Conversa Bem Viver

‘Estamos fazendo uma colcha de retalhos’, dizem Lia de Itamaracá e Daúde sobre novo álbum

Disco conta com releituras e músicas inéditas compostas por grandes nomes do cenário cultural brasileiro

Lia de Itamaracá: 'É um trabalho para levar para o mundo inteiro'
Lia de Itamaracá: ‘É um trabalho para levar para o mundo inteiro’ | Crédito: Ravaneli Mesquita/Divulgação

Para fechar 2025 com chave de ouro e entrar em 2026 celebrando a cultura brasileira, a pernambucana Lia de Itamaracá, aos 81 anos, e a baiana Daúde, aos 64, fazem uma parceria inédita e lançaram, neste mês, o álbum Pelos Olhos do Mar.

O disco conta com releituras e com músicas inéditas compostas por grandes nomes do cenário cultural brasileiro, entre eles Emicida, Céu, Russo Passapusso e Karina Buhr.

“É um trabalho para levar para o mundo inteiro. Estamos fazendo uma colcha de retalhos, nós duas juntas. São muitos compositores, escritores. São muitas letras que eu não sabia. Eu quero ver até onde eu posso chegar. Ninguém duvida que vai. Está na metade ainda. Nós estamos no livro de Deus. Quando ele disser “parou”, parou”, comemora Lia de Itamaracá, em entrevista ao Conversa Bem Viver

É engraçado que é muito orgânica essa troca. Eu, quando recebi as músicas, o primeiro contato foi de emoção. Eu acredito que essas pessoas têm uma sensibilidade, independente de geração, de gênero, de entender o que cada artista contribui para a música brasileira organicamente”, afirma Daúde, sobre a parceria com os demais compositores. 

Leia a entrevista completa:

Brasil de Fato – Como surgiu essa parceria?

Daúde –  Eu estou muito alegre. Esse resultado me enche de esperança, de dança. A gente já tem, pelo universo, esse encontro. Pelo menos da minha parte, de interesse. Da equipe da Lia também, que já me conhecia. A gente começou a participar de um trabalho, dos shows uma da outra e tinha essa conexão etérea, universal. Isso se materializou até chegar à vontade de fazer desses encontros um projeto mais eficaz, mais longevo, que representasse nós duas em um encontro. Então, é isso. Vem de um movimento, um movimento do querer, de admiração e de respeito, e cai dentro do mar da música.

Lia de Itamaracá –  Eu estou muito feliz com esse álbum. É maravilhoso, graças a Deus. É um trabalho para levar para o mundo inteiro, junto com Daúde. Estamos fazendo uma colcha de retalhos, nós duas juntas. Recebi uma proposta muito maravilhosa: trabalhar, mudar, ver as músicas novas que tenho. Estou na minha praia trazendo Daúde também. Para mim, é maravilhoso ter contato com compositores. Esse CD vai trazer muitos compositores, escritores. As músicas, as letras, são muitas letras que eu não sabia. Estou estudando, já estudei, já gravei, mas vou continuar a estudar as músicas que tem que fazer mais shows por fora. Estou amando.

Esse trabalho foi construído envolvendo diversos outros artistas da nova geração. Isso também as empolgou?

Lia de Itamaracá – Exato. Isso para mim é sensacional, é maravilhoso. Eu estou amando esse trabalho. Eu quero ir mais além, com os shows, com esse trabalho lindo, maravilhoso, junto com Daúde. Nós duas somos uma peça geral. Tem outros compositores que a gente está jogando as músicas deles também, eles passaram para nós. Está bonito. Então, é Pelos Olhos do Mar que eu também estou perto do mar. 

Daúde, como foi receber essas novas composições, de Russo Passapusso, Emicida, Chico César, etc, com diferentes ritmos e gerações?

Daúde – É engraçado que é muito orgânica essa troca. Eu, quando recebi as músicas, o primeiro contato foi de emoção. Eu acredito que essas pessoas têm uma sensibilidade, independente de geração, de gênero, de entender o que cada artista contribui para a música brasileira organicamente. 

Eu acho que o sentimento que eu sinto por essas pessoas e acredito que elas sentem por nós também é de respeito. De respeito e perceber o quanto a gente trata a música com amor, com carinho. Isso é um dado para que eles também se motivem a fazer música para a gente, a nos dar esses presentes. 

Lia, a senhora é muito conhecida como a Rainha da Ciranda, por ser pioneira em nacionalizar esse gênero, mas também pela forma como você o revolucionou. Neste novo trabalho, tem Ciranda, mas também tem músicas fora desse ritmo. Como é gravar quando não é Ciranda? Como você recebeu esse desafio?

Lia de Itamaracá – Quando a música vem para eu estudar, é claro que sinto nervosismo, sim. Para músicas novas, eu digo: “Oh, Jesus, vamos, eu vou estudar”. Estudei, estudei, estudei. Daúde teve que vir para Itamaracá, para estudar comigo, ensaiar comigo, nós juntas, para ver como a gente ia fazer, como ia ficar. A gente martelando, martelando. Deu, gravou. Beleza. Foi bom.

Daúde, e como é o oposto, fazer esse trabalho da Ciranda? 

Daúde – Eu sempre falo e a Lia ri, mas há realmente um sentimento de eu ser adotada por ela e por toda a equipe. Eu venho de fora, mesmo eu tendo esse olhar constante por essas mestras, porque é fonte para mim também, é uma água límpida que me fortalece e me impulsiona. 

São dois sentimentos. Às vezes eu estou do lado da Lia e do lado de tudo, envolvida. Tem uma normalidade e, ao mesmo tempo, não. Eu enxergo a resistência mesmo. Eu falo a resistência, tirando da moda, dessa palavra que virou corriqueira e fácil na boca das pessoas. Eu olho para Lia e vejo realmente a figura da resistência. 

Hoje essa resistência está desembocando na visibilidade, na vitória, mas teve um caminho longo e árduo. Não quero dizer pesado, porque a palavra pesado também desclassifica todas as conquistas que se tem e que a gente está enxergando hoje, com ela com 81 anos. 

Então, é um olhar de reverência também, de enxergar os meus antepassados através dela. Eu vejo a figura da resistência na Lia. Eu desassocio da colega de palco, de estúdio, ensaio, e vem aquela coisa da realeza, da reverência.

Lia, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados aprovou um projeto que reconheceu a sua obra como uma manifestação da cultura brasileira. Como você sente o avanço do reconhecimento da Ciranda e do seu trabalho como um todo?

Lia de Itamaracá – Olhe, para mim, é mil maravilhas. A Ciranda já no mundo, o meu trabalho, essas homenagens e o reconhecimento do meu trabalho, do meu esforço, com a cultura, com a música. Estou com a consciência tranquila. Eu sigo o meu caminho. Todo o meu sonho era cantar e estou cantando. Eu queria ser atriz e já sou. Eu sou feliz. 

Daúde, tivemos recentemente a aprovação definitiva do PL da Devastação, projeto de lei que praticamente acaba com o licenciamento ambiental. O próprio nome do álbum faz  referência ao mar e é impossível não fazer uma conexão com as ameaças  da crise climática, as discussões da COP30 e uma legião de artistas buscando sensibilizar o público. As inspirações para o novo álbum também dialogam com o atual momento do Brasil?

Daúde – Eu não vou falar da coisa macro, federal, porque isso a gente vê toda hora na televisão. Eu posso falar de Itamaracá, porque eu estive lá, estive com a Lia. E eu vejo o empenho da Lia, com o nome dela e com toda a equipe, para valorizar culturalmente a ilha. 

E eu vejo um descaso nesse esforço. A ilha é uma ilha linda, com praias lindas, com um potencial turístico incrível, com uma vontade de que a cultura seja viva e preservada. Mas existe um descaso ali. Então, não é só uma coisa grande, que a gente sabe. Os pequenos polos, com pessoas que resistem, como a Lia, como o seu produtor, também ficam de fora, não são levados a sério como deveriam ser levados. 

É uma coisa micro, que não é só o macro. Nos pequenos lugares, tem pessoas com dignidade trabalhando pelo meio ambiente, pela cultura, para que as pessoas que moram ali tenham acesso a cursos, até entender também como se lida com o meio ambiente, porque isso também é educação. Então, esse descaso está em todo lugar, mas há pessoas que batalham para que as coisas melhorem.

Lia, em algum momento da sua trajetória, você pensou em sair de Itamaracá? 

Lia de Itamaracá – Itamaracá é onde eu nasci, me criei. Incentivo muito Itamaracá. Eu amo Itamaracá. Já fizeram essa pergunta a mim. Reginaldo Rossi perguntou se eu tinha vontade de sair da ilha. E eu disse a Reginaldo Rossi: “eu não tenho vontade de me deslocar da ilha”. É na ilha que eu me inspiro, é onde estão as minhas raízes, onde está a minha praia, o meu lazer. Eu nunca botei na minha cabeça querer sair de Itamaracá. E nem tenho vontade de sair de Itamaracá. Se eu morrer fora de Itamaracá, eu quero que me traga para Itamaracá.

Como foi esse encontro com Reginaldo Rossi?

Lia de Itamaracá – Ele tinha uma casa aqui e em todo final de semana vinha para Itamaracá. Quando ele chegava para Itamaracá, ele mandava me chamar na casa dele, para a gente conversar, prosar, tomar uma cervejinha. Em uma dessas conversas, ele me veio com essa proposta: “saia daí dessa ilha. Dessa ilha eu não tenho nada para lhe dar”. 

E eu disse a ele: “meu filho, Deus tem mais para me dar do que a ilha. Eu daqui não saio. Ela pode estar desarrumada, maltratada, porque depende dos gestores também.  A culpa do abandono de Itamaracá não é do compositor, é dos gestores. Os gestores deviam olhar uma ilha tão maravilhosa”. Tem ponto turístico aqui maravilhoso, que eles não sabem aproveitar, não sabem. Quer dizer que eu tenho que sair da ilha, representar a ilha fora, voltar com a ilha novamente no mesmo lugar e encontrar do mesmo jeito.

Daúde, finalmente o Brega foi reconhecido como um patrimônio, ganhando o Dia Nacional do Brega. Podemos dizer que existe relação entre o Brega  a Ciranda?

Daúde – Acho que todo mundo pode beber de tudo. O que me incomoda são os genéricos. Quando um gênero acontece é sempre de dentro para fora. Aí vem a indústria, vem a mídia, pega aquilo e faz daquilo indústria. É só isso o que me incomoda. Mas eu acho que o Brega também veio do duplo sentido, da poesia, que eu acho muito interessante. Também existe isso no forró, no coco embolado. 

Então, eu acho que todos os gêneros podem beber de outro gênero. Agora, com a Inteligência Artificial, você vê aquelas versões de música, até a música Brega,  transformadas em clássicos. Eu fico ouvindo e digo: “gente, como é que pode fazer isso?”.

Então, não existe uma fronteira para definir. O que existe é marketing. “Ah, isso não pode. Isso é um nicho. Isso tem que atingir uma idade. Isso tem que atingir um certo tipo de gente”. 

Tem coisas que são bregas e depois viram cult. O próprio Reginaldo Rossi. Tem gente que torcia o nariz para o Brega. Hoje é moderninho, você vai no show de Brega. Então, essas coisas a gente tem que ficar muito atento para não cair nessas armadilhas. A música entrelaça. Eu ouço música que eu não sei o que está falando e aquilo me toca de uma certa forma muito forte. Não tem fronteiras para nada.

Já podemos esperar uma continuidade dessa parceria?

Daúde –  Tem um caminho muito legal que esse álbum vai proporcionar. A gente já tem, contemplado pela Lei Rouanet, uma turnê pelo Nordeste, maravilhosa,  que vai abrir mais para outras cidades. Tem uma possibilidade de musical sobre a Lia, que eu quero estar envolvida, com a banda. Tem as viagens também para a Europa. Tem o meu álbum também, que pode estar junto dessa nova parceria. 

São frutos e é um passo de cada vez, porque, na maturidade, eu aprendi que a gente tem que fazer o nosso, dar o nosso sangue, mas nada garante nada. É um passo de cada vez. Eu estou muito feliz com essa parceria. A gente não imaginava que isso seria tão aceito, tão abraçado, com muito carinho, por vocês, pelo público. Quando estou em cena, é muito legal o olhar das pessoas para nós duas, é como se fosse um bloco só. Frutos muito bacanas estão vindo.
Lia de Itamaracá –  Eu quero ver até onde eu posso chegar. Ninguém duvida que vai. Está na metade ainda. Nós estamos no livro de Deus. Quando ele disser “parou”, parou.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

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Editado por: Nathallia Fonseca

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