrar em relação à nossa região e à nossa população. Foi um trabalho de fôlego, porque o tema é complexo. 

Eu queria uma resposta também muito rápida, muito simples, mas entendi que não era tão simples assim, porque várias camadas foram depositadas em cima dessa ideia de Nordeste, em cima dessa ideia do que é ser nordestino. Você precisa de um recorte. A tese exige isso.

Na pesquisa, eu lancei lupas no início da nossa região, focando justamente no momento em que o Brasil passa a conceber um novo espaço dentro do Norte, que seria o Nordeste. Porque, quando a gente imagina o Brasil e a divisão regional que a gente tem hoje, a gente pensa que sempre foi assim. Mas não, isso é uma coisa muito recente. E o Nordeste, enquanto espaço, existe há pouco mais de cem anos. O recorte da tese foi muito em cima desse período. 

Depois, para o livro, quando eu podia passear mais pela história e não ficar preso ao recorte temporal, eu tratei de olhar para trás e pensar o que é que aconteceu aqui, desde o Brasil pós-ocupação até o surgimento da região Nordeste, e o que aconteceu depois, quais foram as camadas também que chegaram depois.

Quando falamos dessa gênese do preconceito contra a população do Nordeste, de fato, os anos 1920 são muito importantes para esse entendimento, porque foi quando o Nordeste surgiu como essa novidade regional e reivindicando espaço e recursos. 

Quer dizer, é uma novidade não só geográfica, mas também política e econômica, com efeitos políticos e econômicos. E há uma reação do Sul e do Sudeste de hoje, diante dessa região que tenta se restabelecer a partir do apoio do governo federal. Não se queria que o Nordeste se estabelecesse, não se queria dividir esses recursos. A partir disso, a gente já tem um ponto de contrariedade.

Depois, tivemos irmãos nordestinos chegando a São Paulo e ao Rio de Janeiro, em busca de oportunidade de trabalho. Eu falo aqui de um contexto de evasão, em razão das desigualdades sociais agravadas pelas secas. Na hora que esses trabalhadores nordestinos chegam ao Sul, existe em curso um projeto de Brasil para branquear a população, para fazer com que esse Brasil seja uma espécie de Europa nos trópicos. 

Como nós éramos considerados mestiços demais, nós também contrariávamos esse projeto. Então, existe uma contrariedade dupla no surgimento da ideia de Nordeste e da ideia de nordestino: contrariando interesses políticos e econômicos e contrariando o projeto de branquitude do Brasil.

É justamente em razão desse movimento que surgem campanhas depreciativas contra a região nordeste, contra a população nordestina, e campanhas muito bem construídas, articuladas com o jornalismo, com força também de vários movimentos artísticos. 

Muito do que a gente ainda percebe hoje, na verdade, são reproduções de frases que foram escritas nesse período. E, portanto, é um preconceito secular, porque é inerente ao próprio nascimento da ideia de Nordeste e de ser nordestino.

Euclides da Cunha, que documentou a Guerra de Canudos, tinha uma frase que dizia que “somos, antes de tudo, um forte”. Quais ideias sobre o Nordeste e os nordestinos essa mensagem carrega?

A passagem de Euclides, a cobertura que ele fez da Guerra de Canudos, que vai virar o livro Os Sertões, é um pouco anterior ao nascimento do Nordeste, mas já é um marco na briga discursiva que havia entre os “brasis”.

Existia uma necessidade de fortalecer e de fazer vingar um Brasil que supostamente dava certo e, para que isso acontecesse, era preciso que houvesse um Brasil que supostamente não dava certo. E, nessa disputa discursiva, Euclides da Cunha vai cumprir o papel de reportar Canudos para o Brasil, para o Estado de São Paulo, o que mais tarde vira o livro Os Sertões

Ao fazer isso, ele cumpre o papel de mostrar como essa porção norte do Brasil era inferior, como essa porção norte do Brasil era atrasada, como éramos arcaicos, rudimentares. Quer dizer, são várias características que vêm em torno dessa apresentação que é feita. 

É bom a gente lembrar que eu falo aqui de um Brasil totalmente desintegrado. Não havia comunicação que integrasse o país. Eu estou falando do final do século 19. Não havia sequer estradas. Então, o que se reportava era dado como verdade absoluta.

E essa frase, que dizia que “o sertanejo é antes de tudo um forte”, talvez seja um dos poucos “assopras” que vêm no livro, que é carregado de “mordes”, dentro daquela linha do “morde e assopra” que a gente conhece. 

Mas, logo após essa frase, por exemplo, que ele diz que o sertanejo é antes de tudo um forte, um Hércules, ele diz que esse sertanejo é de uma raça inferior e nos compara ao que ele chama de “Hércules Quasímodo”. 

Um esforço hercúleo para combater uma ideia de Brasil nova. Essa nossa força também é atrelada à ideia de que queríamos resistir ao moderno, ao progresso, à República, tanto que Canudos foi acusado de ser um movimento monárquico.

Ao nos associar ao Quasímodo, uma referência ao Quasímodo do Notre Dame em Paris, que mais tarde virou Corcunda de Notre Dame pelas mãos da Disney, ele vai dizer que nós somos de molde único e que temos a característica de sermos disformes. Quer dizer, somos acusados de ser uma raça disforme quanto à caracterização física. 

Ele entrou para a Academia Brasileira de Letras com esse livro. Então, não há como dizer que esse caminho não foi seguido por aplausos. Mas muitas notícias, artigos e reportagens que eu trago dos anos 1920 que mostram o Nordeste em seu nascedouro, são, na verdade, reproduções de frases que o Euclides colocou em Os Sertões 20 anos antes.

Você tem uma reprodução dessas frases, o que mostra o peso que elas tiveram e como essas palavras ecoaram por muito tempo. A diferença é que antes era o “sertanejo do Norte” e nos anos 1920 já se trazia a palavra “Nordeste”. 

Esse Norte era o Norte subjetivo de fragilidades dessa construção discursiva, mas ainda era o Norte da borracha, era o Norte do açúcar. O Nordeste, não, ele é o Nordeste das secas e nada mais.

Ao ponto de Gilberto Freyre, em 1937, dizer que quando você falava Nordeste no Brasil, as pessoas entendiam que era “obras contra as secas”. Entendeu a palavra Nordeste como sinônimo de obras contra as secas. 

Então, a gente é muito associado a essa ideia, e não por acaso, porque o nascimento do Nordeste acontece por um movimento de um paraibano que vira presidente da República, que é Epitácio Pessoa. Ele resolve olhar para a sua terra. Tínhamos a república do café com leite, com São Paulo e Minas se alternando na província. 

Aí o “Paraíba” quebrou essa sequência e resolveu olhar para a sua terra. Em um decreto, ele diz: “ó, esse pedaço que eu vou assistir aqui, que sofre as consequências da seca, é o Nordeste”. Pronto, está criado no papel. Daí que vem a reação política e econômica e também uma reação contra os nordestinos. Porque nós, Euclides já dizia, éramos sertanejos de uma raça inferior, porque éramos a consequência de um excesso de miscigenação. Essa narrativa perdurou e perdura até hoje. 

Voltando para os anos 1920, saindo de Euclides, é justamente esse excesso de miscigenação que vai fazer com que a gente não seja bem-vindo nas frentes do Sul para fins laborais. Porque o que se queria, na verdade, era empregar o italiano branco, o espanhol branco, o alemão branco. A ideia era branquear o país e a gente contrariava isso.

Como esses rótulos vão se constituindo e a quem eles estavam servindo naquele período?

Quando há a ideia de se criar uma região que seria assistida especialmente pelo governo federal, acaba criando um movimento de regionalismo. Porque, quando você diz que, a partir daquele minuto, um pedaço do Norte se chama Nordeste, há uma reação externa, mas há também uma reação interna. “Se antes a gente era o Norte e agora a gente é outra coisa, que coisa é essa que agora a gente é?”. Quais são as convergências que nos unem e quais são as divergências que nos fazem parte em relação ao resto do Brasil?

Isso também demandou uma construção das nossas elites intelectuais e políticas. A política para sobreviver. Quer dizer, você passa a vislumbrar ali uma possibilidade de se manter no poder. E isso aconteceu. O discurso da seca e das fragilidades foi conveniente para essa elite, porque entenderam como a possibilidade de se firmar, de buscar recursos para obras do próprio interesse. 

Era uma elite que já estava ameaçadíssima no campo nacional e também no campo local, porque houve um deslocamento de poder, visto, por exemplo, com a cana-de-açúcar saindo de cena e o algodão e a pecuária ganhando espaço. Há um deslocamento interno. Aí, quando você tem a incidência das secas, quem era latifundiário perde sua força política também. De repente, aparece quase uma “boia” de salvação, um discurso de que, “olha, vocês precisam desse apoio governamental”. E, claro, para grande parte da elite política, foi dada uma oportunidade de permanência, de perpetuação, a partir de uma “boia” de salvação.

A elite intelectual também tratou de construir um discurso. No campo simbólico, a gente tem nomes da nossa literatura, nomes das nossas artes visuais, criando essa ideia de Nordeste. O próprio Gilberto Freyre vai fazer um trabalho, que este ano completa 100 anos, que é o livro Do Nordeste, no qual ele reúne intelectuais para tentar criar um contraponto para essa campanha depreciativa que acontecia no Sul, para dizer assim: “olha, o Nordeste é muito mais do que vocês estão dizendo”. 

É interessante, porque é quando ele se afirma Nordeste, coisa que não tinha acontecido antes. Esse livro Do Nordeste é muito interessante e faz 100 anos agora. É uma edição especial do centenário do Jornal Diário de Pernambuco, dando a impressão de que, em 1925, o Nordeste já existia há 100 anos. Só que o Nordeste surge 5 anos antes.

Ou seja, houve um movimento de parte da elite incorporando o discurso de que somos Nordeste. Eu até brinco no livro com isso, usando uma frase que Clarice Lispector usou em A Hora da Estrela: “já que sou, o jeito é ser”. 

Você começa a construir simbolicamente o que é ser Nordeste. O Sul deprecia, parte da nossa elite apoia em alguma medida essa depreciação, porque forma isso num discurso interesseiro, e parte da nossa elite intelectual usa esse artifício para denunciar casos flagrantes de corrupção ou simplesmente para dizer: “não, a gente é muito, a gente tem uma música que é assim, a gente tem uma arte que é desse modo”. 

Você vai, em alguma medida, definindo o que é que você é. É quase como a gente se preparar para se apresentar para uma vaga de trabalho. Houve uma definição de quais eram os nossos símbolos. Isso ficou muito forte. É um regionalismo quase que prêt-à-porter [pronto para ser vestido]. Você tem que parir uma região muito rapidamente e aí você vai incorporando elementos para se criar isso no discurso.

Atravessando o século 20, a gente teve o reforço disso pelas artes. O cinema vai fazer isso lá na frente. A televisão fez isso exaustivamente. O cinema vai dar a terra, partindo do princípio euclidiano, que gosta de dividir as coisas entre a terra e o homem, o que é muito determinista, muito naturalista. O cinema nos deu a paisagem. 

Raro é o filme dos anos 1960 no Brasil que não tenha uma carcaça de boi no chão, um xique-xique, um mandacaru em primeiro plano solitário. É sempre aquele filtro alaranjado, quando as cores apareceram. E a TV vai nos dar o homem, que é o nordestino de folhetim. Essa ideia mentirosa de que a gente fala de um jeito só, age de um jeito só e se acomoda sempre nessa mesma ideia, que é a ideia lá de 1920.

Em 1920, já diziam que a gente era preguiçoso, indolente, vivia prostrado em uma rede, perigoso, além das questões de caracterização física, de sermos disformes. Mas veja, isso tudo para depreciar a mão de obra. “O italiano gosta de trabalhar, o nordestino não”. Por isso que é racismo, o STF [Supremo Tribunal Federal] já entende assim, porque de fato é racismo.

Nessa construção de símbolos, os próprios nordestinos também se confundem muito, no sentido de agarrar certos símbolos. E, quando você vê, até para se defender da acusação com estereótipos, a gente acaba se agarrando a estereótipos para nos defender. Isso acontece muito. “Ah, eu sou resistência mesmo, não mexe comigo que eu sou cangaceiro, eu ando sempre com minha peixeira na mão”. 

Isso é uma construção. A gente não tem essa vocação para violência. Isso é o que diziam da gente. Era disso que nós éramos acusados lá atrás. Então, não adianta a gente querer permanecer com um discurso que só faz reforçar esse lugar menor que a gente ocupa no imaginário nacional.

Os discursos de regionalismo extremo, hoje, a gente vê com frequência, mas sempre existiram. Agora, parece que a internet vai dando vazão a essas possibilidades de fala, sempre falaciosas, porque os argumentos se desfazem. 

Um desses discursos partiu do vereador que tinha um projeto de lei para impedir o nosso ingresso no município e sobre o argumento de que as pessoas em situação de rua haviam crescido em número e eram nordestinos. Mas houve um censo em relação a isso, mostrando que dois terços eram catarinenses, na verdade. 

O preconceito serve para quem não convence, essa é a verdade. Temos, de um lado, o nordestino que é campeão em aprovação em concurso público, é campeão em notas 1000 no Enem, e que trabalha bastante. Eu não falo só do trabalho braçal, eu falo do trabalho intelectual também. 

Temos uma contribuição enorme para a construção nacional, não só do tijolo, mas também do saber nacional. Temos aptidão para provas públicas. Esse é o nordestino que talvez não seja o que a televisão mostra, mas é o que é. 

Por outro lado, há grupos e populações que tentam a todo custo convencer o mundo de que uma suposta ascendência europeia os colocaria em uma posição de privilégio, de superioridade. Quem é o preguiçoso da história? É quem trabalha e quem estuda, porque sabe quais são caminhos para se chegar em algum lugar, ou quem se envolve de um falso argumento de uma suposta superioridade europeia para se manter nos privilégios? 

Parece que fica muito claro a quem serve esse discurso, a quem servia no passado e a quem serve ainda hoje.

A construção da opinião pública é muito decisiva, sobretudo na segunda metade do século 20. Como jornais, novelas etc. se comportam em relação a esses estereótipos?

Se comportam muito mal. Porque, de cara, há sempre o enlatamento, a vontade de enlatar. No jornalismo, até hoje, se você ligar a TV, vai ser mais ou menos assim: em Minas Gerais, o jornalista vai apresentar as complexidades de Minas Gerais; em São Paulo, de São Paulo; no Rio Grande do Sul, do Rio Grande do Sul; e, de repente, ele diz “já no Nordeste”. Nove estados viram uma linha só. 

A gente sempre parece ser uma pauta única. Era a seca, em 1919, mas é como se até hoje nós tivéssemos apenas uma pauta que integrasse esse Nordeste e que fizesse sentido para todos os nove estados.

Estamos falando de um século de diferença, com um outro Nordeste completamente complexo que se apresenta hoje, não apenas aquele que era rural, de cem anos atrás, e que o acesso à água seria 100% responsável pelo restabelecimento da região. 

A gente quer falar ainda de acesso à água, mas existem outras pautas para nós que são importantes: universidades, ciência, tecnologia e inovação, por exemplo. Por que o Brasil está discutindo o futuro e a gente tem que discutir ainda essa mesma pauta e uma só?

E isso parece inocente, mas não é, porque você vai sempre colocando a gente nessa mesma linha. Quer dizer, nós somos um terço do Brasil, em relação à população, nós somos a região com mais estados do Brasil, mas a gente sempre é uma linha só. Isso no campo jornalístico, até hoje.

E, com relação à produção audiovisual, um dos incômodos que me fez escrever o livro Só Sei que Foi Assim é exatamente o de não aceitar essa insistência desse enlatamento. De repente, do sul da Bahia ao oeste do Maranhão há apenas um lote 10 por 30, onde todo mundo se conhece, onde todo mundo fala de um jeito só, onde todo mundo tem o mesmo comportamento. 

É grave ao ponto de alguns personagens serem descritos assim: “é um advogado que passa por essa dificuldade, mas vai em busca da superação e esse personagem é nordestino”. Como se isso bastasse para dizer tudo que aquele personagem pode ser na trama. Ele é quase da cota do nordestino. Isso em uma trama geral.

Quando tentam “nos representar”, entre aspas, partem dessa ideia de que todos nós somos uma coisa só, e chega a ser ofensiva a maneira como é conduzida. Você não vê uma novela, por exemplo, se propondo a representar o Sudeste e misturando o sotaque de Minas, São Paulo e Rio  em um personagem só. Isso seria muito mal digerido. Mas eles acham que para a gente está tudo bem. Por que estaria tudo bem?

Essa questão da produção audiovisual ainda me incomoda muito. E eu vejo que a própria TV Globo tenta ser menos racista. Ela reflete algo que o Brasil está passando, de ser menos racista, menos homofóbico, menos transfóbico. A preta era a empregada doméstica Zilda que servia dona Helena na sala. O personagem gay era sempre aquele cômico, aquela ponta engraçada, quase um bobo da corte da novela. Isso foi sendo mudado, há um novo tempo para esses personagens. Mas para os nordestinos, não.

Estamos presos às mesmas linhas de “vamos fazer uma espécie de black face”, que é você colocar uma sombra, uma coloração alaranjada nas pessoas, como se elas estivessem expostas ao sol, ou então tivessem acabado de descer de um pau de arara. Isso é uma espécie de black face, não deixa de ser, já que você está mudando a cor da pele das pessoas. 

Colocam sempre essa pessoa em uma condição de aridez, de escassez, de ausência, que lhe falta tudo, inclusive a gramática. O nordestino que é campeão em concurso e em aprovação no Enem, de repente, não sabe nem falar direito na televisão. E aí a gente fica preso a essas linhas. 

Quando há uma redenção, se houver uma redenção, quem vai dar essa redenção é o Sul. O discurso da trama é esse: só quem pode salvar é o Sul do Brasil, porque a salvação a gente não consegue encontrar em casa.

É claro que a gente vai precisar de mais profundidade para poder argumentar em alguns momentos, mas eu sinto que, no geral, existe um movimento que é muito geracional. Eu trago no livro o conceito do “complexo de Macabéa” [referência à personagem de A Hora da Estrela], que seria esse lugar de subalternidade onde a gente foi colocado. 

A nossa geração está muito disposta a não ficar nesse lugar. A gente entende o quanto a gente é capaz, a gente buscou os caminhos para isso, no sentido de qualificação, de capacitação, e a gente não quer mais ser inferiorizado por uma ideia, por um discurso, por uma falácia que não corresponde com a nossa realidade.

Esse movimento é coletivo, ele existe no livro e em outras forças também, rodando e acontecendo. É quando é possível a gente, de fato, fazer o enfrentamento do preconceito e vislumbrar um amanhã diferente. É um movimento que está acontecendo, está em curso e ele é coletivo. E que bom que ele é coletivo.

Reclamamos desse olhar torto, mas a gente também precisa buscar as verdadeiras armas que podemos ter, que é a do conhecimento. Nada de peixeira, deixa isso para trás. Vamos trabalhar com o conhecimento mesmo, que é o que sempre nos permitiu chegar em qualquer canto e vai permitir que a gente vire essa página e reenquadre o Brasil, para que ele perceba o Nordeste e o nordestino de uma forma diferente e a gente possa seguir a nossa caminhada com tranquilidade.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

O programa de rádio Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 7h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é semanal e vai ao ar aos sábados a partir das 13h30 no YouTube do Brasil de Fato e TVs retransmissoras.Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Editado por: Luís Indriunas

|

Newsletter