Conversa Bem Viver

Temos que falar sobre ditadura, porque tem gente que acredita que não aconteceu, diz Thomas Aquino de ‘O Agente Secreto’

Para ator, a forma como o filme retrata o autoritarismo ajuda a explicar seu sucesso

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O Agente Secreto
Thomas Aquino conta como foi trabalhar com Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho | Crédito: Reprodução/O Agente Secreto

Nas salas de cinema de todo o país, O Agente Secreto estreou na dianteira da liderança das bilheterias no dia 6 de novembro. Já premiado em Cannes, o filme de Kleber Mendonça Filho, agora em terras brasileiras, já reúne centenas de críticas positivas e é o escolhido para representar o país no Oscar de 2026. 

Um dos atores que compõem o elenco da produção, que retrata aspectos do período da ditadura militar no Brasil, é Thomas Aquino, que também interpretou ‘Pacote’ em Bacurau, Josué em Guerreiros do Sol e Mário Sérgio em Vale Tudo.

Para ele, a forma como o filme retrata o autoritarismo presente durante o regime ajuda a explicar o sucesso da obra nos cinemas. 

“Temos que falar sobre esse assunto, porque tem gente que acredita que não aconteceu. Não querem entrar nos livros de história, não querem fazer pesquisas aprofundadas, e continuam com suas idiossincrasias, pensamentos rasos e obtusos. Não querem enxergar a realidade sobre o que a gente viveu. Isso para mim é muito triste, porque dificulta o nosso progresso social. O filme mostra como cabeças pensantes são perseguidas”, avalia Aquino.

Ele também comenta sobre como é atuar em uma produção de Kleber Mendonça Filho, contracenar com Wagner Moura e vivenciar um enredo que coloca Recife, sua cidade natal, como uma das protagonistas da história. 

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato – Como foram os primeiros dias de circulação do filme no cinema?

Thomas Aquino – Eu estou feliz demais, porque é mais um filme em que eu faço parte. Um filme muito bacana, que já ganhou prêmio em Cannes, correu o mundo e está correndo agora o Brasil, está também fazendo a campanha para o Oscar nos Estados Unidos. Também é muito bom ver Wagner Moura ganhando prêmios de melhor ator nesses festivais em que o filme está passando. 

Estamos no número um em bilheteria de filme nacional. É maravilhoso ver que as pessoas estão indo curtir o filme, estão indo ver o filme, criando suas próprias opiniões, seus pensamentos. Isso é democrático. Há pessoas que gostam e pessoas que não gostam, mas isso é o que é interessante na nossa arte, porque faz a gente debater e discutir. Eu ainda não fui assistir de novo ao cinema, mas eu vou, porque eu quero ir ver lá. Quero ver também a reação das pessoas ao meu redor. Vou camuflado, mas quero ir ver na sala de cinema. 

Estou no Rio de Janeiro atualmente, fazendo um trabalho para a Globo. Eu vou com certeza ao cinema e estou muito feliz com a realidade de ver o quanto esse filme está alcançando as pessoas. Muita gente está vindo mandar mensagem para mim no Instagram, além de pessoas e amigos pessoais, que me mandam mensagem no celular. 

O meu irmão assistiu ao filme no Canadá e veio falar comigo. Isso está bacana. Eu estou vendo essa movimentação e é realmente uma realização. A gente já tinha a expectativa. Quando eu fiz o filme já tinha essa expectativa de ser um grande filme, por ser mais um filme de Kleber. Mas ver o processo realizado comprova que é realmente um grande filme, um filme muito bacana, fala sobre a nossa história brasileira, sobre a história que a gente viveu de 64 a 85. E mostra um lado psicológico dessa ditadura. Isso é muito bacana.

Por que o filme está ganhando tanto destaque? Tem a ver com o fato de retratar de uma outra forma o autoritarismo?

É bom ver como a história é interessante de abordar, estudar e se certificar. Cabeças pensantes são perseguidas. Muitas vezes, os empresários não querem investir em cima de um produto em que um professor sabe mais do que ele, onde ele quer mostrar uma certa autoridade. 

A questão do autoritarismo e o quanto essas pessoas foram perseguidas, pessoas que têm um cunho filosófico, social, interessante, inteligente, é muito vista. Essas pessoas são consideradas perigosas para a sociedade, porque batem de frente contra um sistema. É um filme muito inteligente nesse sentido.

Quando falamos do agente secreto, surgem várias referências em relação ao nome e ao tema. Quem é esse agente secreto? Eu estava até debatendo isso com uma amiga. Quando a gente fala em agente secreto, estamos falando de um policial, de um agente que vai em busca de um caminho, mas será que é isso mesmo nesse filme? Será que o agente secreto é esse próprio professor que se infiltra e faz uma alusão inversa a um agente secreto? 

Porque ele está escondido, usa um nome falso, um pseudônimo. Então, é um filme muito interessante e eu fico impressionado como ele tem essa inteligência de mostrar uma coisa violenta de uma forma que eu fico pensando: quantas pessoas não sofreram várias coisas durante a ditadura e de várias formas? Tanto o físico como o psicológico.

E quantas histórias de sumiço, de pessoas que foram embora, de pessoas que saíram correndo, de pessoas que mudaram o nome, não existiram nessa história? O Ainda Estou Aqui mostra um lado, assim como O Agente Secreto mostra um outro lado, apesar de falar das mesmas temáticas, mas são lados diferentes da mesma história. Isso é muito interessante.

Quantos filmes não dariam sobre essa temática? Temos que falar sobre esse assunto, porque tem gente que acredita que não aconteceu. Não querem entrar nos livros de história, não querem fazer pesquisas aprofundadas, e continuam com suas idiossincrasias, pensamentos rasos e obtusos. Não querem enxergar a realidade sobre o que a gente viveu. Isso para mim é muito triste, porque dificulta o nosso progresso social.

Uma das características de Kleber Mendonça Filho é trazer a cidade como protagonista, o que também acontece com o Recife em O Agente Secreto. Como é atuar em um roteiro que tem esse elemento na sua composição?

Kleber é um cara recifense que levanta a bandeira da história e dos monumentos históricos de Recife, da valorização da cidade e da cultura da cidade. Um outro filme dele, O Som Ao Redor, se passa em Setúbal, e fala um pouco da história de Recife e se identifica com a história, com o bairro, com a cultura dali. 

Então, quando ele bota o cinema São Luís como personagem principal, é porque a gente tem que restaurar esses cinemas. O filme é tão inteligente que ele tem umas pitadas interessantes. Sem poder dar muito spoiler, ele fala sobre as transformações desses lugares. Um lugar que antigamente era cultural vira uma questão empresarial, vira uma questão de um dinheiro empresarial privativo. 

É muito bonito como Kleber trata essas questões político-sociais nos filmes dele. E eu me sinto muito feliz de estar nesse filme. Realmente, veio em um momento em que eu estava fazendo um outro trabalho, o DNA do Crime 2, que é um projeto para a Netflix.

Quando recebi a ligação de Kleber e de Emilie que falaram que queriam que eu estivesse no filme, que tinham pensado um personagem para mim, eu estava desesperado, porque eu estava fazendo o DNA do Crime, que também é um mega trabalho, mas eu queria fazer mais um trabalho com o Kleber. 

Eu não sabia como fazer e teve um momento que eu disse: “não vai dar, Kleber”. E ele falou: “Tudo bem, está tudo certo”. E eu comecei a conversar com a produção, e a produção do DNA do Crime foi fantástica, conseguiram mexer umas coisas no calendário e deu certo para eu ter duas diárias para poder fazer essa participação no filme. Foi quando eu liguei para a Emilie e falei: “Emilie, vai dar certo e estou muito empolgado. Ainda dá tempo?”. Ela falou: “Nossa, dá super”. 

Enfim, eu fiz parte desse projeto. Foi muito corrido, peguei um voo, cheguei lá, li o roteiro rapidamente também, em uma passagem, um roteiro que é muito interessante de ler, que foi gostoso. E eu estive no filme. Quanto mais filmes eu puder fazer com o Kleber, eu vou amar. Eu acho que ele é um cara muito inteligente, muito massa, e um bom amigo. É um cara que gosta de conversar, gosta de trocar uma ideia, gosta de saber mais sobre você e gosta de inserir você em certos contextos interessantes, que ele pensa que pode fazer sentido na dramaturgia dele. 

Então, eu me sinto muito feliz de estar nesse meio, tanto no Bacurau como no O Agente Secreto, que são dois grandes filmes que foram premiados em Cannes e eu espero que O Agente Secreto agora seja premiadíssimo no Oscar. Vamos fazer essa corrida.

Como é contracenar com Wagner Moura?

Eu tive uma primeira experiência lá atrás, em 2011. Eu estava ainda no início de uma carreira de audiovisual, porque eu tinha feito, em 2010, uma figuração em Febre do Rato, o filme de Cláudio Assis. E, em 2011, eu fui chamado para fazer uma participação em Tatuagem

Em 2012, avancei para os testes para fazer Praia do Futuro e foi meu primeiro contato com o Wagner. Eu não era um ator preparado e ainda teria que me dedicar mais. Não soube aproveitar ao máximo o que eu gostaria de poder aproveitar naquele filme. Mas eu fiz o que eu poderia naquela época. E Wagner é sempre muito simpático. Eu até perguntava para ele “Wagner, o que o cara precisa fazer para ser um bom ator?”. E ele falou: “é a prática. A prática é o que leva à perfeição. A gente tem que ir praticando, pegando os projetos, fazendo os projetos e lendo os projetos, se inteirando nos projetos e ir praticando”. 

E naquela época eu falei: “Poxa, para ele é fácil falar isso, porque ele está sempre com projetos”. E eu estava tentando cavar. Mas não é que é fácil, é porque ele conquistou esse lugar e, quando eu conquistei esse lugar, fez sentido para mim, porque hoje eu entendo realmente que a prática leva à perfeição. 

Cada trabalho, cada projeto, é um momento em que a gente elucubra diferente o personagem. Assim, a gente tem mais tempo de experiência, vai ganhando mais experiência e maturidade. No O Agente Secreto, foi muito bacana, eu já não estava tão nervoso e ansioso, como antigamente. Ele continua sendo um cara super generoso em cena. A gente teve uma troca muito boa, e, além dele, tinha ao meu lado Maria Fernanda Cândido. 

Foi um momento muito bonito para mim em vida, participar desse filme, contracenando com Wagner, que é um cara que tem uma presença muito forte e, tão grande quanto ele, está a Maria Fernanda Cândido, que também tem outra presença. Eu pude realmente olhar para eles em cena e aprender com eles. 

Teve um momento, quando a câmera estava ou nela ou nele, e eu ficava meio que de espectador e, de repente: “Eita, eu estou atuando também, calma”. Aí eu voltava. Mas claro que eu não deixava transparecer. Era até interessante, eu jogava isso para dentro do personagem. 

Wagner teve uma preparação muito forte com Leonardo Laca. Eu acho que ele engaja mais no sotaque nordestino pernambucano, perto do fim do filme. Durante o contexto da história, eu acho que fica clara a não preocupação de ele ser 100% pernambucano, 100% recifense. Mas, no final, dá para ver a diferença e o quanto ele pesquisou, o quanto ele teve essa preparação. 

Qual é a importância do realismo mágico presente nos filmes do Kleber?

São os nossos medos. Acho que Kleber também trabalha sobre explorar esses medos de questões folclóricas que foram criadas quando criança e como inserir isso em um contexto político e social. Isso é muito mágico e muito inteligente. Existe um lugar chamado Parque 13 de Maio em Recife, onde, até a época que se passa o filme, muitas coisas eram feitas ali e proibidas, coisas sexuais, coisas de drogas. Era um ponto ali muito perigoso também. 

E a alusão que Kleber usa da perna cabeluda nesse contexto do filme, em referência à perseguição a esses refugiados e a esse pesadelo que Marcelo tem, é fantástico. São os medos de infância que são colocados dentro de um contexto adulto e de real perigo. Será que a perna cabeluda não está realmente atrás dele? São várias alusões interessantes. E cada um vai ter também a sua experiência de pensamento sobre o que realmente são essas cenas e o que é aquela cena. Mas me pegou de uma forma muito interessante nesse sentido, pensando em histórias que a gente escuta quando criança, uma coisa muito regional da perna cabeluda.

Quais são os próximos passos de Thomas Aquino? 

Eu estou gravando uma novela para a Rede Globo. Vou estar na próxima novela das 19h, que se chama Coração Acelerado. Também vou lançar, no ano que vem, o Man on Fire, que é uma série que eu fiz para a Netflix dos Estados Unidos, que foi gravada no México e vai ter a sua estreia em 2026, acredito que no primeiro semestre. É o primeiro trabalho internacional que eu faço e eu espero que as portas se abram cada vez mais.

Conversa Bem Viver

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Editado por: Luís Indriunas

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