53 ANOS DA MORTE

‘Assim como Paulo Freire, Amílcar Cabral dizia que a educação liberta o homem’, diz pesquisador

Líder do processo de independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau foi assassinado em 20 de janeiro de 1973

Amílcar Cabral
Líder do processo de independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau foi assassinado em 20 de janeiro de 1973 | Crédito: Casa Comum/Autor desconhecido

Reconhecido como herói pelo seu povo, o líder revolucionário Amílcar Cabral, que ajudou a conduzir o processo de independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau de Portugal, foi assassinado no dia 20 de janeiro de 1973.

Passados 53 anos da morte de Cabral, que também era um intelectual, poeta, agrônomo e pedagogo, o mundo segue celebrando o seu legado nas lutas pela libertação dos povos, em especial do Sul Global, contra a ordem colonial europeia e o imperialismo norte-americano. 

Diretamente de Cabo Verde, em entrevista ao Conversa Bem Viver, o sociólogo e professor Henrique Varela, resgata a história do revolucionário e destaca os principais ensinamentos deixados por ele. 

“Amílcar Cabral sempre se definia como um simples africano que queria resgatar a sua dívida para com o seu povo. Ele era um indivíduo extremamente altruísta, que buscava o bem-estar do povo. Enquanto engenheiro agrônomo, teve oportunidades de trabalhar em Portugal, mas abriu mão de tudo isso para lutar por uma causa maior, para que o povo vivesse melhor na Guiné e na África, sem o jugo colonial”, relembra Varela, que morou e estudou no Brasil entre 1996 e 2004. 

O professor destaca ainda que, ao longo de sua trajetória, Amílcar Cabral construiu relações com outros revolucionários ao redor do mundo, como o cubano Fidel Castro. Entre os brasileiros, ganha destaque a amizade que ele tinha com Paulo Freire, com quem dividia a certeza de que a educação é essencial para a transformação da realidade. 

“Ambos seguiam a linha da pedagogia da educação de excelência. Sobre a educação, Cabral dizia que ela liberta o homem. O homem só se torna livre com investimento na educação, deixando de ser escravo para ser senhor do seu destino, pensando autonomamente. Por isso, nas zonas libertadas, criava escolas e contratava professores para alfabetizar as crianças desde cedo. Ele sabia que, enquanto o povo fosse analfabeto, continuaria a ser explorado”, chama a atenção. 

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato – Amílcar Cabral nasceu no dia 12 de setembro de 1924, em Bafatá, na Guiné-Bissau, que, na época, ainda era uma colônia portuguesa. Recentemente, celebramos o centenário dele. Ele tinha pais cabo-verdianos e viveu em Cabo Verde por muito tempo. Qual é a relação dele com esses dois territórios?

Henrique Varela – Ele nasceu na Guiné-Bissau, viveu em Cabo Verde, estudou em Cabo Verde, passou a sua infância e o início da juventude aqui em Cabo Verde e depois seguiu para Portugal, onde se formou em agronomia no Instituto Superior de Agronomia de Lisboa. Após esse estudo, acabou por enveredar pela luta de libertação dos povos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, vindo a falecer exatamente em 20 de janeiro de 1973, na Guiné-Conacri.

Ele era engenheiro agrônomo, poeta e pedagogo. A princípio, Cabral acreditava que a revolução poderia ser feita pela diplomacia nos tratados com Portugal. Isso não foi possível e a revolução começou na década de 1960 com a utilização de armas.  Como foi esse processo?

Eles eram militantes armados, e não militares armados. Ele tinha essa ideia de libertar o povo e insistia muito  na educação e na frase: “nós devemos pensar com as nossas próprias cabeças”. Nas zonas libertadas da Guiné-Bissau, criou escolas onde as crianças pudessem aprender e estudar. Ele dizia que uma arma muitíssimo importante da libertação do povo é exatamente a educação. Então, ele tinha essa preocupação.

Cabo Verde conseguiu a libertação de Portugal apenas na década de 1970. Como era o Cabo Verde colônia? 

Cabo Verde tornou-se independente em 5 de julho de 1975. Estamos com 50 anos de independência. Antes da independência, segundo reza a história, o povo padecia de algumas carências. Tínhamos, por exemplo, carência na saúde e na educação. Só para ter uma ideia, antes da independência, tínhamos pouquíssimos médicos. Agora, com a independência e passados 51 anos, isso aumentou. Criaram-se postos de saúde, hospitais, liceus se proliferaram por todos os cantos, além de universidades. 

Também havia a fome que o povo padecia. Com a independência, passo a passo, a partir de 1975, Cabo Verde começou a dar os primeiros passos e hoje estamos caminhando com os nossos próprios pés na linha do desenvolvimento. É um país pequeno, com cerca de 400 mil habitantes, dividido por dez ilhas, sendo nove habitadas e uma não habitada. 

A independência foi um ganho muito grande para o país e temos governantes que, a cada momento, fizeram o que tinha de ser feito. Tivemos aqueles que iniciaram o país. Depois de 15 anos em um regime de partido único, veio a abertura política em 1990. Estamos com 35 anos de democracia, caminhando em um aprendizado permanente.

Foram 12 anos de guerra contra Portugal. Embora a revolução tenha triunfado, foram anos de sofrimento? Como foi esse período?

Aquela guerra foi travada nas matas da Guiné-Bissau, mas houve gente de Cabo Verde que participou e tombou nessa luta. Cabo Verde foi um centro pacífico. A revolução armada foi por lá. Amílcar Cabral foi assassinado na Guiné-Conacri. Ele sempre se definia como um simples africano que queria resgatar a sua dívida para com o seu povo. Ele era um indivíduo extremamente altruísta, que buscava o bem-estar do povo. 

Enquanto engenheiro agrônomo, teve oportunidades de trabalhar em Portugal, mas abriu mão de tudo isso para lutar por uma causa maior, para que o povo vivesse melhor na Guiné e na África, sem o jugo colonial. Ele queria ver essa independência, mas infelizmente morreu em 1973, antes da independência de Cabo Verde em 1975. 

Costumo dizer que, na história da humanidade, existem pessoas que enterramos e existem aquelas que semeamos. Os frutos dessa semeadura são o legado deixado. Hoje nos reunimos para falar do legado e do pensamento dele. 

No dia 20 de janeiro, aqui em Santa Catarina, onde estou, haverá uma conferência sobre a justiça social e tudo o que ele preconizava, para ver se isso está sendo colocado em prática. Quando alguém fala em “continuadores de Cabral”, deve-se ter essa veia da intelectualidade, da diplomacia, do diálogo e da competência, indo às escolas para ensinar quem foi Amílcar Cabral. 

Eu leciono em um liceu que tem o nome de Liceu Amílcar Cabral, em Santa Catarina. Costumo dizer aos alunos que é uma responsabilidade enorme. O estudante de um liceu com esse nome deve primar pela excelência, pelo diálogo e pela ética, que era o que ele defendia.

Qual era a relação dele com a América Latina, principalmente com Cuba? Quando a revolução começou, em 1963, ele recebeu apoio da União Soviética, da China e de Cuba, na figura de Fidel Castro. Eles se conheceram?

Chegaram a se conhecer, sim. Amílcar Cabral passou um tempo em Cuba, onde preparou as forças armadas. As forças armadas de Cabo Verde foram fundadas a partir do juramento que alguns militares fizeram perante Amílcar Cabral em Cuba. Havia essa relação muito forte com Cuba e com vários líderes. 

Ele chegou a ser recebido também pelo Papa Paulo VI no Vaticano e viajou muito para a União Soviética e China, sempre com a ideia de libertar o povo. Ao olhar para Amílcar Cabral, temos que ver as três dimensões do ser humano: uma vida, uma missão e uma lição. 

Ele teve uma vida curta, viveu apenas 49 anos. Assumiu a missão de libertar o povo e lutar pela sorte da Guiné e de Cabo Verde, e deixou como lição os ideais de “unidade e luta”. Ou seja, para lutar, primeiro é preciso estar unido, dialogar e ter capacidade de negociação. Com isso, é possível lutar, vencer e melhorar a sorte do povo. 

Ele sempre dizia aos companheiros que, após a luta, todos teriam que voltar para o lugar de onde tinham vindo: quem veio do campo, voltaria ao campo; quem veio das fábricas, voltaria às fábricas. Ele dizia claramente para não pensarem que teriam mansões ou carros, pois a luta era para o povo e, após o término, cada um deveria retornar às suas origens.

Paulo Freire visitou a Guiné-Bissau recém-liberta nos anos 70 e referia-se a Cabral como o “pedagogo da revolução”. Como era a relação deles?

Ambos seguiam a linha da pedagogia da educação de excelência. Cabral sempre foi brilhante no liceu e na universidade. Ele também escrevia poemas. Tem um que fala sobre a Cidade Velha e a chuva, dizendo que depois da tempestade vem a bonança e os campos se cobrem de verde. Ele tinha essa veia poeta. 

Sobre a educação, ele dizia que ela liberta o homem. O homem só se torna livre com investimento na educação, deixando de ser escravo para ser senhor do seu destino, pensando autonomamente. É aquela frase dele: “devemos pensar com as nossas próprias cabeças”. 

Ele queria incutir nos companheiros a ideia de emancipação intelectual para abrir novos horizontes através do livro e da educação. Por isso, nas zonas libertadas, criava escolas e contratava professores para alfabetizar as crianças desde cedo, pois havia uma porcentagem enorme de analfabetismo. Ele sabia que, enquanto o povo fosse analfabeto, continuaria a ser explorado. A instrução forneceria uma nova sorte ao povo.

Ele utilizou sua formação em agronomia para realizar um recenseamento agrícola na Guiné-Bissau. Isso permitiu que ele viajasse por todo o país, ouvindo as preocupações dos camponeses. Ele utilizou a profissão para traçar a estratégia de luta, identificando lideranças em cada grupo. 

Quando estava formando o PAIGC, ele já sabia quem contatar em cada região. Ouviu dos camponeses a vontade de ter o país governado pelos próprios guineenses. O legado de Amílcar Cabral que devemos seguir hoje é exatamente este: o que cada cidadão cabo-verdiano ou guineense pode fazer para perpetuar esse legado? 

Em cada frente de trabalho, o cidadão deve dar o seu máximo, trabalhando com ética e profissionalismo. Um indivíduo preguiçoso ou desonesto não tem o direito de se dizer continuador de Cabral, porque ele não era desse jeito.

Quando foi traído e morreu, ele sabia que a revolução continuaria?

Ele profetizou a própria morte. Por volta de 1972 ou 1973, quando a luta já estava quase vencida, ele dizia que ninguém de fora estragaria a luta armada. Se alguém fizesse mal, seria alguém que estava junto com ele. Foi exatamente o que aconteceu: ele acabou por ser traído pelos próprios companheiros. Ele profetizou isso, é impressionante.

Em que período o senhor esteve no Brasil? Tem vontade de voltar?

De 1996 a 2004. O Brasil é minha segunda pátria. Torço pelo Brasil na Copa do Mundo e, agora em 2026, espero que Cabo Verde também esteja lá para eu não ficar dividido. Eu sempre digo que sou o que sou graças ao tempo em que estudei e vivi no Brasil. Torço pelo Brasil e, se jogarem Brasil e Cabo Verde, direi: “ganhe quem marcar mais gols”. No primeiro tempo torço para um, no segundo para outro.

Conversa Bem Viver

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Editado por: Nathallia Fonseca

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