Conversa Bem Viver

Kleber Mendonça: No Recife, existe um lado muito transgressor, muito de esquerda

Diretor comenta sucesso de bilheteria do filme, indicação ao Oscar e relação de suas obras com Recife

Kleber Mendonça Filho também comenta sobre traços comuns entre O Agente Secreto e suas outras produções, como Retratos Fantasmas e Bacurau.
Kleber Mendonça Filho também comenta sobre traços comuns entre O Agente Secreto e suas outras produções, como Retratos Fantasmas e Bacurau. | Crédito: Victor Jucá/Divulgação

Com poucos dias de estreia nos cinemas brasileiros, O Agente Secreto já foi assistido por mais de meio milhão de pessoas em todo o país. O filme de Kleber Mendonça Filho, selecionado para disputar uma vaga no Oscar 2026 e premiado em Cannes e em outros festivais internacionais, está em cartaz em mais de 700 salas e batendo sucessivos recordes de bilheteria.  

Para o diretor da produção, o motivo das amplas reações positivas do público e da crítica é o fato de ser “um filme brasileiro que fala sobre a história do Brasil e sobre brasileiros”. O longa, protagonizado pelo ator Wagner Moura, se passa em 1977, e acompanha a história de um professor chamado Marcelo que se muda para Recife, capital de Pernambuco, em meio ao período da ditadura militar. 

“O filme, com toda clareza, não é sobre a ditadura, mas aquele momento histórico faz parte. Quando eu comecei a escrever o personagem interpretado por Wagner, veio muito naturalmente que Marcelo não seria um guerrilheiro, não seria alguém especificamente envolvido com uma luta, exceto pelo fato de ser um brasileiro justo que tem uma visão aberta e livre da vida em sociedade”, explica Mendonça Filho, ao Conversa Bem Viver

Ele também comenta sobre traços comuns entre O Agente Secreto e suas outras produções, como Retratos Fantasmas e Bacurau.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato – Como estão os primeiros dias após a estreia nacional de O Agente Secreto?

Kleber Mendonça Filho – Eu tinha voltado de uma viagem de 38 dias por vários países, principalmente nos Estados Unidos, em Nova York e Los Angeles. Passei dois dias em casa e começamos uma série de viagens pelo Brasil para o lançamento do filme: São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre e Salvador. Foi super intenso, com muitas entrevistas, sessões especiais e pré-estreia, até que o filme estreou na quinta-feira, 6 de novembro. 

O filme tem ido muito bem e está ocupando o primeiro lugar da bilheteria no Brasil. É um filme que está em um pouco mais de 700 cinemas do Brasil inteiro, de Norte a Sul. É o maior lançamento da Vitrine Filmes, com que a gente tem trabalhado desde Crítico, que foi meu primeiro longa-metragem, um documentário. 

Fizemos juntos com a Vitrine Som ao Redor, Aquarius, Bacurau, Retratos Fantasmas e, agora, O Agente Secreto. Eu estou muito feliz com o lançamento. Acho que, quando você exibe um filme como esse fora do Brasil, há reações positivas. O filme tem sido muito bem recebido, mas sempre acontece com todos os filmes quando chegam ao Brasil: o Brasil é o país do filme, é falado em português, foi filmado no Recife, filmado também um pouco em Brasília e em São Paulo. 

E eu acho que a reação tem sido muito forte porque é um filme brasileiro que fala sobre a história do Brasil. É sobre brasileiros.

Logo que o filme começou a circular, algumas pessoas fizeram comparações com Ainda Estou Aqui, por se passar no período da ditadura militar. Mas O Agente Secreto aborda outra perspectiva?

Desde o início, é muito curioso, porque eu falava até para os amigos: o próximo filme deve se passar em 1977. Depois, a coisa foi abrindo mais para a imprensa também, e as reações eram: “ah, ditadura”. Eu juro que a ditadura não era a minha primeira preocupação. Eu realmente queria fazer um filme de história que se passasse 50 anos atrás no Brasil. 

Eu lembro de 1977, eu fui criança nos anos 70. Então, tem alguma coisa de um sentimento emotivo em relação à passagem do tempo. É claro que, ao se passar em 77, não seria possível ignorar o tempo histórico, social e político do filme. O filme, com toda clareza, não é sobre a ditadura, mas aquele momento histórico faz parte do filme. 

Quando eu comecei a escrever o personagem interpretado por Wagner— o filme era um projeto para ser desenvolvido com o Wagner desde o início, desde antes de existir um roteiro —, veio muito naturalmente que Marcelo ou Armando não seria um guerrilheiro, não seria alguém especificamente envolvido com uma luta, exceto pelo fato de ser um brasileiro justo que tem uma visão aberta e livre da vida em sociedade. 

Há, na história, momentos de conflito, onde a democracia deixou de ser utilizada como parâmetro para a sociedade, pode ser uma ditadura, pode ser guerra. Existem muitos exemplos na história humana. Em situações como essas, não só as pessoas que estão em uma comissão de frente sofrem com esse momento. Às vezes, o simples fato de você dizer não pode te colocar em uma situação difícil. 

Eu achei que esse seria o ponto crucial do personagem de Wagner: um acadêmico, alguém que trabalha em uma universidade pública. Os reacionários têm problemas com vários elementos da sociedade, em especial com os intelectuais ou os que trabalham em casas de saber, por serem professores ou trabalharem em escola. Há uma tendência de esse tipo de espaço virar alvo em um regime como esse. 

Então, eu gosto muito do personagem ser alguém que simplesmente se mantém fiel aos seus valores. É um pai de família e acho que o único pecado dele foi fugir do roteiro estabelecido pelo Brasil. Daí, entramos com questões relacionadas às regiões, como o Nordeste é visto, como o Sudeste se vê. Eu, como alguém do Nordeste, tenho um ponto de vista que é muito específico dessa região em relação ao resto do Brasil. Eu acho que o filme vai se desenvolvendo muito a partir daí.

Mais uma vez, depois de Retratos Fantasmas,O Agente Secret e, o Cinema São Luiz, Recife aparece como um personagem do filme, mais do que apenas um ambiente. O que isso traduz na narrativa?

Eu falei que lembranças de infância, dos anos 70, também me ajudaram a construir o roteiro e a história, mas eu trabalhei sete anos na pesquisa do Retratos Fantasmas. Inclusive, muitos materiais estão ali, são arquivos pessoais meus. Depois, eu expandi para o Arquivo Público Estadual de Pernambuco, Cinemateca Brasileira, Cinemateca do MAM, Fundação Joaquim Nabuco, Biblioteca Nacional, várias instituições. 

Fui me reconectando com muitas informações guardadas sobre a história. Não só a história do cinema no Brasil, do ato de ir ao cinema no Brasil, mas também do cinema como espaço público, ponto de encontro e um certo equilíbrio dos centros de cidade. Isso é algo que foi desativado nos últimos 40 anos em múltiplas cidades brasileiras. 

Então, tudo isso do Retratos Fantasmas me deu um elemento não só factual, mas também emotivo, sobre a vida em cidade. Quando eu estava no meio do trabalho do Retratos Fantasmas, comecei a sentir muito forte essa possibilidade de me sentar para escrever O Agente Secreto, que seria um filme de ficção. 

O Agente Secreto não existiria sem o Retratos Fantasmas, mas é muito curioso que eles são filmes muito diferentes. Tenho certeza que quem viu o Retratos Fantasmas vai entender o que eu estou falando. Existe uma conexão grande.

No Bacurau, por exemplo, o museu da cidade é um espaço muito interessante e tem um papel interessante na história. A escola, em Bacurau, também tem um papel muito interessante. Não é só uma escola, mas é também um esconderijo. O museu guarda segredos em forma, informações importantes. 

Eu acho que o Cinema São Luiz, em O Agente Secreto, é um ponto de encontro, um espaço de proteção onde a vida de alguém pode ser discutida com segurança. Ao longo da minha vida, eu já encontrei muita gente em salas de cinema. Eu já encontrei gente para conversar em cinemas, não dentro da sessão, em uma sala gigantesca do passado, que era um espaço muito aconchegante para conversar. 

Às vezes, acontecia de até perder o filme, porque você ficou conversando na sala de espera, em um sofá relativamente confortável. Eu gosto muito dessa ideia, gosto muito do São Luiz, não só no Retratos Fantasmas, como o personagem daquele ensaio, mas também do São Luiz como o personagem dramático em O Agente Secreto.

Em O Agente Secreto, existe um realismo mágico que contorna a cidade do Recife, por meio, por exemplo, da “perna cabeluda”, uma lenda urbana que atravessa gerações.  O que te motivou a trazer essa característica para o filme?

Eu sou muito livre, em termos de observar e ouvir as reações do público e das pessoas, quando um filme é lançado. Eu não descarto a possibilidade de um dia eu interpretar toda a sequência, tudo que se passa em torno da perna cabeluda, como algum tipo de realismo mágico, mas eu nunca tinha pensado nesses termos. 

Na verdade, isso começou a ser observado fora do país, dentro de uma visão da literatura na América Latina. Mas eu acho que a sequência é baseada na imprensa e no que estava escrito no jornal. 

Acho que existe um lado transgressor na cidade do Recife, um lado talvez muito de esquerda,  que acha maneiras de dar uma cambalhota e evitar certas proibições. No caso da perna cabeluda, muita gente sabe que foi algo criado. Há uma discussão se foi criado pelo Raimundo Carreira, um escritor, ou J. Ferreira, um jornalista da rádio e da televisão. Naquela época, eles lidavam com a censura e certas coisas não podiam ser escritas. 

Até hoje certas coisas não devem ser escritas em determinados meios, mas, naquela época, era algo muito mais pesado. Poderia ter um camburão esperando o jornalista no térreo do jornal, na saída do expediente, por exemplo. Isso aconteceu. Então, para relatar violências e atos de desrespeito à cidadania que aconteceram na cidade, em um parque, à noite, ao invés de dizer o que realmente aconteceu, eles utilizaram o código da perna cabeluda. 

Eu acho que isso, no filme, é claramente estabelecido. É uma sequência na qual Tereza Vitória, interpretada por Isabél Zuaa, está lendo o jornal. Aquela matéria do jornal foi de fato publicada em 1975. Quando eu era criança, eu lembro da minha mãe fazendo o que Tereza faz em cena, que é ler a notícia um pouco atônita e incrédula. 

Ela estava lendo aquilo em um jornal que não era um de notícias populares, era um jornal, digamos, careta e que publicou uma matéria sobre a perna cabeluda que veio quicando no escuro e atacou as pessoas. Isso fala muito sobre o clima da censura. 

Hoje, em tempos democráticos a censura acontece de maneira mais velada. Naquela época, a censura era radical. Existem relatos de canais em São Paulo e no Rio que publicaram receitas de bolo, inclusive na capa, durante os anos mais dramáticos do regime militar. 

Isso, para mim, é muito fascinante. Se você faz um cinema de corte realista, você pode fazer um filme 100% realista. A cozinha é a cozinha, a rua é a rua. Mas acho que tem alguma coisa da maneira como eu escrevo e nos filmes que eu dirigi. O registro é realista, mas, em algum momento, você entra em um portal, que é fornecido pelo próprio cinema. 

A ideia do portal é algo que me atrai muito, porque Recife também é uma cidade onde tem um carnaval muito forte. O Rio de Janeiro e Salvador também têm um carnaval muito forte. Mas, aqui, eu sempre achei que tem algum momento no carnaval que você olha para o fim da rua e parece que tem um portal mesmo.

Esse portal é um bloco que está vindo. E tem as máscaras, o álcool, a música e o frevo. Parece que você meio que sai da realidade e entra em uma outra dimensão. Eu, como espectador, acho muito bom quando um filme faz isso. E, talvez, eu, como realizador do filme, defenda isso. Então, acho que O Agente Secreto é um filme realista, mas tem muitos momentos nos quais ele borra a ideia de realismo e você realmente entra em uma outra camada de cinema.

Recentemente, o Ministério Público da Itália começou a investigar o que seria um “safári humano” durante a Guerra da Bósnia, onde pessoas pagavam para atirar em outras, lembrando um pouco a narrativa construída em Bacurau. Isso te impactou de alguma forma?

É claro que impacta, porque é uma notícia terrível, trágica e abominável. Mas a ideia de Bacurau não foi criada por mim e por Juliano porque a gente acordou um dia e acendeu uma lâmpada e disse: “eita, tem essa ideia”. Não é isso. 

Infelizmente, ao longo da história, guerras, guerras civis e intervenções de países em outros países, são muito recorrentes. Matar por prazer, infelizmente, faz parte da história humana. Foi daí que veio Bacurau. E, quando você rejunta uma área, uma região que é vista como muito pobre pelo Norte rico, não é tão difícil de acreditar que algo assim poderia acontecer.

Quem for ver O Agente Secreto também vai reconhecer a citação ao caso do menino Miguel, que caiu de um prédio em Recife. Por que você trouxe essa referência para o filme?

Existe uma referência e eu sempre defendi no roteiro que aquele caso faz parte de uma lógica muito infeliz e muito triste no nosso Brasil. Eu tenho um respeito enorme por aquela mãe. Acho que eu estava pensando muito no teatro da justiça. Isso, talvez, era algo que me interessava muito naquela sequência toda, que é a ilusão de que a justiça está sendo respeitada, mas, na verdade, existe um teatro. 

Você vê na sequência o Euclides, uma espécie de quase  dramaturgo. Ele dirige tudo e diz como é que tudo tem que acontecer. Ele define quando é que o jornalista e o fotojornalista vão entrar, a proteção física do depoimento, o depoimento feito às 5 horas da manhã para não causar maiores constrangimentos. 

Nos últimos 10 anos do Brasil, nós vimos várias dramatizações do que seria justiça, mas não era justiça, era uma manipulação da ideia de justiça. Acho que essa era a ideia por trás de toda aquela sequência, com um enorme respeito por tudo o que aconteceu.

Como está a corrida pelo Oscar 2026?

Tem muita viagem programada. A Neon, que é a distribuidora do filme nos Estados Unidos, tem uma extensa agenda montada para mim e para o Wagner, e, muitas vezes, são agendas um pouco diferentes. Vou ter um ciclo de muitas viagens agora: Nova York, Los Angeles, Londres, Paris. O filme vai estrear na França no mês que vem. De volta para os Estados Unidos, muita sessão para membros da academia, muitos debates, etc. 

Felizmente, eu tenho uma energia muito grande para isso. Eu fiz o filme, defendo o filme e vou aonde o filme vai. Acho tudo muito interessante. Você conhece muita gente, tem muita troca boa, troca de ideia. Tem muitos jornalistas bons com quem eu converso, boas entrevistas, boas conversas, que me ajudam a entender melhor o que eu fiz no filme. Às vezes, eu posso discordar com uma coisa ou outra, mas é tudo muito válido. 

De maio para cá, quando o filme estreou no Festival de Cannes, você vai aperfeiçoando o que você fala. Às vezes, eu canso de falar de uma coisa, começo a falar de outra coisa. É muito curioso. É bom estar conversando com você aqui, porque sempre é um exercício mental de articular ideias e de pensar muito sobre o filme que eu fiz.

Você já está programando novos trabalhos?

Eu estou nesse momento. Tenho muitas ideias chegando. É quase inevitável, mas eu não tenho tempo de sentar e escrever o roteiro. Espero fazer isso em algum momento do ano que vem. Neste momento, eu estou muito feliz com a entrada do filme na segunda semana no Brasil. Ele continua com mais de 700 salas. Acho que é um momento incrível. Agora, no dia 26 de novembro, será a estreia nos Estados Unidos, que eu acho que vai ser uma nova fase de uma carga muito grande de atenção da mídia em cima do filme, que é estratégico. Então, neste momento, eu estou muito mais focado em continuar indo bem no Brasil, divulgando o filme, depois,  Estados Unidos e o lançamento na França em dezembro.

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Editado por: Luís Indriunas

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