Para o ator, diretor e curador do Festival de Gramado Caio Blat, 2025 foi um ano marcante tanto para a história do cinema brasileiro, com diversas produções sendo premiadas e reconhecidas internacionalmente, quanto para a democracia.
“De alguma maneira, há um desabafo do cinema depois de anos de perseguição e censura. Em 2025 está sendo reescrita a história do cinema e também a história da democracia brasileira, que esteve muito ameaçada. Houve uma ameaça de golpe explícita, que está lindamente julgada pelo Supremo e condenada. Então, eu acho que é um ano especial para o cinema e para a democracia”, avaliou, ao Conversa Bem Viver.
Blat também comenta sobre os próximos passos de sua carreira e o desafio de regulamentação das plataformas de streaming no Brasil. Recentemente, um projeto de lei sobre o tema foi aprovado no Congresso Nacional, mas, segundo o ator, a iniciativa ainda tem limites.
“O setor estava totalmente desregularizado, com grandes empresas internacionais explorando o mercado brasileiro, que é um dos maiores do mundo, sem nenhum regulamento, sem nenhuma taxação, sem fazer um reinvestimento aqui. Foi o começo de uma regulamentação, mas foi muito pouco. São empresas gigantescas internacionais que estão explorando o mercado brasileiro, que precisam reinvestir aqui”, argumenta.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – Este foi o ano mais especial na história do cinema brasileiro ou essa afirmação é um exagero?
Caio Blat – Acho que não é exagero, ganhamos prêmios importantíssimos em Cannes, em Berlim, além do primeiro Oscar. Eu acho que talvez tenha sido o ano mais especial para o cinema brasileiro no sentido do reconhecimento internacional. Foi o ano em que o nosso cinema teve o maior reconhecimento nos principais festivais do mundo, inclusive da Academia de Los Angeles.
A gente nunca tinha tido uma premiação tão impressionante assim, tão expressiva. Foi um ano importante de retomada das políticas culturais do setor. E o reconhecimento foi uma demonstração do quanto as políticas são efetivas. Tivemos quatro anos sem Ministério da Cultura e, quando a gente tem o ministério de volta e a Ancine funcionando normalmente, em pouco tempo, o Brasil já é um grande destaque nos principais festivais do mundo.
Então, este ano realmente é um ano único da história do cinema brasileiro e uma prova de que as políticas culturais são muito efetivas.
Após passar quatro anos angustiada, com dificuldade, e enfrentando alguns níveis de censura durante o governo Bolsonaro, houve um impulso maior da classe artística?
Eu acho que esse tempero está no caldeirão, sim. Basta você ver que tanto Ainda Estou Aqui quanto O Agente Secreto são filmes que falam da ditadura. Falam do apagamento de memórias, do desaparecimento de corpos. Então, não é à toa que os filmes mais premiados deste ano são filmes que tratam do tema do Brasil sem democracia, do Brasil sob a ditadura, da violência policial, da violência política. De alguma maneira, há um desabafo do cinema depois de anos de perseguição e censura.
A história da ditadura militar no Brasil, às vezes, não só fica esquecida como ameaça voltar. A gente teve uma ameaça de golpe. Estamos tendo militares presos pela primeira vez por tentativa de golpe. O Brasil está reescrevendo lindamente a sua história.
Em 2025 está sendo reescrita a história do cinema e também a história da democracia brasileira, que esteve muito ameaçada. Houve uma ameaça de golpe explícita, que está lindamente julgada pelo Supremo e condenada. Então, eu acho que é um ano especial para o cinema e para a democracia.
Em Batismo de Sangue, você interpreta Frei Tito, que teria, se estivesse vivo, completado 80 em setembro. Como foi esse processo?
Foi um personagem muito sofrido de reviver e, ao mesmo tempo, uma honra para mim resgatar esse mártir da nossa luta contra a ditadura, mas que tem uma história muito sofrida, que foi tão torturado, tão perseguido, e chegou ao ponto de não suportar mais.
Frei Tito é um mártir, um símbolo dessa época, e é uma honra ele ter a história dele resgatada pelo cinema, no filme de Helvécio Ratton, que é passado até hoje em escolas. Eu já fui chamado para debates em assentamentos do MST. É um filme que reconta a história do Brasil. Eu acho que é importante as pessoas perceberem essa dimensão da nossa cultura.
O nosso cinema tem a força de reescrever a nossa história, de resgatar e recontar a nossa história para uma nova geração. O Batismo de Sangue está fazendo aniversário, Frei Tito estaria fazendo aniversário e o filme segue sendo exibido em escolas, sendo exibido em lugares importantes, fazendo esse resgate.
Produções cinematográficas premiadas, como Ainda Estou Aqui, têm capacidade de influenciar também em questões econômicas?
Certamente. Os Estados Unidos pararam para ver um filme brasileiro, Cannes parou para comemorar um filme brasileiro. Eu acho que as pessoas não têm ainda dimensão do quanto a cultura divulga o país, escreve a história do país, mostra o país para dentro, para fora, reescreve a história e vira a nossa economia.
É importante dizer que o setor audiovisual já é maior do que a indústria automobilística. Uma parte significativa do PIB brasileiro é movida pela cultura, é movida pelo audiovisual. No Brasil, a gente tem muita falta de compreensão sobre os veículos de fomento, sobre as leis de incentivo, e é importante as pessoas entenderem que o dinheiro investido no cinema traz um retorno não só cultural, mas econômico.
Temos números comprovando que todo o dinheiro investido em audiovisual retorna em dobro para a sociedade, para a economia do país, move também um setor gigantesco. É uma indústria. Eu estou em Salvador fazendo um filme muito importante, que é o Justino. É um filme que também conta uma história do Brasil recente, que é o fenômeno das igrejas pentecostais.
São centenas e centenas de pessoas. A gente ter trazido uma produção desse tamanho aqui para Salvador, são centenas de artistas locais, de técnicos locais, fornecedores de tudo, como os restaurantes, os transportes, os hotéis. A cultura é uma indústria fortíssima, que tem uma importância econômica e essa importância simbólica na reconstrução da identidade do país.
Quais são as expectativas com o filme Justino?
A expectativa é bem grande. Estamos encerrando as filmagens nesta semana e é um filme muito importante, que mostra a história de um pastor nos anos 90 e o fenômeno do crescimento das igrejas pentecostais. Essa é uma história que precisa ser contada. É um fenômeno social brasileiro recente das últimas décadas que precisa ser contado.
E é uma história muito forte, muito emocionante. O Justino era um pastor muito carismático que foi expulso da igreja porque pegou AIDS. Ele estava nas ruas, morando na rua, quando foi resgatado por uma ONG. Daí, ele encontra o amor. A caridade que procurou a vida toda na igreja ele encontra na rua. Então, é uma história muito forte, muito bonita, muito polêmica também. Acho que vai ser um dos lançamentos mais importantes do ano que vem. Está confirmado para 2026. É dirigido pelo José Eduardo Belmonte, que é um diretor incrível e maravilhoso. Por enquanto, é um filme independente só de cinema.
Você tem sido um dos artistas a defender que o Brasil avance na regulamentação do streaming. Foi aprovado um projeto na Câmara dos Deputados. Por que a iniciativa não agradou completamente a classe artística?
Porque o projeto foi muito tímido. Ele é um avanço, claro. O setor estava totalmente desregularizado, com grandes empresas internacionais explorando o mercado brasileiro, que é um dos maiores do mundo, sem nenhum regulamento, sem nenhuma taxação, sem fazer um reinvestimento aqui.
Então, eu acho que é um início, foi o começo de uma regulamentação, mas foi muito pouco. É muito pouco. O Congresso brasileiro tem dificuldade para entender que são empresas gigantescas internacionais que estão explorando o mercado brasileiro, que precisam reinvestir aqui, precisam investir aqui. Essa taxa de reinvestimento é cobrada no mundo inteiro. Todos os países da Europa já regulamentaram o streaming com uma taxa muito maior do que a que está sendo criada no Brasil para investimento local.
E o Brasil está aprovando essa regulamentação, mas ela é muito tímida. São anos para aumentar a participação de produtos brasileiros no cardápio e é uma taxação muito baixa perto do lucro que eles têm aqui. São milhões, bilhões de dólares de lucro. São milhões e milhões de assinantes. O Brasil é o primeiro ou segundo mercado mundial de streaming. São milhões de assinantes e essa taxa que é cobrada para fortalecer o nosso audiovisual, que é cobrada para criação de produtos nacionais, é uma taxa que ficou muito baixa na negociação com o congresso. Então, não foi a regulamentação que a gente sonhava, que a gente esperava, está muito abaixo do que os outros países regulamentaram, mas é um começo. Estamos começando.
Como está a mobilização para que o projeto seja reavaliado no Senado? Há expectativa de que a gente consiga melhorar essas taxas?
Tem ainda uma expectativa de tentar melhorar isso no Senado, mas tem muitos aspectos ainda dessa lei que precisam ser regulamentados, talvez com outros projetos, porque eles não estão incluídos nessa regulamentação. Eu citaria, por exemplo, os direitos conexos, que é uma coisa que as pessoas não entendem.
É o seguinte: os atores não têm direito sobre a sua imagem. Então, trabalhos nossos que foram feitos ao longo das últimas décadas estão sendo exibidos nos streamings, e os atores não recebem nada por isso, nada. Os atores não recebem nenhum real por essa exibição da sua imagem. A gente fazia filmes e fazia novelas que eram exibidas na TV aberta ou no cinema e depois saíam de cartaz.
Então, a gente recebia um valor para fazer o filme uma única vez. E agora esses filmes ficam disponíveis para sempre, dando lucro para os canais. E os atores precisam receber também. O direito conexo é análogo a um direito autoral. Você não pode revender um livro de um escritor sem pagar direitos autorais para ele. Da mesma maneira, você não pode reexibir um filme ou uma novela ou uma série feita com a imagem, com a voz, com a interpretação dos atores, sem recolher direitos conexos para eles.
Eu acabei de receber, nesta semana, os direitos conexos do Chile e da Argentina, que são países que já regulamentaram isso. Então, os meus filmes e as minhas séries que passam no Chile e na Argentina recolhem esses impostos e mandam para o Brasil, para os atores brasileiros, e o Brasil não recolhe. O Brasil não ganha nada. Com o sucesso de Ainda Estou Aqui, é importante revelar que toda vez que o filme for reexibido no streaming a Fernanda Torres não recebe nada por isso.
Então, é uma forma de você tentar explicar para as pessoas o quanto é absurdo a falta de direitos conexos na legislação brasileira. Toda vez que um filme é reexibido com a imagem daquele artista, ele não recebe nada no Brasil, porque a gente não regulamentou os direitos conexos
Falta regulamentar a inteligência artificial também. A inteligência artificial cria vídeos e imagens, porque, na verdade, ela reproduz tudo aquilo que está disponível na rede. Ela assiste, ela aprende a fazer vídeos vendo os filmes que já foram feitos e copiando. Então, é preciso regulamentar a inteligência artificial, é preciso regulamentar direitos conexos, que são coisas que nem estão ainda incluídas nessa lei. Então, essa discussão ainda vai longe.
Os músicos também não recebem direitos conexos. Só o artista, o cantor principal recebe os direitos autorais, mas os músicos que tocam na música também não recebem quando a música é tocada no streaming. Enfim, o buraco é bem grande. A gente retomou o Ministério da Cultura, retomou a democracia, prendeu pessoas que tentaram dar golpe de Estado. Mas a gente precisa melhorar muito a qualidade do nosso Congresso.
O nosso Congresso ainda é um congresso dominado pela extrema direita, que tem uma visão muito tosca, obscurantista sobre liberdade de expressão. Acham que taxar streamings e regulamentar é tirar a liberdade de expressão, por exemplo, da internet. A gente tem um Congresso obscurantista, dominado pelo Centrão e pela extrema direita. A gente precisa muito no ano que vem melhorar a qualidade do nosso Congresso, porque é lá que essas leis estão sendo debatidas, estão sendo criadas.
Além de Justino, quais serão os outros próximos passos?
Ayô é um trabalho que me dá muito orgulho. É uma série preta, gay, independente, criada pelo Lucas Oranmian. É fruto de um edital, então ela vai ser liberada já de graça nas plataformas gratuitas. É uma série muito especial. Conta a história de um ator baiano preto, tentando ganhar um papel de destaque no cenário do audiovisual. É uma série que ficou super linda, com um elenco belíssimo, em sua maioria preto. Então, para mim, é uma honra, é um orgulho muito grande estar nesse projeto. O Justino está vindo também com força total.
Estamos reunindo forças também para reunir o elenco de Beleza Fatal, que também é um projeto inovador, a primeira novela do streaming brasileiro que viralizou, que atingiu um público gigante, trouxe milhões de assinaturas para a Max, mostrando que esse mercado ainda tem muito a ser explorado e tem muito a crescer com produtos brasileiros. Vai sair agora em dezembro um episódio especial, que é uma reunião do elenco e estamos juntando as forças.
Conversa Bem Viver

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