No Brasil, cerca de 70% dos alimentos que chegam às mesas das famílias são fruto da agricultura familiar. Além do combate à fome, essa forma de produção também é essencial para o cuidado com o meio ambiente. É o que explica Clerison Belém, da rede Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) Nordeste de Agroecologia.
“A agricultura familiar é muito mais que produção; é uma diversidade de perspectivas ambientais, sociais e comunitárias. A agricultura familiar contribui muito com a produção de alimentos saudáveis, respeitando o meio ambiente e a forma de vida em comunidade. Isso vai contra um paradigma que o Brasil incorporou na década de 60: a metodologia da “Revolução Verde”, que é uma abordagem que traz sementes e defensivos de fora para produzir alimentos em larga escala com muitos insumos químicos”, explica, ao Conversa Bem Viver.
As Ater têm o objetivo de contribuir com a construção de conhecimentos junto aos agricultores e agricultoras. Mas a metodologia também expressa as disputas que existem entre modelos de agricultura no país.
Belém, que também é representante da sociedade civil no Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável (Condraf) argumenta que ao mesmo tempo em que existem Ater que buscam difundir as técnicas do agronegócio, existem experiências que valorizam os saberes locais e buscam fortalecer a perspectiva da agroecologia.
“O difusionismo implantado no rural brasileiro foca apenas em mercados: o agricultor compra insumos, produz e leva de volta ao mercado. Isso cria dependência, reduz a autonomia e, muitas vezes, resulta em produtos com químicos que não são agroecológicos. Nossa lógica é contrária. Fazemos o resgate de sementes tradicionais e trabalhamos com estoques hídricos e de alimentos para famílias e animais”, diferencia.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – Por que esse serviço de assistência técnica e extensão rural é estratégico para o Brasil e para o mundo hoje?
Clerison Belém – A Ater é uma política pública no Brasil construída pelo conceito da assistência técnica — o fato do técnico acompanhar as propriedades e os agricultores — e a extensão rural, que é a formação, levar os conhecimentos, a troca de experiências e as tecnologias. Ela é muito importante, principalmente para os pequenos agricultores, para a agricultura familiar. As comunidades e os agricultores podem contar com o apoio técnico que vai até suas propriedades e constrói possibilidades a partir da realidade das famílias.
Trazendo para os desafios da atualidade, a Ater que a gente vem construindo é uma Ater agroecológica. Ou seja, é uma Ater que considera e respeita o meio ambiente. As famílias têm autonomia e produzem alimentos saudáveis, tanto para seu consumo quanto para comercialização. Essa proposta vem contribuindo para criar sistemas alimentares saudáveis e autônomos, contribuindo com a segurança alimentar.
A agricultura familiar é responsável por mais de 70% dos alimentos que estão na mesa da população e, dessa forma, contribui muito com a produção de alimentos saudáveis, respeitando o meio ambiente e a forma de vida em comunidade.
Isso vai contra um paradigma que o Brasil incorporou na década de 60: a metodologia da “Revolução Verde”, que é uma abordagem que traz sementes e defensivos de fora para produzir alimentos em larga escala com muitos insumos químicos; alimentos que não são saudáveis e que impactam o ambiente, conduzindo os agroecossistemas a monoculturas.
Ao longo do tempo, perceberam-se as limitações, as contradições e o impacto que esse tipo de agricultura causa. Essa “Revolução Verde” trouxe pacotes tecnológicos que não davam nem a opção de a família escolher o que queria produzir, mas sim o que o pacote tecnológico, o técnico ou as empresas, traziam como desenvolvimento para aquela região.
A partir da agroecologia, construímos o contrário, a partir da base das comunidades. Qual o potencial dessa comunidade? Qual o potencial desse agrossistema? O que esse clima permite produzir? Nos últimos anos, isso vem sendo potencializado a partir das políticas públicas.
A Ater é fundamental para que essas políticas cheguem. O técnico torna-se um interlocutor e articulador das comunidades junto aos órgãos públicos para levar informação e política pública, fazendo com que essas comunidades sejam autônomas e tenham um processo de melhoria de vida com autonomia.
No processo convencional, voltado para o agronegócio, fala-se de um tempo mais curto para difundir uma técnica, sem troca com as famílias. Na agroecologia, luta-se por um tempo mais processual. Como o elemento do tempo diferencia uma Ater convencional de uma Ater agroecológica?
É muito importante pautar a questão do tempo. O tempo mínimo para uma família se considerar assessorada, referendado pela Lei de Ater de 2010, é de no mínimo cinco anos. Eu trago ainda o termo “assessoria” ao invés de “assistência”, porque a assessoria faz com que o agricultor seja protagonista dos processos. Você dá uma assessoria para que ele faça; não é uma assistência em que o técnico vai lá fazer pelo agricultor. Só o termo já dá uma diferença: você assessora para o agricultor ter autonomia.
No processo de assessoria, construímos três etapas. Primeiro, é conhecer: chegar no agrossistema e conhecer a família. Não estamos fazendo assessoria só para a produção. Precisamos conhecer como se dá a composição da família, o tempo de trabalho e o que cada um desenvolve dentro e fora do agroecossistema. Fazemos isso por meio de diagnósticos participativos, envolvendo a família para que ela coloque os desafios e as potencialidades locais. Essa etapa é fundamental para criar confiança entre a família e o técnico.
Além da propriedade, é preciso conhecer a comunidade: como se dão as relações sociais? Existem associações, mutirões ou práticas coletivas? O histórico das comunidades é de interação, reciprocidade, trocas e doações. Tudo isso influencia, pois não se faz uma ação isolada. Esse é outro diferencial: não pensar a família de forma isolada, pois o capitalismo quer individualizar as pessoas, mas os coletivos são mais fortes.
Depois que conhecemos essa dinâmica de vida, produção e interação, fazemos a reflexão com os técnicos e as comunidades sobre o que seria melhor para aperfeiçoar ou implantar. Nessa reflexão, são construídos projetos produtivos ou planos de desenvolvimento e investimento para que as famílias tenham um planejamento. Não é um trabalho ao acaso, é processual.
Após a reflexão, fazemos a intervenção: dar sugestões para melhorar práticas, orientações técnicas, dias de campo e atividades coletivas. Discutimos políticas públicas e fazemos a “linha do tempo”, um resgate histórico do que foi a propriedade no passado, o que é no presente e onde a família quer chegar no futuro. Todo esse processo respeita os saberes, os modos de vida e a ecologia local, construindo conhecimento em conjunto.
Às vezes, pensa-se que a Ater trabalha só a produção agrícola, mas já orientamos famílias no beneficiamento de frutas, produção de biscoitos, corte e costura e até na abertura de um comércio. Quando o técnico não domina o assunto, ele busca uma consultoria apropriada. Por isso, as organizações constroem equipes multidisciplinares com assistentes sociais, agrônomos, veterinários, pedagogos e outros perfis.
Pensando na diversidade de povos, culturas e comunidades no Brasil, por que é melhor ouvir e conhecer as histórias em vez de apenas tentar repassar técnicas?
Essa é uma estratégia metodológica que visa partir das bases e respeitar o saber local. A ideia não é impor um modelo único de produção ou de vida, porque vivemos na diversidade. Cada segmento tradicional tem um modo de vida que precisamos respeitar. Precisamos escutar o povo para que nos digam seus anseios e desejos, para construirmos juntos.
O modelo difusionista tem muita chance de dar errado, pois o técnico acha que sabe tudo e chega com ideias e projetos prontos. Esse é um dos principais gargalos hoje, inclusive no crédito. Alguns agentes de crédito chegam com projetos prontos porque acham mais fácil ou rápido de aprovar, impondo modelos que às vezes não escutam a mulher — que talvez queira um quintal produtivo com fruteiras, galinhas e horta.
Essa escuta é um dos principais elementos para que a Ater funcione e seja libertadora, não deixando o povo dependente. Respeitamos o saber local e a cultura para, a partir dessa junção, o técnico trazer o que pode melhorar ou qual técnica pode reduzir a dependência de insumos externos. O difusionismo implantado no rural brasileiro foca apenas em mercados: o agricultor compra insumos, produz e leva de volta ao mercado. Isso cria dependência, reduz a autonomia e, muitas vezes, resulta em produtos com químicos que não são agroecológicos.
Nossa lógica é contrária. Fazemos o resgate de sementes tradicionais e trabalhamos com estoques hídricos e de alimentos para famílias e animais. A construção do conhecimento é o mais importante. Queremos que, após o processo, os agricultores melhorem sua formação para tomarem suas próprias decisões em suas produções.
Como podemos exemplificar esse campo de disputas histórico, considerando que a “Revolução Verde” começou há décadas? Qual é o panorama atual da Ater como política pública frente às interferências de mercado?
Temos um cenário de mudança e resgate. Sabemos que após 2016 houve a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), que cuida da agricultura familiar. De lá para cá, houve uma desconstrução das políticas públicas por meio do esvaziamento de orçamento. A Ater foi uma das principais afetadas, com cortes em editais e o sucateamento de empresas públicas como a Emater [Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural].
Hoje, apenas 18% dos agricultores familiares dispõem do serviço de Ater, e parte dessa cobertura ainda segue o modelo antigo de transferência de pacotes tecnológicos. O governo nacional e alguns estados têm buscado outros formatos, seja por empresas públicas ou editais executados por organizações sociais. Como o Brasil tem cerca de 4 milhões de agricultores familiares e acompanhamos apenas 18%, a demanda é muito grande.
Isso gera uma disputa pelo orçamento. Existem sistemas ligados ao agronegócio, como o Senar [Serviço Nacional de Aprendizagem Rural] , vinculado à CNA [Confederação da Agricultura e Pecuária], que querem adentrar comunidades tradicionais e assentamentos para impor o modelo agroexportador e a lógica empresarial do “empreendedor rural”. Eles não reconhecem que a agricultura familiar é muito mais que produção; é uma diversidade de perspectivas ambientais, sociais e comunitárias.
Recentemente, houve um impasse porque o MDA construiu um termo de cooperação técnica com o Senar para ampliar a política. Esse plano foi feito sem consulta pública ou passagem por conselhos como o Condraf. O termo previa que o Senar acompanhasse mais de 100 mil famílias e tivesse acesso ao Cadastro da Agricultura Familiar (CAF). Isso foi recebido com estranhamento, pois o Senar não compactua com os princípios da agroecologia e traz o modelo difusionista.
Os conselhos e movimentos reagiram com cartas abertas e diálogos. O ministério entendeu que o acordo não foi bem-vindo e resolveu suspendê-lo. Isso mostra que a participação social e a escuta das organizações que constroem esse novo modelo de Ater são fundamentais. São organizações que formam a base da agricultura familiar e constroem a abordagem da agroecologia, da convivência com os biomas e da resiliência climática.
Conversa Bem Viver

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