Misturando hip-hop e posicionamento político, o rapper e compositor mineiro FBC tem ganhado cada vez mais espaço na cena nacional. Com mais de dez anos de carreira, o artista já tem seis discos lançados. O último é o Assaltos e Batidas, lançado em junho deste ano, que está rodando todo o Brasil.
Ao Conversa Bem Viver, FBC destaca o momento de ascensão vivido pelo rap de Minas Gerais, mas é também enfático ao afirmar que o que sustenta o movimento segue sendo a atuação na base, as periferias.
“O que move o cotidiano da cena de Belo Horizonte e região metropolitana, ainda é o Duelo de MCs. Desde a época em que eu comecei junto com o Duelo de MCs em 2007, até hoje, esses lugares são onde quem está começando tem oportunidade de mostrar seu som, tem oportunidade de fazer conexão”, explica.
Muito conhecido por seus posicionamentos políticos, FBC também discute sobre a importância da politização da sociedade e do envolvimento da cena do hip-hop com os acontecimentos do país.
“Eu acredito que os MCs vão a cada dia acordar mais para o que está acontecendo no Brasil. E, para isso acontecer de forma mais acelerada, a gente precisa do Oruam, a gente precisa do Matuê, precisa do Felipe Neto, precisa de todo mundo. Eu acredito que todas essas pessoas, esses MCs, homens e mulheres, entendem o que representa a cultura hip-hop. O posicionamento político é uma marca que me torna uma referência no cenário nacional”, reflete.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – Como está a circulação de seu último álbum, Assaltos e Batidas, ao redor do Brasil?
FBC – Eu lancei o disco no dia 6 de junho, que é também o dia em que eu nasci. Lancei no meu aniversário. Foi aí uma rodada de muitos presentes, ao saber que entrou para algumas playlists. Ficou em quarto lugar nos melhores do primeiro semestre da Billboard. Está no Spotify, está no YouTube.
Assaltos e Batidas foi produzido por Coyote Beatz e Pepito, no estúdio Xeque Mate. Foram quase dois anos de produção até lançar o álbum. Fiz um show e gravei no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Em novembro, eu lanço na íntegra no Spotify e o ao vivo gravado no YouTube. O Circo Voador estava lotado.
Historicamente, as artes do Rio de Janeiro e São Paulo ganham mais projeção nacional, mas Minas Gerais está ganhando cada vez mais espaço. Como você vê a ascensão do rap mineiro?
São movimentos que acontecem dentro da cidade de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais. Acredito que o carro-chefe do hip-hop de Minas ainda são os duelos de MCs que se espalham pela capital e região metropolitana. Em outras regiões do estado também.
Temos um estado muito emblemático na cena nacional do Duelo de MCs, da rima improvisada. A gente tem nomes como Clara Lima, como Oreia. Temos nomes muito gigantes dentro da música brasileira, igual ao Djonga e ao Sidoka. Tem eu também, que faço rap.
Mas eu acredito que o que move o cotidiano da cena de Belo Horizonte e região metropolitana, ainda é o Duelo de MCs. Desde a época em que eu comecei junto com o Duelo de MCs em 2007, até hoje, esses lugares são onde quem está começando tem oportunidade de mostrar seu som, tem oportunidade de fazer conexão.
Acredito que ainda há um caminho a trilhar na questão de profissionalização, de ter mais estúdios, de ter mais lugares onde possa se encontrar para produzir mais música, produzir mais cena. Fortalecer a atual e tentar criar novas cenas. Eu, dentro do estúdio Xeque Mate, tento fazer isso.
Trago várias pessoas junto comigo para dentro do estúdio e, só este ano, já produzi o trabalho de três pessoas. Produzi o trabalho da Mac Julia, da Luar, da Mabila, de São Paulo. Essas pessoas vão chegando por meio desses lugares, como a Quadrilha e a Xeque Mate. Outros estúdios estão chegando também e fazem com que o futuro dessa cena seja muito promissora.
Qual é a importância desse movimento de fortalecer novos nomes na cena?
Eu acredito que o meu legado, enquanto ser humano e artista, pessoa que pensa na arte como uma forma de mudar o ponto de vista das pessoas sobre o seu território, sobre as coisas que elas percebem do mundo, são as pessoas. São as pessoas que eu vou deixar, as pessoas que vão dar continuidade à ideia. E o mundo pode ser mudado.
Qual é a importância de o hip-hop dialogar com o cenário político e os acontecimentos do Brasil?
Eu acredito que são poucos os que estão atentos, são poucos os que sabem o que está acontecendo no Brasil hoje, em relação à conjuntura política e social. Acredito que só as pessoas que estão mais à esquerda, que estão mais na vigência da nossa luta, das nossas pautas e na luta pelos nossos direitos, pelos poucos direitos que o trabalhador ainda tem. São poucos.
]A minha geração foi para a escola e estudou filosofia, estudou ciências sociais, estudou matérias que eu acredito que eles tiraram da escola para acabar com o pensamento crítico do favelado, com o pensamento crítico da pessoa que mora na periferia.
E parece que as gerações que vieram se despolitizaram. Eu não sei onde começou, se foi na escola, se foi dentro de casa, se foi na internet. Mas a ideia de que o rap é “a-político”, de que o rap luta contra o sistema e não está do lado de A, nem do lado de B, é uma loucura.
A gente sabe quem está contra o povo e entende muito bem aqueles que lutam pelo povo. Isso vem se esvaindo da coisa do rap, da narrativa do rap, da construção que cada MC faz na sua carreira, nos seus trabalhos. E isso vai diminuindo. O nosso que curte certo tipo de música é menos representado nos lugares de debate. E isso é muito prejudicial para nós, enquanto pessoas, sociedade e pessoas que fazem cultura.
Qual caminho precisamos construir para provocar essa maior politização da sociedade?
Eu acredito que os MCs vão a cada dia acordar mais para o que está acontecendo no Brasil. E, para isso acontecer de forma mais acelerada, a gente precisa do Oruam, a gente precisa do Matuê, precisa do Felipe Neto, precisa de todo mundo. Eu acredito que todas essas pessoas, esses MCs, homens e mulheres, entendem o que representa a cultura hip-hop.
Isso se expressa cada vez mais nas comunidades, por meio, por exemplo, do Dia das Crianças, dos movimentos sociais, do dia de lazer etc. Isso é realmente voltar para a base e trocar a ideia com as crianças. É mostrar para as crianças qual é o caminho que o rap se propôs a construir desde sempre. Isso é lutar pelos direitos dos trabalhadores, pelo acesso da favela à tecnologia, acesso da favela à cidadania, à moradia.
Acredito que a gente pode estar vivendo entre fases. Mas eu vejo muita gente boa chegando com capacidade de mudar esse cenário dentro do movimento hip-hop, porque a gente fala enquanto MCs, mas se a gente for ver na base, os B-boys, as B-girls, os DJs, os grandes grafiteiros ainda fazem um trabalho muito impressionante.
Fico sempre emocionado quando vejo grafiteiros igual ao Eli, igual ao De Cat, igual ao Marcelinho, que ocupam a cidade com hip-hop trazendo cor, trazendo cultura para quem olha a cidade e pensa a cidade de outra forma.
A Lei Anti-Oruam nasceu em São Paulo, mas já se replicou em outros municípios. Qual é a sua avaliação sobre essa medida?
Essa lei é do agronegócio. O agronegócio mantém a música sertaneja da forma que está e o funk é um fenômeno mundial que vai realmente a cada dia crescer mais. A cada dia você vai ver mais MCs de funk atuando nos primeiros lugares dos charts, seja top 10, top 20, top 50.
Essa é a reação covarde do agronegócio, com certeza. O que eles querem cercear? O que eles querem acabar? Acabar com a mobilização do pobre, do favelado e acabar com o dinheiro, com a forma que o favelado tem de se organizar e se mobilizar politicamente.
Porque o Oruam é um. O que o Oruam faz é uma luta política sobre onde ele veio, sobre a história que ele tem, o que ele construiu até hoje. É isso que eles querem atacar. É atacar mais que a moral. Porque prender, deixar preso, ataca mais que a moral. Eles também querem atacar economicamente. E atacando ele, eles matacam a todos, já que a lei corta incentivo e investimento, como se acessar esses incentivos e investimentos fosse fácil.
O que eles querem é atacar mais que a moral e economicamente, é impedir que essas pessoas se mobilizem. Mas a cada dia isso vai crescer mais, o funk vai atuar com mais força dentro dos charts e isso para mim é só uma reação covarde do agronegócio que mantém a música sertaneja do jeito que é.
Você sempre se manifestou muito politicamente. Isso já impactou seu trabalho de alguma forma?
Há muito tempo. Hoje, as pessoas que contratam já contratam sabendo. E quando aconteceram casos assim, de romper contrato, foi bem lá no começo, em 2013, 2014. Isso aconteceu muito. Hoje, graças a Deus, eu construí meu público e tenho público em todo o Brasil. Faço os meus shows. Sou contratado para diversos festivais no Brasil e tenho a minha agência.
Eu acredito que o que aconteceu no mundo, essa pulverização, existem bolhas e bolhas e bolhas, nichos e nichos e nichos. Acredito que eu construí o meu lugar, construí o meu público. E hoje eu vejo um movimento que as pessoas buscam o meu show para se manifestarem dessa forma.
As pessoas querem ouvir, gritar junto, gritar Palestina livre, gritar Bolsonaro na cadeia, cantar uma música que diz que sim é sim, não é não, entre diversos temas e críticas sociais que eu abordo nas minhas músicas.
Então, eu acredito que esse posicionamento hoje é uma marca positiva e uma marca que me torna uma referência no cenário nacional.
Conversa Bem Viver

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