Para quem passou a infância lendo e assistindo a série Sítio do Picapau Amarelo tem muito consolidado no imaginário a função de cada personagem criada por Monteiro Lobato. Mas há, atualmente, uma análise de que o texto e a concepção de cada membro desse sítio contém elementos de racismo, exploração de trabalho e misoginia. A proposta do Teatro da Vertigem com a Agropeça, espetáculo em cartaz no espaço Elza Soares, é reinventar esse sítio colocando o Saci, a Boneca Emília e Anastácia como protagonistas da história.
Associado a essa releitura de Sítio do Picapau Amarelo, o espetáculo traz uma segunda vertente, essa relacionada ao mundo dos rodeios, descortinando uma visão conservadora, moralista e reacionária das pessoas que constituem esse meio. Isso é o que explica Antônio Araújo, idealizador e diretor da montagem, ao Conversa Bem Viver.
A peça, que tem texto de Marcelino Freire, faz sua segunda temporada na cidade de São Paulo no Galpão Elza Soares, espaço organizado pelo Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST). Para o diretor, um dos objetivos das apresentações neste espaço é fomentar o local como território cultural. Além disso, segundo ele, a montagem estar em exibição neste espaço faz com que o trabalho ganhe outras camadas.
“O Teatro da Vertigem tem uma relação muito forte com os espaços, com a história dos espaços, com o sentido dos espaços, com a perspectiva política dos espaços. É perceptível quando estamos nos apresentando lá, o quanto o espetáculo ganha. Ganha em termos de significado e em termos de força”, relato Antônio.
O espetáculo pode ser assistido no Espaço Elza Soares até o dia 29 de março.
Agropeça
Até 29/03/2026
Sextas e sábados, às 20h; domingos, às 18h
Classificação: 16 anos
Duração: 90 minutos
Espaço Cultural Elza Soares (alameda Eduardo Prado, 474, São Paulo – SP)
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia), à venda pelo site Sympla
Confira a entrevista na íntegra
Brasil de Fato: Começa apresentando a peça. Do que se trata a Agropeça?
Antônio Araújo: O trabalho é uma criação do Teatro da Vertigem, que a gente fez em parceria com o Marcelino Freire e tem duas vertentes. Uma delas é justamente uma releitura do Sítio do Picapau Amarelo, que é uma obra importante, referência pra gente, na minha infância foi uma obra, de fato, bastante importante.
E a outra é o universo do rodeio, e o que esse universo do rodeio tem associado com elemento que a gente tinha interesse em investigar, que é a questão do conservadorismo. Dessa visão conservadora, moralista, reacionária.
Isso está associado também à questão do Sítio do Picapau Amarelo, mas, mais que isso, diz respeito a um determinado Brasil, que a gente estava querendo também olhar, de alguma forma, pensar sobre isso. E essas duas vertentes se cruzam no espetáculo.
E se cruza a partir de um mote, que está logo no início do espetáculo, onde as personagens do Sítio do Picapau Amarelo que se encontram, Pedrinho, Narizinho, Tia Nastácia, Dona Benta. E ali surge uma ideia que Pedrinho traz que é: “Vamos fazer um rodeio aqui no sítio, vamos criar um rodeio aqui no sítio com pó de pirlimpimpim”. E isso, de alguma forma, atravessa o espetáculo como um todo.
Para você, sempre foi evidente que o conto do Sítio do Picapau Amarelo tem traços complicados? Quando você conseguiu se deparar com a necessidade da gente levar isso a público para fazer uma crítica?
Não, quando eu entrei em contato eu era criança, eu li algumas das obras, porque são vários volumes, não cheguei a ler todos, e também a obra da Rede Globo, a série de TV. Naquele momento não tive essa percepção. Na verdade, essa ficha foi caindo mais tarde, na universidade, em discussões em sala de aula. Mas, na verdade, eu sinto que o grande mergulho que a gente fez foi agora para justamente fazer o espetáculo, porque o grupo se debruça na obra, se debruça no autor, e aí a gente e a gente convida pensadores, pesquisadores, a gente começa a fazer um mergulho crítico na obra Para além disso, como a gente pode repensar o sítio, à luz atual, a partir dessas nossas referências, e como a gente pode reinventar esse sítio, reimaginar esse sítio.
Tem uma fala do Saci num determinado momento do trabalho, que é quando ele diz: “Eu vou virar esse sítio do avesso”. Como virar esse sítio do avesso? Que é um pouco um desejo que o espetáculo tem.
Outro elemento importante está na figura da Emília, a boneca de pano que acaba ganhando um contorno, me parece, de uma travesti. Então, vocês também tiveram essa preocupação de trazer esse debate de gênero e sexualidade para a peça, é isso, Antônio?
Sim, tem esse jogo, com essa ideia da boneca de pano, mas essa boneca que também é associada à travesti. Nessa nossa leitura, tem três figuras que eu acho que são figuras que têm um caráter mais revolucionário.
A figura do Saci, que eu comentei, que é quem propõe, virar esse sítio do avesso. A figura da Anastácia, que vai se contrapor à dona Benta. E que num determinado momento, rompe com o sítio, e toma o sítio para si. E a figura da Emília que também vai contrapor a esse universo patriarcal, machista e que vai trazer toda essa discussão de gênero ali dentro do sítio.
Dentro da estrutura que a gente propõe, tem um locutor de rodeio, e o primeiro locutor é justamente Pedrinho, que é o dono do sítio, o herdeiro, o proprietário, branco, cis. E o microfone é tirado dele e a Anastácia que passa a fazer a locução do rodeio num segundo momento.
E o terceiro e último bloco do meio, quem faz a locução é justamente Emília e que é o bloco, onde esse sítio vai ser realmente revirado do avesso, ele vai ser desestruturado, nessa associação do Saci com a Emília. O bloco é todo fragmentado, tem ali algo da própria Emília, que é toda desconstruída e vai desconstruir o próprio sítio.
E, no final, a Dona Benta perde a propriedade do sítio, e passa para Anastácia, um pouco desse revisitar da história do sítio que a gente está propondo.
E tudo isso ganha contornos extras quando a gente olha o local que essa peça está sendo apresentada. Ela está em turnê até o final de março, dia 29 de março, no Galpão Elza Soares, que é diretamente vinculado com MST. Falar desse sítio de ponta-cabeça, falando de reforma agrária no local onde se fala da luta dos trabalhadores e trabalhadoras rurais pela terra, pela reforma agrária, tem um impacto ainda maior.
Muito curioso, porque a gente estreou o trabalho no Sesc Pompeia, e é uma percepção não só minha, mas do elenco e de toda a equipe, que é muito forte, é muito impressionante, como o trabalho ganha outras camadas com o fato de a gente estar no Galpão Elza Soares.
O Teatro da Vertigem desde o início, tem uma relação muito forte com os espaços, com a história dos espaços, com o sentido dos espaços, com a perspectiva política dos espaços. É perceptível quando estamos nos apresentando lá, o quanto o espetáculo ganha. Ganha em termos de significado e em termos de força. Outras camadas e significações se associam ali com o fato da gente estar se apresentando naquele espaço.
Todo esse período que a gente teve de ensaios, tivemos uma acolhida muito especial, muito boa assim. E também é muito perceptível para experiência do público o fato de estar vendo o espetáculo lá.
Vocês já tinham, na concepção, que o contraponto de tudo isso, desse Sítio do Picapau Amarelo, do Monteiro Lobato, desses rodeios, seria o MST?
Evidentemente que o MST é uma referência fundamental para tudo isso e para toda essa discussão, no processo aí de criação. Naquele momento lá atrás, a gente não imaginava a apresentação dentro do galpão.
A gente teve muita dificuldade de conseguir apoio para esse espetáculo, a gente quase desistiu de fazer esse espetáculo e só não desistiu porque veio uma resposta do Sesc. E a proposta era levar a peça mais para a periferia, a gente não tinha imaginado fazer no Sesc Pompeia. Veio então a proposta do Sesc Pompeia, mas o nosso desejo, e é um desejo até hoje, de poder circular com o trabalho pelo interior de São Paulo, pelo interior do Brasil. A gente queria levar justamente para arenas de rodeio, feira agropecuária, levar ele para esse espaço e rodeio.
Depois da temporada muito bacana no Sesc Pompéia, uma temporada de dois meses, lotada, a gente não conseguiu apoio para voltar com o espetáculo e nem para circular com o espetáculo. Entramos em vários editais para levar para o interior, para chamada zona agro, para levar para outras capitais do Brasil, e não conseguimos. Foi uma tristeza.
E, finalmente, a gente conseguiu a Lei de Fomento ao Teatro, e ao fazer o projeto ao fomento, foi aí que veio a ideia de fazer uma associação com o MST e apresentar o trabalho no Galpão Elza Soares, com duas perspectivas de criar essa associação do espetáculo com o MST e especificamente com o Galpão Elza Soares, mas também nessa perspectiva de fomentar esse espaço cultural que é o Elza Soares. Criar uma temporada de teatro, mais longa, dentro do espaço cultural. Essa associação é recém-estreada, mas ela é muito forte e muito feliz.
Conversa Bem Viver

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