A vice-campeã do Carnaval 2026 do Rio de Janeiro, a escola de samba Beija-Flor de Nilópolis levou para avenida a história e o legado do Bembé do Mercado, a maior manifestação de rua do candomblé que é realizada há 136 anos na cidade de Santo Amaro, na Bahia.
O enredo tratou do sincretismo presente na manifestação de rua, da resistência negra que o Bembé apresenta. Além de mencionar figuras ilustres da cidade de Santo Amaro como Dona Canô, mãe de Maria Bethânia e Caetano Veloso.
“Essa escola de samba, Beija-Flor, veio para abrir a mente de muitas pessoas, porque tem gente que tem medo de macumba”, disse Pai Pote, babalorixá do Ilê Axé Ojú Onirê e presidente do Bembé do Mercado, em entrevista ao Conversa Bem Viver.
A manifestação ocupa as ruas da cidade todo dia 13 de maio, data que marca a abolição da escravatura no Brasil. Pai Pote ressalta, no entanto, que o Bembé não faz referência ao ato da assinatura da Lei Áurea, mas, sim, ao pós abolição.
O Bembé é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan desde 2019 e os responsáveis pela perpetuação dessa tradição buscam o reconhecimento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Confira a entrevista na íntegra
Brasil de Fato: É importante que o senhor nos explique o que é o Bembé do Mercado, que é simplesmente a maior festa de rua pública do candomblé no mundo.
Pai Pote: Pois é, o Bembé do Mercado, eu sempre falo que é realmente uma política pública para a população negra após a escravidão. O bembé significa candomblé, um candomblé de rua, o único do mundo e somente aqui na Bahia, no Recanto de Santo Amaro. Ele ficou escondido por muitos anos.
Um ano após a abolição [da escravatura], João de Obé, um africano que veio para Bahia, comemorou a assinatura da Lei Aura e também pela libertação dos negros junto com os pescadores, os capoeiristas, o Maculelê, tudo ali no Largo do Mercado. E a gente conseguiu resgatar, quando eu falo a gente, é uma comitiva de babalorixá, fazendo reunião. É o candomblé do Brasil. Nós trabalhamos junto com os capoeiristas, com os de samba de roda, com o Maculelê, o negro fugido, é uma cultura popular que tem aqui, muito importante, com dança de afro, com palestra, preparando as pessoas para conscientizar, de que o Exu não é o diabo, contra intolerância religiosa, homofobia.
Bembé hoje tem uma direção em proteger a população negra, especialmente contra o racismo que é perverso contra a gente.
Ele acontece faz 136 anos, teve três anos que não aconteceu. Aconteceu uma tragédia que foi um incêndio, em um outro ano um juiz proibiu, e é sempre assim, a população é prova disso, porque a população é quem fortalece o bembé, não só a população negra, mas a sociedade de Santo Amaro. Foram feitos estudos pela UFRB [Universidade Federal do Recôncavo da Bahia] e se viu quanto é importante esse bembé de Santo Amaro para o mundo.
Trazendo a fala do senhor, a gente conversa com muitas pessoas que debatem o fim da escravidão do Brasil e um discurso muito comum é apontar que importante não é falar do 13 de maio, mas, sim, do 14 de maio, com o intuito de provocar o que aconteceu após a escravidão, que se critica muito que embora o povo negro tenha se mobilizado para ter essa conquista histórica, o Estado brasileiro, o governo brasileiro, naquele momento, não garantiu nada para que pudesse ter algum tipo de reparação. Me parece que o Bembé do Mercado surge como essa reivindicação.
Pois é, o bembé trabalha com isso, o após a escravidão e o pós 13 de maio, porque a gente ainda luta. Cada passada de um negro é uma luta. A gente vive em luta, tem que andar de cabeça erguida, porque o racismo é perverso, não só aqui na no Recôncavo, mas na Bahia, no Brasil e no mundo. E só a gente que é preto, sabe que é o racismo, o racismo estrutural, o racismo dentro de um colégio, na rua, em um shopping. Então, bembé trabalha com isso, por isso que ele está sendo bem olhado. Tudo é ligado à população negra e não negra também. A gente vem trabalhando pela paz e pelo amor. São 65 terreiros que trabalham com essa meta, a meta da paz, de afirmação para entender que o sangue que corre na veia de um branco corre na veia de um negro. Eu sei que ainda falta muita coisa, muito reconhecimento, mas a luta da gente é importante. Sem essa luta, a gente não vai para frente.
A gente trabalha com o bembé o ano todo, porque ele não é só o candomblé, tem também os feirantes, que é a população negra, de baixa renda. A nossa questão é afirmar. A gente está criando um centro de referência, onde a gente vai afirmar a população negra.
A gente tem um casarão do século 19. E agora, colocamos no PAC. O PAC é um projeto do governo para restaurar patrimônio, e a gente quer um lugar para que a gente se afirme, para ter onde fazer nossas reuniões, nossos cursos, aulas de dança, de yorubá e palestras valorizando idosos e as crianças.
Essa escola de samba Beija-Flor, [que teve como enredo do carnaval 2026 o bembé] veio para abrir a mente de muitas pessoas, porque tem gente que tem medo de macumba. Acha que macumba é a maldade, acha que o diabo é o Exu e a gente não tem diabo, o que a gente tem é o Exu, que é o senhor da comunicação. E a gente não é cristão, a gente é de religião de matriz africana, afro-brasileira. É uma religião que sai da África para o Brasil, essa religião vem para a Bahia e a gente aqui é misturado, aqui no bembé tem o sincretismo religioso que nos fortaleceu. O bembé trabalha com a comunidade, com nossos pescadores, com as marisqueiras, com os colégios, trabalha com os cantores da cidade que valorizam também o bembé.
Como foi essa homenagem no desfile da [escola de samba] Beija-Flor. De onde partiu o convite? Falaram diretamente com o senhor para fazer essa homenagem?
Pois é, o carnavalesco foi na casa de um amigo dele, lá no Rio de Janeiro, e viu uma foto do bembé. A partir daquela foto, ele perguntou ao amigo dele o que era aquilo. Essa pessoa é oriunda daqui da cidade, é uma pessoa importante também para o Bembé, ele também é advogado e defende a gente.
Além da Beja-Flor, tiveram mais quatro escolas e chamaram [o bembé para ser homenageado], mas a gente que é negro, que vem da pobreza tá ali sofrendo com tantas traições, tanta perseguição, a gente se afasta das coisas boas por questão de medo, entendeu? Mas sobre a Beija-Flor, eu decidi fazer uma reunião com os detentores, lá no novo terreiro, que é a sede do bembé, uma reunião com 50 e poucos detentores, que são os terreiros da cidade e as pessoas da Beija-Flor explicou como seria homenagem, como seria, e todo mundo votou a favor da homenagem. Eles foram muito carinhosos com a gente, porque são pessoas historiadores e ficaram aqui quase um mês. E vieram mais de oito vezes na cidade. Não é daqueles historiadores que vêm, pesquisa, vai para casa e não dá o resultado para gente.
[Os historiadores foram] em 65 terreiros, eles entrevistaram 65 babalorixás, entrevistou o Nego Fugido, entrevistou todas as mestres, filmaram tudo, depois veio o presidente e a porta-estandarte. Agora, quase em cima do desfile, foram visitar Maria Bethânia, Caetano Veloso, para mostrar o trabalho, porque eles falaram da mãe de Bethânia e de Caetano, porque ela ajudou muito a gente, Dona Canô era uma pessoa muito boa para a gente.
Tinham pessoas da cidade que não conheciam o bembé. Tinha medo do bembé. Há 100 anos atrás, tinha uma família que não deixava os seus filhos ver o bembé, e isso tudo vem de ignorância, de uma ignorância que vem também do passado e a gente está se afirmando contra a intolerância religiosa.
E a gente ficou feliz, mesmo que [a Beija-Flor] tenha sido vice-campeã, nós ficamos felizes porque a gente sabe que a gente ganhou. E o Orixá sabe, a nossa ancestralidade sabe mais do que a gente, onde é o lugar da gente, da onde a gente veio, para onde a gente vai, onde a gente está. O importante é lutar com amor para nosso povo deixar o legado, esse legado de afirmação.
Que bom que teve esse trabalho de pesquisa tão longo, como deve ser, e realmente entender a história do Bembé do Mercado, isso é muita vontade e muita dedicação. Mas me conta, foi a primeira vez que o senhor desfilou na Sapucaí, então?
Eles fizeram essa pesquisa com muito amor, muito carinho, com muita dedicação, eles perguntavam tudo, chega a encher o saco, mas eles colocaram tudo certinho.
É a primeira vez que eu desfilei na Sapucaí, fiquei muito emocionado com a música música com o povo gritando Santo Amaro e Bembé. Até hoje eu tô emocionado, porque quando fala no bembé, fala de Santo Amaro, todo mundo da cidade fica feliz.
Eles analisaram bem, fizeram todo o percurso que a gente faz, porque a gente trabalha com sincretismo, o bembé passa na igreja a purificação, que é a matriz da cidade, a gente realmente faz o que nosso povo antigo fazia. O bembé não é uma coisa inventada, é uma afirmação que a gente tá lutando, chega de perseguição racial, chega de perseguição homofóbica, chega de perseguição contra as mulheres, chega de tudo. Aqui a gente vive numa vida de carinho, amor e o bembé é isso: o carinho, o amor e proteção, não só para a cidade, mas agora para o mundo.
E a gente precisa se organizar, a gente tá correndo para ver se a gente pega o selo [da Unesco]. A gente é tombado como um patrimônio imaterial do Brasil pelo Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] e é retomado um patrimônio da Bahia pelo IPAC.
Esses espaços são burocráticos, mas eles são importantes para dar mais firmeza para que esse patrimônio realmente perdure para sempre, ser cada vez mais admirado pelas pessoas do Brasil, e mundo afora. Mas, fiquei curioso, na opinião do senhor, que data é mais poderosa na Bahia? O 2 de fevereiro ou o 13 de maio?
Obviamente o 13 de maio, O 2 de fevereiro é mais novo do que o 13 de maio. O 13 de maio é da população negra. E além disso, o 13 de maio tá mais organizado em documento.
Eu sou formado em história, tenho pós-graduação em gestão cultural, e entendo que 2 de fevereiro precisa de ajuda.
O bembé não é folclore e também não é Carnaval. Nós fomos para o Carnaval, para a avenida, para lutar e para ter resistência para voltar mais forte, mas não que o bembé vai mudar a sua tradição. A gente quer mostrar ao povo que existe esse bembé e que ele é um compromisso com a população negra do mundo.
Fiquei aqui pensando que o Bembé do Mercado não podia ter nascido em outro lugar, senão no Recôncavo Baiano, dentro dessa Bahia rebelde, que já foi palco de tantas mobilizações, principalmente da população negra.
Pois é, o bembé resistiu em Santo Amaro. Santo Amaro é uma cidade também que era racista, ainda é racista. Santo Amaro tinha 300 quilombos. Para se ter um quilombo, teria que ter 300 escravos em cada quilombo. Você vê Manuel Faustino, da Guerra dos Búzios, é daqui. Tia Ciata daqui de Santo Amaro. A boa morte passou por aqui, mas não conseguiu ficar. Hoje a gente está tentando ficar no apogeu, que é uma reparação.
Conversa Bem Viver

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