Conversa Bem Viver

Delegados da COP não entenderam o que é a ‘A Queda do Céu’, afirmam diretores do documentário sobre Davi Kopenawa

Inspirado em Davi Kopenawa, filme teve pré-lançamento durante a COP30 e chega aos cinemas nesta quinta-feira (20)

Diretores, Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha, e Gabriela Carneiro da Cunha, explicam que a produção é um alerta para a necessidade de cuidado com o planeta Terra
Diretores, Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha, e Gabriela Carneiro da Cunha, explicam que a produção é um alerta para a necessidade de cuidado com o planeta Terra

Estreia nesta quinta-feira (20) nas salas de cinema de todo o país, Dia da Consciência Negra, o documentário A Queda do Céu, que acompanha a trajetória de Davi Kopenawa e dos povos Yanomami. O filme teve o seu pré-lançamento em Belém (PA), enquanto acontece a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em sessão aberta, com a presença de Kopenawa.  

Os diretores da produção, Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha, e Gabriela Carneiro da Cunha, explicam que a produção é um alerta para a necessidade de cuidado com o planeta Terra e com os povos e territórios ancestrais. 

“Seria maravilhoso se, nessa pré-estreia, as delegações e chefes de Estados estivessem também presentes. Isso aconteceria se eles estivessem de fato interessados em estar junto com os povos, em fazer uma COP aberta aos povos. A lógica tem que mudar. Os povos indígenas, os povos Yanomami, os povos Munduruku, são não só os mais afetados, mas também são aqueles que têm as propostas de uma mudança da lógica. Por isso, é tão importante que eles sejam ouvidos”, afirma Cunha, ao Conversa Bem Viver.

“O filme fala da cosmologia Yanomami, da luta Yanomami, mas fala também da relação dos Yanomami com a gente, com nós, não indígenas, nós, brancos. Eu diria que o grande assunto de A Queda do Céu, do nosso filme, é a relação de mundos. E, da relação de mundos, fala de nós, brancos que somos, aqueles que vêm causando essa destruição, há décadas, há séculos, nesse mundo. A Queda do Céu é um filme sobre os Yanomami e sobre um filme sobre nós”, explica Rocha.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: O filme já foi exibido na COP30. Os chefes de Estados assistiram ao filme em Belém?

Gabriela Carneiro da Cunha: Bom, acredito que não, para ser bem direta, o que é triste, mas um dos desejos desse filme sempre foi trazer a cosmovisão Yanomami e a crítica xamânica do Davi, que é acompanhada dos espíritos Xapiri e da própria floresta e do seu povo. É uma crítica sempre povoada, como uma crítica geopolítica. Uma crítica geopolítica ao sistema que a gente vive. 

Esse sempre foi o desejo do filme. A pré-estreia que aconteceu em Belém teve as presenças do Eryk Rocha, Davi Kopenawa, Ruana Yanomami e da população de Belém, porque foi uma pré-estreia aberta ao público. Seria maravilhoso se, nessa pré-estreia, as delegações e chefes de Estados estivessem também presentes. Isso aconteceria se eles estivessem de fato interessados em estar junto com os povos, em fazer uma COP aberta aos povos. 

Eles poderiam ver o filme, tudo o que está ali no filme, e também ouvir o Davi, estar dentro desse debate com o Davi presencialmente, trazer o Davi para as mesas de negociação. Eu acho que isso é a demanda dos povos indígenas que estão agora em Belém. A gente viu recentemente a Alessandra Korap, grande liderança do povo Munduruku, impedindo as pessoas de entrarem na Zona Azul com uma demanda muito legítima que é: nós, povos indígenas, temos que estar presentes nas mesas de negociação e sermos ouvidos. 

Esta COP não está acontecendo em outro lugar, não está acontecendo na Europa, ela está acontecendo na Amazônia, ela está acontecendo em Belém. Então, essa é a grande oportunidade. Mas eu acho também que esse modo da COP de acontecer não é diferente do que acontece sempre em relação aos governos, aos ditos donos do poder. Os povos estão sempre em luta. 

Na COP, na marcha da Cúpula dos Povos, na apresentação do filme, em tantas outras marchas que estão acontecendo, em tantos outros encontros que estão acontecendo em Belém, é onde realmente as transformações estão acontecendo, as propostas estão acontecendo. De certo modo, a COP obedece a um modus operandi do próprio sistema capitalista, do próprio sistema colonial. E acho que fazer essa COP aqui colocou esse modus operandi em xeque. Não sei se eles estavam contando com isso quando trouxeram a COP para cá, mas eu acho que isso está sendo a grande revelação, o grande enfrentamento dessa COP. 

Eryk Rocha: Eu estava lá na primeira pré-estreia do filme, em Belém do Pará, nesse contexto de COP. Foi uma sessão muito emocionante, muito marcante, porque foi uma sessão aberta para a população local. O lançamento foi no Observatório do Clima, que tem capacidade para 200 pessoas. O espaço lotou e mais 200 pessoas ficaram de fora, não conseguiram entrar, porque era por ordem de chegada. 

Foi uma exibição aberta para o público, democrática, diferente do que acontece na COP oficial, onde as decisões são tomadas entre quatro paredes pelos donos do poder, o mercado e as grandes corporações. 

Aqui, o cinema estava acontecendo na praça pública e foi muito emocionante. Depois, teve o debate com Davi Kopenawa. Estavam sentadas ali muitos Yanomami, habitantes da cidade, estudantes, movimentos sociais, pessoas das mais diversas. Pessoas comuns estavam assistindo aquele filme, debatendo.

Foi uma coisa de muita energia. Quem viu o filme sabe. O filme fala da cosmologia Yanomami, fala da luta Yanomami, mas fala também da relação dos Yanomami com a gente, com nós, não indígenas, nós, brancos. Eu diria que o grande assunto de A Queda do Céu, do nosso filme, é a relação de mundos. E, da relação de mundos, fala de nós, brancos que somos, aqueles que vêm causando essa destruição., há décadas, há séculos, nesse mundo. 

A Queda do Céu é um filme sobre os Yanomami e sobre um filme sobre nós, e sobre nosso espelho fraturado de uma sociedade fraturada, de um modelo predatório que está colapsando o mundo, e está se autodestruindo. 

Somos uma sociedade em decomposição. E eu acho que o que mais incomoda e mais fere quem vai assistir o filme é que não é um relato de 2000 a 2020. A gente está falando de décadas de destruição que vêm acontecendo.

O que significa A Queda do Céu? Dá para dizer que uma tradução seria essa “COP desastrosa”, quando os acordos não vão para frente?

Gabriela Carneiro da Cunha: O Bruce Albert tem uma definição que gosto muito. Ele fala que a queda do céu não é simplesmente uma geografia exótica, mas é um diagnóstico e um alerta sobre um sistema de predação da terra e dos corpos que está chegando ao fim, que precisa chegar ao fim. 

Eu gosto muito dessa definição, porque acho que é exatamente isso, uma crítica a um sistema geopolítico, a um sistema econômico, a um sistema político, a um sistema conceitual que coloca um certo grupo de humanos no topo de uma hierarquia entre os seres vivos. Há um certo tipo de humano, com o seu modelo econômico, que entende que todo o resto dos entes e seres que coabitam com a gente nesse planeta estão a serviço dele. É um sistema de predação. 

Acho que A Queda do Céu é isso: na insistência desse sistema, o céu está sendo ferido de modo a cair sobre a cabeça de todos nós, não só dos Yanomami, mas de todos. Isso pode ser explicado de vários modos. O próprio Antônio Nobre, um grande cientista brasileiro, está lá na COP e teve uma grande conversa com Davi Kopenawa. Ele explica a queda do céu como o desmatamento desenfreado da Amazônia, que vai causar um colapso no sistema das chuvas, impedindo a formação de nuvens e a formação de chuvas. E isso vai fazer com que não tenha mais água potável, com que tenha um colapso na produção de alimentação. 

Então, cada um vai buscando dentro do seu terreno o que é A Queda do Céu. Mas acho que é esse colapso, um colapso do sistema Terra. A Terra, como Davi e os Yanomami defendem, é um ser vivo. É um sistema delicado e ancestral que precisa estar funcionando. E o nosso sistema econômico está colapsando diversos modos desse sistema funcionar.

A gente viu, ao longo desses dias, o nosso presidente Lula falando sobre A Queda do Céu, citando Davi, trazendo a imagem da queda do céu como uma síntese do propósito da COP. Ou seja, o propósito da COP é que todos nós comecemos junto com Davi, cada um no seu terreno, cada um com seu ofício, cada um com a sua vida, a fazer algum movimento para segurar o céu. 

Mas, junto com essas declarações que o presidente tem dado, ele também está assinando decretos, privatizando o Rio Tapajós, autorizando a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Então, são contradições que não são mais aceitáveis nesse momento. Não é possível falar da queda do céu, trazer o Davi Kopenawa e assinar um decreto de privatização do Rio Tapajós ou de autorização da exploração de petróleo na Foz do Amazonas. São essas as escolhas que estão diariamente fazendo com que o céu caia.

É a lógica que tem que mudar. E, nesse sentido, os povos indígenas, os povos Yanomami, os povos Munduruku, são não só os mais afetados, mas também são aqueles que têm as propostas de uma mudança da lógica. Então, por isso, é tão importante que eles sejam ouvidos, não só na COP, mas depois da COP também, porque senão a gente vai deixar essa grande oportunidade passar. E aí, de fato, não vai ter como segurar o céu sobre a cabeça de todos nós.

Podemos pensar em uma continuidade do filme?

Eryk Rocha: A gente realizou um outro filme que, na verdade, é um telefilme, um filme que tem uma proposta mais didática, mais informativa, que seria um contraplano de A Queda do Céu. É um filme que já está sendo exibido no Canal Curta, atualmente, e que conta a autobiografia do Davi. É um filme que a gente fez muito inspirado pelo nosso filho, para pessoas que não leram o livro. É uma primeira introdução ao mundo Yanomami e à história do Davi Kopenawa. É bem interessante, porque traz essa camada mais histórica da história do Brasil, da construção das estradas, da estrada Perimetral Norte. 

Dá esse contexto também histórico do que que foi a ditadura militar, o que representou isso para os povos indígenas, o genocídio do povo Yanomami, etc. Traz um pouco esse percurso do Davi até chegar hoje. Além disso, a gente produziu três filmes, três curtas, de realizadores Yanomami, Rosany Yanomami, com a Aida, com a Rosiane, com o Edmar, filmes que foram feitos durante a filmagem de A Queda do Céu.

Estamos agora em pré-produção do primeiro longa-metragem do Morzaniel Iramari, que é um grande cineasta Yanomami, realizador de um desses curtas que eu mencionei. O filme está em preparação para ser filmado no ano que vem. 

O nosso encontro com os Yanomami, mais especificamente com a comunidade de A’torique, com Davi, está deflagrando todos esses esses filmes, como testemunhos. São testemunhos do nosso tempo, são documentos da história do que a gente está vivendo agora. 

Eu acho que o projeto de A Queda do Céu não é só o longa-metragem, mas abarca todos esses braços que eu mencionei e o fortalecimento de um polo cinematográfico Yanomami. Estamos em diálogo constante com eles, a Hutukara, Associação Yanomami, é co-produtora de todos esses projetos, inclusive de A Queda do Céu

É sobretudo criar esse espaço de troca de um cinema indígena Yanomami com a nossa arte de uma forma muito horizontal e colaborativa.

Conversa Bem Viver

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Editado por: Maria Teresa Cruz

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