Um dos nomes jovens da teledramaturgia, do cinema e das artes, Cadu Libonati, que interpretou Lô Borges no musical Clube da Esquina – Os sonhos não envelhecem, destaca, ao Conversa Bem Viver, a importância de homenagear em vida os artistas da antiga geração.
“O maior legado do Lô é que dá para fazer muita coisa séria e bonita de um jeito alegre. O legado do Lô já existia e eu faço um apelo para a sociedade para que a gente pare de esperar os nossos velhos irem embora para fazermos homenagens. A gente pode pegar a experiência com o Bituca. Foi lindo aquilo, uma despedida de carreira. Temos que aproveitar enquanto essa galera está viva e fazer um resgate”, defende.
Libonati compõe o elenco da novela Êta Mundo Bom!, que está sendo transmitida atualmente, e participou também de Guerreiros do Sol, entre outros trabalhos.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – Qual é a sua trajetória como artista?
Cadu Libonati – Eu fiz um espetáculo chamado As Moscas, quando eu estava fazendo o teste para Malhação. Um período antes, quando estava prestes a me formar, fiz uma peça que era uma adaptação das Três Irmãs, de Tchekhov, um texto alemão. O Lauro Macedo foi assistir a esse espetáculo e me chamou para fazer um teste. Eu passei da primeira fase no teste. Na segunda fase, estava prestes a estrear uma peça de formatura e fazendo a semana de workshop com Ana Kfouri.
Foi uma loucura. Eu achei que não ia dar nem para fazer a peça, nem a novela, mas o gás dos 18 e 20 anos na época ajudaram bastante. Por isso, consegui fazer os dois personagens. Na época também estava dançando e o personagem dançava balé. As minhas escolhas extra atuação sempre foram essenciais para minha vida, como a dança.
Desde moleque, eu tenho alguns mini hiper focos em coisas. Quando eu era mais novo, meus irmãos gostavam de futebol americano, e me apresentaram. Fiquei no hiperfoco de querer fazer aula na praia, achando que eu ia virar um quarterback nos Estados Unidos, e, logo depois de alguns meses, passou. Só que eu sempre fui muito hiperfocal. Alguns duraram um pouco mais. A dança durou um pouco mais.
Eu também tive um hiperfoco em acrobacia de solo em uma época. Eu toquei trompete em bloco de carnaval. Já fiz aula de bateria também. Gosto muito de muita coisa, mas sempre tem alguma coisinha que vai me mantendo. Por exemplo, o violão é uma coisa que eu aprendi a tocar na época da Malhação. Lembro que o Felipe Simas foi quem me ensinou a tocar minha primeira música no violão. Eu fui gostando e hoje toco violão quase que religiosamente todos os dias. E também continuo a praticar Muay Thai.
Sou uma pessoa muito curiosa. Gosto quando o trabalho me faz misturar com as outras pesquisas. Sempre fui apaixonado por história. Naturalmente, quando vem uma novela ou série de época, eu amo. Enfim, acredito que me interesso muito pelas coisas e depois eu vejo se elas vão me dar algum fruto, porque também já fiz várias coisas que não deram.
Você é neto da atriz e diretora de teatro brasileira Irene Ravache. Ela influenciou na sua formação?
Quando você vê uma família na qual os filhos acabam continuando um pouco a profissão dos pais ou dos outros parentes, é inevitável a influência. E não só pela minha avó, meu tio é produtor de teatro, minha mãe era produtora de teatro nos anos 90. Meu pai foi iluminador de teatro durante muito tempo. Meus pais se conheceram através do teatro.
Esse lado é um pouco inevitável por ser muito inquieto, muito hiperativo. Fui um adolescente muito humilde, por conta também de como o sistema do mundo apresenta as coisas para a gente, parece tudo muito ruim, muito sem graça. Mas, claro, estava dentro de uma realidade completamente privilegiada, um moleque que nasceu na zona Sul carioca e teve uma família de artistas.
Para além do privilégio de ter o nome, há pessoas que me tratam de forma diferente pela minha avó. Nasci numa família de um pai e uma mãe que não são produtores milionários, muito longe disso. Não tiveram uma carreira de êxito financeiro absurda graças ao teatro. Durante uma época sim, mas não ao longo da vida, nem principalmente quando eu comecei a trabalhar.
Acho que esse já é o maior privilégio, o fato de eu viver e respirar a arte, principalmente no Brasil, que é um lugar onde a gente vê necessidade, por exemplo, de lutar para que adolescentes tenham acesso a livros básicos e primordiais de leitura.
Não estou tirando o meu mérito, mas sei como o mercado funciona. Ao mesmo tempo, eu realmente nunca pedi. Na realidade, para não dizer que eu nunca pedi, na pandemia, eu estava desesperado e falei: “Vó, tem nada aí não?”. E a resposta dela quis dizer: “olha como está o país ao seu redor. Minha avó foi essencial. Cresci vendo ela, vendo Nanini atuar. É muito difícil eu não gostar minimamente disso. Mas eu demorei até entrar no meio. A gente ainda não subiu no palco junto.
Você atuou na novela Guerreiros do Sol. Como foi a experiência de trabalhar em um enredo nordestino?
Tudo caminha muito junto. O elenco era de pessoas muito talentosas e que queriam contar muito essa história. Quando você vê o Thomás tomando para si essa história, o Irandhir, a Isadora, a Alice. Todas essas pessoas literalmente nordestinas contando uma história do Nordeste, é outro timbre que dá.
E eu acredito que as escalações sudestinas, na qual eu me incluo, foram feitas de forma muito calculada. Eu já tinha trabalhado com a Iris, com a preparadora de prosódia, de sotaque. Prosódia é a pessoa que vai ajudar a gente a fazer o sotaque da região. A gente fez um trabalho muito respeitoso, e eu lembro que falei para ela: “mais do que fazer igual ao sotaque da região, quero respeitar e contar essa história. Eu quero muito entender esse lugar, eu quero entender porque as pessoas falam assim nesse lugar”.
O barato de estar em cena, inclusive, é que ajuda atores que não são da região a compreenderem melhor sobre a própria região que está sendo falada. Eu acredito que isso funciona e influencia muito. Eu só fui capaz de fazer esse trabalho porque tínhamos todas as pessoas envolvidas. E eu também falava: “gente, me dá qualquer pitaco”.
Você interpretou Lô Borges, artista que morreu recentemente, no musical do Clube da Esquina, Os Sonhos Não Envelhecem. Como foi seu contato com ele e a obra dele?
Eu nunca tinha feito nenhuma obra biográfica na vida. De repente aparece esse teste para o Lô Borges. A Vanessa Veiga me ligou na hora, quando apareceu, e falou: “cara, prepara uma música, chega no teste”.
Aí, começou a pesquisa. Eu li o livro do Márcio Borges, Os Sonhos Não Envelhecem, que era o título, inclusive, do musical, muito inspirado no livro. Eu estava aqui no Rio de Janeiro ensaiando e o Lô morava em BH. Eu não estava a fim de encontrar antes, estava meio com medo. Ele veio fazer um show e chamou a gente. Me chamou para o palco junto com a galera toda do elenco, e a gente cantou uma música com ele.
Ele foi gentil e falou uma coisa muito bonita: “nossa, eu vi minha mãe ali”. Depois, quando eu fiz a peça, a gente trocou de novo também. A gente conversou, se abraçou. Ele estava demonstrando muita animação com a peça. Ele assistiu a peça acho que duas vezes e ria muito.
Foi muito mágico. A lembrança que eu tenho do Lô Borges é muito bem-humorada. Um cara muito alegre. Quando eu conheci ele, vi que ele brincava tanto quanto um adulto da idade dele, um senhor, quanto como uma criança.
Para mim, o maior legado do Lô é que dá para fazer muita coisa séria e bonita de um jeito alegre. E esse jeito mineiro, calmo, pleno, e, ao mesmo tempo, muito complexo e profundo de ver as coisas. Uma montanha não é só uma montanha. Às vezes é preciso virar a noite em Belo Horizonte, tomando uma cachaça e conversando com os amigos, ouvindo um som e falar: “Meu Deus, a montanha que o Milton e o Lô contam é essa”.
O legado do Lô já existia e eu faço um apelo para a sociedade para que a gente pare de esperar os nossos velhos irem embora para fazermos homenagens. A gente pode pegar a experiência com o Bituca. Foi lindo aquilo, uma despedida de carreira. Temos que aproveitar enquanto essa galera está viva e fazer um resgate.
Outro legado é a própria instituição Clube da Esquina, um dos maiores movimentos artísticos do século. O Cadu adolescente era grato pelo Lô Borges. E ele nem esperava que o Cadu adulto seria grato, porque isso mudou minha carreira completamente. As pessoas começaram a me ver com seriedade.
Conversa Bem Viver

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