Conversa Bem Viver

‘Uma música durar 50 anos é uma bênção’, diz Hyldon, sobre ‘Na rua, na chuva, na fazenda’

Fenômeno do jazz, soul, funk e swing brasileiro celebra cinco décadas de álbum que marcou o país

O cantor e compositor Hyldon finaliza sua turnê nesta semana, no dia 17 de dezembro, no Teatro Rival Petrobras, Rio de Janeiro
O cantor e compositor Hyldon finaliza sua turnê nesta semana, no dia 17 de dezembro, no Teatro Rival Petrobras, Rio de Janeiro | Crédito: Divulgação

Comemorando 50 anos do lançamento do álbum Na rua, na chuva, fazenda, sucesso musical que embala os fones de ouvido da população brasileira até os dias de hoje, o cantor e compositor Hyldon finaliza sua turnê nesta quarta-feira (17), no Teatro Rival Petrobras, Rio de Janeiro (RJ). 

Considerado um fenômeno do jazz, soul, funk e swing brasileiro, o artista destaca que um álbum e uma música durarem cinco décadas é motivo para celebrar. 

“Gosto de música com verdade, especialmente o sertanejo antigo, que conta histórias. Muitas músicas atuais não têm história, parecem jingles feitos em escritório. Mentira tem perna curta: a música só tem vida longa quando as pessoas se identificam com a história. Hoje tenho o maior prazer em ver as pessoas cantando comigo. Antigamente, eu queria focar em músicas inéditas e estava cansado dos sucessos antigos, mas hoje agradeço por ter esses hits. Uma música durar 50 anos é uma bênção”, comenta, ao Conversa Bem Viver.

Hyldon também fala sobre como tem sido a recepção do público à turnê, como era sua relação com outros artistas, como Tim Maia, e as perspectivas para 2026, quando o seu segundo disco também completa cinco décadas.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: A turnê termina em 17 de dezembro, no Teatro Rival Petrobras, no Rio de Janeiro. Como foi a recepção do público até agora?

Hyldon: Eu estava olhando as postagens que fizemos do teatro e havia pedidos de shows no Recife, Fortaleza, etc. O Brasil é muito grande. Nós centralizamos um pouco em São Paulo. Fiz muitos shows no interior, em Bauru, Campinas, Santos e Ribeirão Preto. Voltei a Ribeirão Preto porque já tinha tocado no festival João Rock. Também fizemos shows na capital. 

Além disso, estou fazendo um filme sobre a minha vida. Os diretores são Emílio Domingos e Felipe Davi Rodrigues. Ficamos um ano e pouco filmando. Há entrevistas de pessoas que fazem parte do meu mundo musical, como Mano Brown, Arnaldo Antunes, Aline K, Di Melo e Curumin. O filme ficou muito legal. Fomos à cidade onde fui criado, no interior da Bahia, chamada Senhor do Bonfim.

Eu nasci em Salvador, mas minha mãe veio para o Rio. Fiquei com a minha avó, porque eu estava com desinterias fortes e não podia viajar. Minha avó não quis me devolver. Minha mãe, desesperada, foi para o Rio e eu fui criado no interior até os 6 ou 7 anos. Senhor do Bonfim fica perto do Rio São Francisco. Está quase na beira do rio, em uma área de agreste. Ali existe o chamado “polígono da maconha”. É onde há a maior plantação de maconha, que não conseguem erradicar, na beira do São Francisco. Mas descobriram que a região também é muito boa para a plantação de uvas e frutas. Não é só sobre maconha.

Já existe data para o lançamento do documentário sobre sua vida?

O filme já percorreu festivais, como o Festival do Rio e o Festival In-Edit, de filmes musicais inéditos. A partir deste ano, entrará na programação do Canal Curta, que é nosso parceiro. Assim, todos poderão assistir. 

O filme está muito legal. Sou suspeito para falar, mas acompanhei os diretores de perto, porque não queria mentiras; queria a verdade. Os diretores viajam muito. Por exemplo, o filme do Tim Maia tem muita coisa que não foi real. O Tim nunca teve um Camaro amarelo, como aparece no filme, e ele nunca fumou cigarro.

Como era sua relação com o Tim Maia?

Fomos amigos de bagunça e farra. Nos dávamos muito bem. O Tim era um cara que puxava a garotada, algo que eu procuro fazer hoje também. Tenho muitos afilhados musicais. Conheci o Tim no dia em que ele gravou com Elis Regina a música These Are the Songs. Ele estava muito nervoso. 

O irmão do Cassiano me levou lá. Eles falavam muito no Tim, chamavam-no de “Tim Cachorro”. Ele estava estourado com a música Não Vou Ficar, que o Roberto Carlos gravou. Como compositor, eu achava a voz dele inconfundível. Já conhecia o trabalho dele e queria muito gravar uma música com ele. Naquele dia, ele me chamou para uma salinha no estúdio e tocou Jurema. Quando ele abriu a boca, o quartinho tremeu. 

Aprendi com ele a tocar destacando os baixos no violão. Ele pediu para eu mostrar uma música e mostrei um blues chamado Gioconda. Ele disse: “Essa música é muito boa. Se você mexer na letra, eu gravo, porque com o nome Gioconda não vai vender nada”.

Mas eu não segui o conselho, porque sou radical com as minhas criações. Não importa se é por dinheiro. Tenho uma música chamada Três Éguas, um Jumento e uma Vaca. O Roberto Menescal me pediu uma música para o Emílio Santiago na época em que eu era produtor na Philips. Gravei em uma fita cassete e mandei. O Meneghetti, diretor da gravadora, disse que o Emílio gostou, mas que eu precisava mudar a letra porque ele se irritou com a palavra “jumento”. Eu não mudei, porque  música é como um filho.

Voltando à história da Gioconda e do Tim: eu estava na CBS quando o Raul Seixas veio para o Rio com os Panteras. Ele tinha ligação com o Jerry Adriani e acabou indo produzir na CBS. Ele estava produzindo o Jerry Adriani quando nos encontramos. 

O Raul estava diferente, usava até pastinha 007 e cabelo penteado. Perguntei se ele tinha interesse em alguma música minha e ele disse: “Preciso de uma música bem esquisita para ser a faixa artística do disco”. Eu respondi que tinha uma chamada Gioconda. Ele adorou o nome e a música entrou no disco do Jerry Adriani. Se eu tivesse ouvido o Tim, não teria gravado com o Jerry.

Depois disso, o Tim me chamou para compor. Fizemos I Don’t Know What to Do with Myself, que está no segundo disco dele. Ele me convidou para tocar guitarra no álbum inteiro. Estou lá em músicas como Festa de Santo Reis e Não Quero Dinheiro.

Você foi influenciado por produtores a gravar metade em inglês e metade em português, mas você era contra. Com o Tim Maia foi diferente?

O Tim sabia muito inglês, porque morou nos Estados Unidos. O filme não mostra muito esse lado musical dele lá, foca mais nas prisões. O que aconteceu comigo foi que, enquanto eu produzia na Polydor, gravei meu compacto em uma brecha de estúdio porque o artista que gravaria perdeu o avião. 

Gravei Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda ali. O André Midani, presidente da companhia, ouviu e achou maravilhoso, comparando ao nível de Primavera, do Tim Maia. Eu já preparava esse álbum há anos. Dez dias depois, o diretor Jairo Pires disse que havia um problema: Midani queria que eu gravasse metade das músicas em inglês, incluindo uma versão de Angie, dos Rolling Stones. Eu não aceitei. Naquele ano, eu era responsável por quatro ou cinco dos dez discos mais vendidos da gravadora.

Dois anos depois, liberaram o disco porque o diretor comercial não queria que eu parasse de produzir. Disseram que o sucesso de Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda foi sorte de principiante. Não tive apoio da gravadora, tive boicotes. O disco foi descoberto pelos programadores de rádio, como o Big Boy no Rio e o Fausto na Bandeirantes em São Paulo. 

Hoje isso não existe mais. Agora é o marketing que negocia o “jabá”. Gosto de música com verdade, especialmente o sertanejo antigo, que conta histórias. Muitas músicas atuais não têm história, parecem jingles feitos em escritório. Mentira tem perna curta: a música só tem vida longa quando as pessoas se identificam com a história.

Considerando os boicotes que você relata, o racismo foi um elemento que impediu sua carreira de avançar?

Nesse sentido específico, acho que não, pois havia outros artistas negros, como o próprio Tim Maia. Acho que eu não estava estruturado para encarar uma multinacional. Artistas como Gilberto Gil tinham formação acadêmica e sabiam administrar a carreira. Eu e o Cassiano não tínhamos nem o ensino médio completo. Isso faz falta na hora de negociar contratos. 

Além disso, eu era um músico de estúdio e não queria fazer shows se não fosse com uma orquestra, como no disco, que teve umas 80 pessoas. Hoje percebo o racismo estrutural em várias situações que vivi e que, na época, não identificava.

Teremos mais um ano de celebração de Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda?

No ano que vem, meu segundo disco, Deus, a Natureza e a Música, também faz 50 anos. Acho que vou fazer um pacote dos dois e continuar com o show, que é muito bom. Esse álbum tem muitas músicas que todos conhecem. 

Hoje tenho o maior prazer em ver as pessoas cantando comigo. Antigamente, eu queria focar em músicas inéditas e estava cansado dos sucessos antigos, mas hoje agradeço por ter esses hits. Uma música durar 50 anos é uma bênção.

No dia 17 de dezembro, às 19h30, espero todos no Teatro Rival. É um lugar histórico, um ponto de resistência no Rio de Janeiro. Aceitei o convite da Angela Leal e da Leandra Leal para fechar essa temporada lá. Dizemos “fechar” para as pessoas correrem e garantirem o ingresso. Para adquirir seu ingresso, clique neste link. 

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

O programa de rádio Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 7h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é semanal e vai ao ar aos sábados a partir das 13h30 no YouTube do Brasil de Fato e TVs retransmissoras.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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