Conversa Bem Viver

‘Nossa mensagem é unir as diferenças’, diz André Abujamra sobre os 33 anos da banda Karnak, da qual é idealizador

Compositor comenta sobre o primeiro álbum lançado pela banda em cinco anos, o Karnak mesozóico

Abujamra também é cantor, compositor, instrumentista, ator, cineasta e produtor musical, conhecido pelas composições e pela participação em trilhas sonoras de grandes sucessos, como Castelo Rá-Tim-Bum
Abujamra também é cantor, compositor, instrumentista, ator, cineasta e produtor musical, conhecido pelas composições e pela participação em trilhas sonoras de grandes sucessos, como Castelo Rá-Tim-Bum | Crédito: Paulo Rapoport

Comemorando 33 anos de história no dia 17 de dezembro, a banda paulistana Karnak lançou, recentemente, o seu primeiro álbum em cinco anos, Karnak mesozóico. O disco é baseado em uma autoficção criada pelo idealizador e produtor da banda, André Abujamra.

A narrativa é baseada na suposta descoberta de uma fita demo gravada nos primórdios do grupo, em escombros, na Alemanha. O álbum é o quarto lançado pela banda e conta com 12 músicas.

Abujamra também é cantor, compositor, instrumentista, ator, cineasta e produtor musical, conhecido pelas composições e pela participação em trilhas sonoras de grandes sucessos, como Castelo Rá-Tim-Bum. Ao Conversa Bem Viver, ele comenta sobre como surgiu a ideia do novo disco, o atual momento da Karnak, as manifestações políticas dos integrantes da banda, e o seu próximo trabalho. 

Para o artista, o que mantém o grupo firme até os dias de hoje é a capacidade de união. “O grande truque para a humanidade, é entender as diferenças. Não falo sobre as incompatibilidades, porque existem coisas incompatíveis. Um quadrado não entra em uma estrela, uma bola não entra em um triângulo. Mas a diferença une. Isso é física. Essa é a mensagem mais brutalmente verdadeira do Karnak: unir as diferenças”, destaca. 

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: Qual é a história retratada no álbum Karnak mesozóico?

André Abujamra: A história não é verdadeira, mas ela é verdadeira. O Karnak não faz 30 anos, são 33 anos, na verdade, no dia 17 de dezembro. E a banda é gigantesca. A gente não estava mais gravando disco. Aí, entrou um saxofonista novo há uns 10 anos, o Marcelo Pereira. Ele é a juventude “karnakiana” na banda. Mais jovem, toca muito bem. Ele falou: “Vamos fazer um disco novo do Karnak?”. Eu falei: “Eu não quero fazer disco novo, é muita gente. É muito chato juntar todos os velhinhos para fazer show”. Mas ele conseguiu uma grana junto com uma produtora muito legal, para gravarmos um disco. 

Ele me ligou, quando eu estava morando no Rio, e falou: “Ganhamos uma grana para fazer o disco do Karnak”. Falei: “Mas eu não quero fazer.” “Mas você tem que fazer, ganhamos o dinheiro, tem que fazer. Não é um dinheiro absurdo, mas dá para gravar o disco”. Falei: “Mas não quero compor coisa nova”. 

Aí, eu estava assistindo um filme, o Star Wars 4, que, na verdade, é o primeiro. Eu não queria fazer coisa nova do Karnak, mas vi aquele negócio e inventei: “Poxa, se o 4 é o primeiro, eu vou fazer um Karnak que não seja o primeiro”. Comecei a viajar nessa ideia. Falei para todo mundo e todo mundo gostou da ideia. 

Em dois meses, gravei e compus quase todas as músicas. Tem uma música do Luiz Macedo, que é guitarrista, tem uma música do Mano Bap que é outro guitarrista, linda. E a gente foi nessa onda de fazer um disco como se fosse um disco anti-demo do Karnak. 

Eu inventei essa história de Santa Cecília. A história é mais ou menos verdade, porque onde eu morava foi demolido mesmo. E eu perdi um monte de fita. O Maurício Pereira, dos Mulheres Negras, a minha outra banda antigamente, falava que era o Laboratório de Santa Cecília, o Buraco Negro de Santa Cecília, porque eu perdi um monte de coisa lá. Eu sou meio desorganizado com essas coisas de backup. Inventei essa história maluca. É tudo mentira, mas é com tanto amor que vira verdade.

A coisa gostosa dessa história é o Karnak sempre inventar coisas. A gente sempre inventa loucuras. A banda é uma banda muito gostosa. O Mano,  guitarrista do Karnak, fala uma coisa muito legal: “A gente é como se fosse um pássaro bem grande, um albatroz, um pássaro gordo, que é difícil de andar”. Na hora que ele vai cair do penhasco, ele abre a asa e voa tão bonito. Porque o Karnak tem duas baterias, é um estrondo. 

Nunca fomos muito bons de marketing. Mas uma coisa que está acontecendo é que a gente já foi ouvido mais de 50 mil vezes no Spotify, em três meses. Para nós, é muita coisa. Nunca fomos uma banda famosa. Talvez na época da MTV a gente tenha sido um pouco famoso. Mas somos uma banda muito querida pelo público. Tanto é que, quando tem show em São Paulo, os ingressos acabam rapidinho. Tenho muito orgulho de ter feito o Karnak existir. 33 anos de idade, é uma banda infinita. 

Vocês nunca abriram mão de se manifestar politicamente. O que os motiva nesse sentido?

Eu não sei se é coragem, mas a gente tem uma coisa muito louca. Éramos 11 integrantes. Morreu nosso cachorro, que era o único cachorro de uma banda que subiu no Pão de Açúcar. Morreu o Cabelinho, que é o Eduardo Cabelo, que era guitarrista do Sossego Leão e foi guitarrista do Karnak. Somos 10 agora, com o músico que gravou o disco, que é o James Miller, que mora em Paris.

Dez pessoas em uma banda e 33 anos. Temos uma comunidade, um amor muito grande entre nós e somos muito verdadeiros. Temos posicionamentos políticos parecidos, alguns mais, outros menos comunistas do que eu, que vi meu pai ser preso na ditadura, que vi meu pai sofrer com a ditadura

Eu tenho 60 anos, eu vi. Tem muita gente que não acredita nessa coisa e era muito triste, ainda é. O Karnak é uma banda atemporal. Então, a gente também entende as diferenças. A nossa brincadeira dentro do Karnak é entender que somos uma floresta. A coisa mais organizada que tem e a coisa mais desorganizada. Se você olhar para uma floresta, é a coisa mais desorganizada que tem, mas é a coisa mais lindamente organizada. 

Todos somos diferentes. Nenhuma plantinha de um galho de árvore é igual ao outro, nenhuma célula é igual. A gente não se posiciona falando mal, mas a gente se posiciona falando bem da diferença. Eu disse recentemente: “temos que nos unir”. Acho que a gente tem que se desunir, porque somos diferentes, e precisamos entender  que, mesmo um grupo bolsonarista ou um grupo do PT ou um grupo de heavy metal ou surfistas, têm diferenças dentro deles também. 

Então, o grande truque para a humanidade, é entender as diferenças. Não falo sobre as incompatibilidades, porque existem coisas incompatíveis. Um quadrado não entra em uma estrela, uma bola não entra em um triângulo. Mas a diferença une. Isso é física. É bom a gente entender a diferença. Essa é a mensagem mais brutalmente verdadeira do Karnak: unir as diferenças.

Qual é a diferença de compor uma trilha sonora para um filme e compor um álbum para uma banda? 

Tem muita diferença. Tem um oráculo chinês chamado I Ching. São três moedinhas que você joga, faz uma pergunta e vem os hexagramas, os simbolinhos. Eu uso muito o I Ching quando tenho algum problema na cabeça. Eu pergunto para o I Ching o que acontece. Lá, no I Ching, tem a diferença do Exército e da comunidade. O Exército é um homem forte que comanda vários homens fracos e uma comunidade é um homem flexível que comanda vários homens fortes. 

Eu aprendi isso há muito tempo. Então, quando você vai fazer a música de um filme… Carandiru, por exemplo, com o Hector Babenco. Ele é o homem flexível que tem que comandar vários homens fortes. O cinema, para mim, é a coisa mais linda do mundo, são todas as artes juntas. É o ator, é a direção de arte, é o figurinista, é o maquiador, é a luz, é o diretor de fotografia, são todas as artes reunidas. 

E eu acho que a diferença básica de quando você compõe para um filme em relação a fazer um disco autoral é que quem manda ali não é a gente, é o diretor que comanda. Eu já fiz 90 longas metragens. O talento tem a ver com o estofo, com o tempo das coisas que você vai aprendendo. Eu fui aprendendo a não ser tão egocêntrico musicalmente, porque, quando você faz uma música, você acha que você está fazendo a melhor obra de arte do mundo, e, às vezes, para o cinema, não adianta você fazer uma música linda. 

Por exemplo, um dos filmes que eu mais ganhei prêmios é o Bicho de Sete Cabeças, da Laís Bodansky, com Rodrigo Santoro. Eu estava em uma depressão profunda quando eu fiz. Eu estava no meio de uma separação. Tinha feito o Castelo Rá-Tim-Bum antes com uma orquestra maravilhosa. E, nesse filme, eu peguei pedra, eu bati em pedra, eu distorci tudo. É uma trilha muito feia. Só que ela casa muito no filme. Peguei as vozes do Arnaldo Antunes, fiz uns remix de umas coisas louquíssimas.

Se você escutar a trilha sozinha, você fala assim: “Nossa, que coisa estranha, que coisa maluca”. Mas, se você vê o filme com a música, os dois casam. Então, a diferença basicamente é você trabalhar para o todo. 

Você está na trilha sonora de A Melhor Mãe do Mundo, filme de Anna Muylaert, com Shirley Cruz e Seu Jorge, inspirado na música do Chico Buarque Geni e o Zepelim. Como foi participar dessa produção?

A Anna foi minha esposa e hoje ela é minha melhor amiga. Eu fiz a trilha sonora também do A Melhor Mãe do Mundo. É uma trilha bem louca. Não é tão contundente, mas ajuda muito ao filme. Eu conheço a Anna desde a faculdade, desde o primeiro curta-metragem dela. Nossa relação é de pura amizade e ela é uma monstra no cinema nacional, porque, além de ser roteirista, quando ela dirige, deixa muito coloquial. 

Sabe o que é coloquial? É quando você está acreditando no que aqueles atores estão fazendo. Seu Jorge é um monstro como ator, é um monstro como músico, é um monstro sagrado. É um cara maravilhoso. E esse filme está gigantesco. É um filme muito incrível. A gente está batendo cabeça, no bom sentido. Estamos mastigando esse filme para ser um grande filme. 

Eu estou muito orgulhoso de participar dessa trilha. Eu não chamo trilha sonora, eu chamo de música original. A gente fez um negócio muito louco nesse filme. Quando a Anna estava filmando, ela pediu para eu mandar a música Geni e o Zepelim do Chico, sem a voz dele. E, com a inteligência artificial, hoje, você consegue tirar uns instrumentos. Eu mandei para ela e o editor, o Edu Serrano, que é muito bom, começou a botar a música na cena sem a voz do Chico. Eu acho que esse filme realmente vai ser um estrondo. Vai ser realmente um filme secular. 

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

O programa de rádio Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 7h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é semanal e vai ao ar aos sábados a partir das 13h30 no YouTube do Brasil de Fato e TVs retransmissoras.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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