Conversa Bem Viver

‘O samba é exigente e quer sempre ser melhor’, avalia Toninho Geraes, no Dia Nacional do Samba

Toninho Geraes tem mais 250 composições gravadas por Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Martinho da Vila e muitos outros

toninho geraes
Celebrando o Dia Nacional do Samba, Toninho Geraes, compositor brasileiro, comenta sobre o atual cenário e as perspectivas do setor | Crédito: Reprodução/ TV Brasil

Celebrando o Dia Nacional do Samba, Toninho Geraes, compositor brasileiro, comenta sobre o atual cenário e as perspectivas do setor, que, em 2025, perdeu nomes expoentes, como Arlindo Cruz e Bira Presidente, mas seguiu se reinventando.  

“Essa maneira de comunicação do samba tradicional tem metáforas fantásticas, poesias lindas, analogias fantásticas. O samba sempre quer ser melhor. Sempre independente e com qualidade. É muita coisa linda. O samba tem isso. É essa exigência. O público que curte samba mesmo, de raiz, é exigente. Ele quer a história bem contada, ele quer a história bem amarrada, ele não quer rimar, ele não quer aquelas palavrinhas”, destaca, ao  Conversa Bem Viver.

Toninho Geraes tem mais 250 composições gravadas por Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Martinho da Vila e muitos outros. Para ele, o samba vem passando por uma série de mudanças, algumas positivas, outras nem tanto.

“O samba de raiz sofreu certas modificações ao longo do tempo. Se você pegar aqueles sambas gravados em 1930, 1940, são muito diferentes dos sambas gravados em 1970, 1980. Mas eu penso que o samba sofreu transformações mais positivas. São letras mais elaboradas, melodias mais requintadas. O samba evoluiu, mas o pagode deu uma ‘involuída’. Quando você escutava o pagode dos anos 1980, 1990, o Xande de Pilares cantava de um jeito. Salgadinho cantava de outro, o outro cantava de outro. Já o pagode atual, parece que todo mundo copia todo mundo na interpretação”, avalia. 

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: Como começou a sua trajetória no samba?

Toninho Geraes: Foi lá em Belo Horizonte que o samba me fisgou. Eu era criança, tinha de 10 a 13 anos, e tinha o barbeiro do bairro, que era o Seu Tunico, em Santa Mônica, em Belo Horizonte. Seu Tonico tocava saxofone e tinha um regional que tocava choro. O pessoal cantava, mas também tocava o choro, não ficava aquela coisa só de choro, falava tudo. E o Zé Augusto, que era o clarinetista e um dos cantores desse regional, tinha um filho chamado Marquinho, que era meu melhor amigo da época. Marquinho morreu aos 33 anos, assassinado, meu grande amigo de infância. 

A gente vivia a descobrir o samba e começou a aprender pandeiro, aprender cavaquinho, começamos a fazer grupos samba, montamos um grupo chamado Curti Samba, depois um grupo chamado Sorriso Negro, grupo regional. Eu já fui convidado para tocar em grupo mais estruturado em Belo Horizonte, que foi o Black Samba, Raízes do Samba. Com relação ao samba, meu início foi assim.

E como se deu a sua migração para o Rio de Janeiro?

Eu era muito ruim, tanto compondo como tocando, como escrevendo, cantando. Era muito fraco. Mas, quando a gente quer muito uma coisa, parece que o destino age e fala: “Vou dar um jeito de ajudar esse cara, já que esse maluco quer tanto isso”. Aí eu comecei a compor com o Ivan Marujo, que é um cara muito mais diferente que eu. Compositor da União da Ponte, do bloco Galeria, de São João. Ele também fazia parte da ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira. Ali eu comecei a me tornar sambista e comecei até, depois de um certo tempo, frequentar a escola de samba de Belo Horizonte. Aí eu vim para o Rio com 17 anos, mas eu não tinha lugar para ficar, não tinha lugar para morar.

Eu fui levar uma fitinha do Rivaldo, da gravadora RCA Victor, depois virou BMG Ariola. Cheguei lá, tinha um mestre sem braço que não conhecia. O cara falava fanho, não tinha o braço e era respeitado. Aí ele falou: “O Rivaldo vai gravar”. Eu estava na sala. Entrei e falei assim: “Qual é o seu nome?”. Ele falou: “Eu sou o Beto Sem Braço”. E eu disse: “Não, seu Beto, é o seguinte, sou muito ruim de cavaquinho, eu estou aprendendo cavaquinho”. “Não tem problema. Toca aí, quero ver”. Aí, toquei, ele gostou de mim e falou: “Eu vou te levar para conhecer um lugar que vai mudar a sua vida. Já ouviu falar em Cacique de Ramos?”. 

Eu conheci o Cacique de Ramos por causa daquele primeiro disco do Fundo de Quintal. Aí, eu falei: “Conheço, sim, o Cacique de Ramos”. Na quarta-feira, o pessoal fez uma tripla lombeira, foi no futebol. Eu fui com Beto Sem Braço de carro, que tinha um motorista chamado André do Vilar. Conheci lá o Zeca Pagodinho, que ainda não era famoso. Para mim, era um tal de Zeca, ninguém conhecia. Naquela mesma noite tinha Beth Carvalho, Alcione, Jair Rodrigues, Neguinho da Beija-Flor, um monte de caras famosos lá. Arlindo Cruz ainda não era tão famoso como hoje é, mas já era bem conhecido, porque ele era expoente da primeira formação do grupo Fundo de Quintal. 

Arlindo Cruz já estava lá, estava todo mundo. Inclusive, até fiz um samba que eu não me recordo direito. Fiz com o Toninho Nascimento. Ali conheci o Zeca, que deu origem ao meu nome Toninho Geraes. O Zeca só me chamava de Geraes. E o meu nome artístico era Toninho Ribeiro. Eu sou Antônio Eustáquio de Trindade Ribeiro. Toninho era apelido de infância. 

Muitos me chamam de Mineirinho. O Bira é uma das pessoas que mais me acolheu, o Bira Presidente. Essa rapaziada toda do Fundo de Quintal, principalmente o Cléber Augusto, mesmo no auge, sempre foram as mesmas pessoas. Mas o meu nome virou Toninho Geraes mesmo, oficialmente, quando eu fui gravar. Eu estava dando uma canja no Império Serrano. Jorge Ariola, que era um diretor de execução da gravadora, tinha um poder muito grande na gravadora. E eles estavam com um projeto lá chamado Pau de Sebo. 

Por que Pau de Sebo? Na festa junina, tem um pau de sebo, que tira a casca do pau, o pau fica liso e passa o sebo de carneiro para ele deslizar. Em cima botam uma prenda. Quem conseguir chegar lá, pega a prenda. Assim é o Pau de Sebo da gravadora. Eles faziam um disco, colocavam vários artistas, quem se destacasse, ele dava um disco solo. E assim aconteceu comigo. Quando eu cheguei, o Jorge me viu lá no Império Serrano e me levou para o pessoal me conhecer para cantar nesse disco, Na Aba do Pagode. Explodiu, me deu mais de 100 mil cópias.

Neste ano, perdemos nomes importantes do samba brasileiro, como Arlindo Cruz e Bira Presidente. Como vocês sentiram esse impacto?

O que eu vou falar agora é mais triste do que comentar que o Arlindo morreu este ano. Para mim, ele já morreu há oito anos, estava vegetativo, não estava mais produzindo, falando, cantando, sendo feliz, tocando. Tudo que ele gostava de fazer, não estava fazendo há oito anos. Então, por mais que pareça ser frio, eu sabia que, pelas condições em que ele estava, ele não voltava mais. O desastre, o problema no cérebro dele, não tinha como reverter. Toda perda é uma perda. Mas ele descansou, não ficou sofrendo, descansou. 

Acho que a morte dele aconteceu mesmo no dia em que ele teve o AVC, que ele caiu no banheiro, foi levado para o hospital, ainda com vida. Já o Bira teve Alzheimer, começou a ter um problema degenerativo. O Alzheimer chegou no Bira muito rápido. E o Bira estava ativo, sambando, cantando, alegrando onde chegava, falava com todo mundo. Foi uma dor maior, ele morreu agora. A passagem do espiritual do Arlindo aconteceu agora. Mas lá atrás, ele já tinha ido embora. Sem consciência, o cara não conhece ninguém.

O momento de chegada ao Cacique de Ramos, com todas as pessoas do Fundo de Quintal, que você relembrou, pode ser considerado o nascimento do pagode no Rio de Janeiro? 

A gente fazia pagode do Cacique de Ramos, pagode da mulher solteira, CCC e P de Pilares, quando o pagode não era gênero de música. As gravadoras ouviram a palavra pagode e começaram a mostrar como se fosse um movimento, um movimento da turma do pagode. A gente não se importava com isso, mas depois voltamos a não ter o rock de pagode, porque surgiram as bandas com alta sonoridade, que, para mim, são uma vertente do samba. 

Bossa Nova era samba. Por que pagode não é samba? Se Bossa Nova era samba, pagode também é samba, porque são talvez uma balada dividida no ritmo de samba e Bossa Nova. Então é isso. A Jovelina também surgiu daquele disco Raça Brasileira. Jovelina também surgiu dali, daquele Pau de Sebo.

A transformação do pagode como gênero foi algo positivo ou algo negativo para a música?

Tudo o que é popular ajuda quem está na periferia. Eu não gosto de ouvir funk, mas eu tenho respeito. Por quê? Aquela rapaziada que está fazendo aquele som ali, é o som que eles escutam. Aquilo ali é o recorte do que rola na periferia. Então, quando ele começa a pegar aquilo e transformar aquele produto e botar no mercado, muita gente crítica. É igual ao pagode. O pagode começou de um jeito nos anos 1980 e hoje está de outro jeito. 

Mas o samba de raiz sofreu certas modificações também ao longo do tempo. Se você pegar aqueles sambas gravados em 1930, 1940, são muito diferentes dos sambas gravados em 1970, 1980. O samba também sofreu transformações. Mas eu penso que o samba sofreu transformações mais positivas. São letras mais elaboradas, melodias mais requintadas. O samba evoluiu. Eu acho que o pagode deu uma “involuída”. Quando você escutava o pagode dos anos 1980, 1990, o Xande de Pilares cantava de um jeito. Salgadinho cantava de outro, o outro cantava de outro. Já o pagode atual, parece que todo mundo copia todo mundo na interpretação. 

Fica a coisa muito igual. Esse tipo de música que vai dar certo, vendeu, estourou. Aí sai um monte de gente fazendo parecendo que está plagiando, tudo igualzinho, no mesmo formato. Eu não curto. Curto o pagode da rapaziada dos anos 1990, que fazia uma música simples do ponto de vista estético, de letra, mas com comunicação direto com o povão. E, quando o povo se identifica, ele abraça. Tem agora essa dificuldade de ganhar novos públicos, novos ares, porque, para fazer samba, tem que ter cabeça, tem que parar para pensar, tem que prestar atenção, porque têm muitas histórias entrelaçadas nessas histórias.

Essa maneira de comunicação do samba tradicional tem metáforas fantásticas, poesias lindas, analogias fantásticas. O samba sempre quer ser melhor. Sempre independente e com qualidade. É muita coisa linda. O samba tem isso. É essa exigência. O público que curte samba mesmo, de raiz, é exigente. Ele quer a história bem contada, ele quer a história bem amarrada, ele não quer rimar, ele não quer aquelas palavrinhas, nem todos esses jargões que já foram usados e esfregados, mas continuam usando.

O público do samba quer ser surpreendido também?

O samba, o espaço, o lugar de fala do samba, era no morro, na favela. Ele foi se espraiando pelo Rio de Janeiro e começou a chegar no Cais do Porto, na Central do Brasil, no Morro da Providência. Foi para a Mangueira. Foi espalhado, foi se espraiando, chegando em Madureira. A riqueza da melodia de Cartola Silva de Oliveira. A melodia é muito rica. Silva de Oliveira deu uma entrevista que mudou a minha vida. Eu estava escutando a Rádio MEC ou a Rádio Nacional, não me lembro direito, e ele dando uma entrevista dizendo que o compositor precisa adubar os seus ouvidos. 

A pessoa que estava entrevistando o Silva de Oliveira falou: “Como se adubam os ouvidos?”. E ele disse: “Ouvindo música clássica. Vai dormir, bota baixinho a música clássica, deixa ela entrar na sua cabeça. Você vai adubar seus ouvidos, você vai compor uma melodia muito mais rica”. A primeira coisa que eu fiz foi correr no bairro de Fátima, em um sebo, comprar um monte de fita cassete. E fui ouvir baixinho, como o mestre mandou. Realmente, fez uma diferença grande na minha melodia. Eu não preciso de instrumento para fazer a melodia. Eu só preciso do meu assovio, do meu laralaiá. Só disso.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

O programa de rádio Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 7h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é semanal e vai ao ar aos sábados a partir das 13h30 no YouTube do Brasil de Fato e TVs retransmissoras.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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