Durante o período escolar, era uma dor para Vera Paiva, dizer que pai estava morto. Para ela, fazer isso, seria como ser cúmplice da morte dele.
Além de ser professora titular no departamento de psicologia social da Universidade de São Paulo (USP) Veroca, como ficou conhecida pelo filme ‘Ainda Estou aqui’, é filha de Rubens Paiva – deputado brasileiro torturado e assassinado pela ditadura militar em 1971- e representante da sociedade civil na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP).
Em entrevista ao programa “Conversa Bem Viver”, Vera também comentou a importância de se garantir a certidão de óbito dos desaparecidos políticos a suas famílias. Segundo ela, o filme ‘Ainda Estou Aqui’ mostra bem essa problemática. “É muito complexo o fato de você não ter o corpo. Como é que faz? Os desaparecidos têm essa condição. Você não tem o corpo, não enterrou”, diz ela.
A professora ainda comentou a homenagem do Comitê das Nações Unidas sobre Desaparecimentos Forçados da ONU ao seu pai. Usando como exemplo a cidade de Berlim, a qual descreve como um museu a céu aberto sobre seus mortos políticos, ela diz que são raros os países que implementaram uma comissão da verdade para apurar os crimes e preservar a memória deles.
Vera comentou também a conjuntura política atual que, para ela, exige um debate sobre o tema da anistia e a tentativa de captura do mecanismo por parte de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado e preso por participação na tentativa de golpe.
‘Eu acho que a gente tem que ter coragem para fazer debate e conversar com as pessoas na rua e esclarecer as fake news. Tem que enfrentar esse debate que é muito relevante para o futuro do país, porque se a gente não recupera os aprendizados com a memória, por isso que a gente diz: ‘para que não se esqueça e nunca mais aconteça’, é porque a gente acha terrível a gente entrar no modo golpe civil militar, que é o que foi de fato o golpe de 64’, apontou Vera.
Confira a entrevista completa
Brasil de Fato: Ao conversar contigo, é impossível não lembrar do filme ‘Ainda Estou Aqui’ e da festa que foi ano passado com o filme ganhando o Oscar. E não dá para acreditar que a Academia do Oscar não deu um troféu ao menos para o ‘Agente Secreto’ este ano. Eu imagino que você esteja compartilhando essa frustração.
Vera Paiva: Sim, porque o filme justamente amplia a experiência com a ditadura, que a gente espera que nunca mais aconteça, e depende da gente, porque tem gente interessada em que aconteça. [De como a ditadura] estava enraizada no cotidiano da experiência das pessoas.
O filme é muito instigante, mas é um difícil, na minha opinião – tendo vivido nos Estados Unidos e em outros lugares do mundo – para as pessoas absorverem completamente o que cada pedaço representa, cada ponta. Sobra muita ponta no filme. Tem gente que sai do filme e diz: “Mas mataram ele, mataram que horas?” Tem muita coisa muito rápida e muita coisa tipicamente não só brasileira, mas também nordestina, o que é uma maravilha.
Ele fez um grande sucesso para as pessoas que conseguem abrir o coração nesse momento difícil do mundo – que é colonizador, que é desrespeitador das diferenças religiosas, culturais e até territoriais, se a gente pensar nas guerras e nas ambições do presidente Trump – é muito significativo que [o filme] tenha impactado tanta gente fora do Brasil. Eu já achei ótimo.
O Wagner Moura, é impressionante como ele muda de cara, muda de jeito a cada cena. Ele de fato é um ator que entra nas cenas de um jeito muito interessante, importante e significativo. E é um representante de um pedaço enorme das pessoas que foram oprimidas, por exemplo, professores universitários. A pesquisa e a universidade ficaram completamente cerceadas e dificultadas no âmbito da ditadura – coisa que o Bolsonaro repetiu.
Eu não esperava honestamente que eles dessem esse prêmio para o ‘Agente Secreto’. Um filme difícil, nada hollywoodiano. Eu tive esperança na premiação para o Wagner, ele é um ator internacionalmente conhecido. Mas é isso, não se pode ganhar todo ano, ainda mais nesse âmbito de uma indústria tão poderosa e bastante internacionalizada.
Eu queria voltar para o início da tua resposta, porque é muito legal que o ‘Agente Secreto’ venha na sequência do ‘Ainda Estou Aqui’ e sejam filmes completamente diferentes em vários aspectos técnicos, mas eles têm uma parcela interessante de ponto de contato que eles conseguem abordar a ditadura de formas complementares.
Isso, é muito distinto. E também existem pernambucanos com semelhanças da nossa família. Mas estas famílias abordadas [no ‘Agente Secreto’] são de outra característica, outro extrato, outra cultura, então eu acho que ele complementa o olhar sobre as pessoas afetadas.
Pernambuco foi o segundo lugar ou o terceiro com mais mortos desaparecidos políticos. Foi muito pesada, porque tinha uma história importante de resistência com ligas camponesas, com o governador [Miguel] Arraes que era a favor da reforma agrária. Pernambuco tem uma história importante nessa direção, e pegaram pesado por lá.
E eu quero complementar que outro aspecto diferente que o filme aborda em relação ao ‘Ainda Estou Aqui’, é que ele traz uma perspectiva de uma pessoa, o Marcelo, que não é uma pessoa militante
É isso que [mostra] o quanto a ditadura pegou todo mundo. Mesmo a minha família não estava envolvida diretamente, estava sendo apoio aos militantes, coisa que a aparece também de uma outra forma no filme. Meu pai fazia a ponte com os refugiados que estavam fora do Brasil. No Chile, na Europa, pessoas que estavam exiladas na Inglaterra, em Paris. Eu encontrei um monte de gente quando estava lá, antes de voltar para o Brasil, logo depois que ele foi preso. Essas cartas não podiam circular pelo correio, o correio era censurado, então circulavam de mão em mão.
O Comitê sobre Desaparecimentos Forçados (CED) da ONU realizou uma homenagem à família de vocês. Te parece que isso só aconteceu em virtude do filme ‘Ainda Estou Aqui’ e da repercussão que teve internacionalmente?
Não. Acho que o movimento em torno das pessoas desaparecidas no mundo é importante e esse é um. Eles me convidaram originalmente, até por conta da minha história, o contato deles foi com pessoas que trabalham nessa área, que me conhecem dessa área desde a fundação do DCE Livre da USP Alexandre Vannucchi Leme, do qual eu participei nos anos 70. Minha militância nessa área é antiga, ampliou-se para AIDS e depois Covid na área de saúde, que é um genocídio, que foi um abandono. Tinha coisas parecidas com as que a gente viveu na ditadura.
Mas de qualquer maneira eles me convidaram e eu falei: eu tenho duas irmãs morando na Europa, elas pegam um trem e estão em Genebra em duas horas. E elas representam a família tão bem quanto eu. Talvez eu apareça mais nesta pauta, mas elas são filhas da mesma mãe, do mesmo pai, participaram de movimento estudantil também, é interessante mostrar que tem outras pessoas na família além de mim.
E quando houve, aqui no no Brasil, um evento promovido pelo governo que entregou as certidões de óbito ratificadas, responsabilizando o Estado pelas mortes de Rubens Paiva e de Carlos Marighella e mostrando que não foram mortes naturais. A senhora esteve neste evento?
Meu irmão recebeu [a certidão] e eu sou da comissão que organizou isso. Quem organizou esse processo foi o Ministério dos Direitos Humanos, a Comissão Especial de Morte e Desaparecimentos Políticos está associada ao Ministério dos Direitos Humanos e eu sou da comissão. Então, a gente organizou isso. Eu trabalhei na direção de que isso acontecesse, representando a sociedade civil, E ele aconteceu aqui na Faculdade São Francisco.
Tem a possibilidade desse evento ter acontecido pela repercussão que ganhou o ‘Ainda Estou Aqui’?
Não, acho que não. Acho que esse é um movimento que nunca acabou. Ganha mais visibilidade, na imprensa, porque o tema está aquecido, mas isso aconteceria de qualquer maneira. A gente manteve a comissão funcionando mesmo no governo Bolsonaro. Eu era da comissão, minoria na comissão, porque a indicação do presidente não teve coragem de me demitir, nem eu, nem a Diva Santana, que era outra familiar na comissão. Não podia demitir o representante do Ministério Público, demitiu a presidenta, que era também do Ministério Público que é a doutora Eugênia Gonzaga, mas a gente ficou lá resistindo, porque eles tentaram encerrar os trabalhos da comissão durante o governo Bolsonaro.
Fizeram tudo, mas é lei, então você não pode simplesmente extinguir a comissão. Ela foi aprovada por uma lei no congresso. Imagina como era diferente esse congresso, no governo Fernando Henrique ainda.
Aprovou-se a necessidade de não esquecer para que nunca mais aconteça. E entregar a certidão de óbito para as familiares, especialmente aqueles que não tinham essa certidão de óbito. A minha mãe até tinha uma, no filme aparece isso. Que era essa que o Fernando Henrique autorizou, a pressão que a gente fez no governo Fernando Henrique, foi relevante.
O filme mostra bem a problemática dos familiares sem o atestado de óbito, o que isso significa. Na escola, perguntavam: “E seu pai morreu”? Era muito difícil para mim responder sim, morreu, porque era quase como se eu aceitasse e fosse cúmplice da morte dele, não sei você se entende. É muito complexo. O fato de você não ter o corpo, como é que faz? Os desaparecidos têm essa condição. Você não tem o corpo, não enterrou.
Agora a gente assume que sim, o Coronel Malhães [coronel Paulo Malhães], logo depois da [criação] da Comissão da Verdade, deu entrevista, dando duas dicas distintas de onde estaria o corpo de meu pai. Uma hora era na no mar, outra hora era enterrado. Chegaram até a fazer escavação no lugar da Parada Tijuca que ele disse que tinha enterrado. E depois ele mudou de opinião e foi assassinado um mês depois.
Então mataram o tal do Coronel que participou da cena da tortura do meu pai. Ele diz isso, que viu o meu pai ser torturado, e que viu meu pai o corpo ser enterrado. Tudo isso ele falou na comissão da verdade. A filha dele, que era médica, não tinha noção que o pai tinha participado de tudo isso.
Só para recuperar o que que significa o corpo desaparecido. Então quando me perguntavam, o que dizer? E tinha aquelas coisas maldosas, da ditadura que era assim: “Ah, fugiu com a outra mulher, tá lá em Cuba”. Esse tipo de brincadeira eu sempre escutava na escola, Só mudou quando eu entrei na USP, mataram o Alexandre Vannucchi Leme logo que eu entrei, encontrei uma turma com quem eu podia conversar, mas era tudo plena ditadura.
Então essa homenagem na ONU, é uma homenagem a esse tipo de problemática, que é universal.
E o que, para mim, foi espantoso, já que trabalhei em vários comitês internacionais, participei de coisas internacionais ao longo da minha vida nessa direção, a Espanha não fez uma comissão da verdade. Agora, anos depois da ditadura do Franco e da Guerra Civil, eles estão buscando corpos e enterrando esses corpos. Esse longo processo, na verdade, encerrou a Guerra Civil Espanhola, que foi super complexa e longa. E o que a explicação que os espanhóis me dão, é que o para conciliar o país depois da Guerra Civil, o país dividido, não dava para fazer esse tipo coisa , era impossível Rente à redemocratização, chamemos assim.Mas enfim, não é uma coisa que fácil de fazer;
Você anda por Berlim, por exemplo – eu estive lá antes e depois da queda do muro – e lá tem quatro camadas de gente desaparecida. Mas eles transformaram a cidade num museu a céu aberto de marcas de tudo quanto é tipo de massacre. São poucos países que tiveram essa coragem e condição, não são tantos assim. Então é uma questão importante da ONU estar presente.
Eu queria te ouvir sobre esse 2026, um ano de eleição extremamente emblemático, que não é um cenário muito favorável. Mas como a senhora está encarando 2026? A gente consegue se agarrar na sua esperança?
Não é esperança, tem que agarrar no debate político e fazer o debate político. Não pode fugir deles. Da ressignificação da anistia que eles estão fazendo para o Bolsonaro, que foi julgado, teve direito à defesa em várias instâncias, e foi acusado de um crime previsto na Constituição. Eles querem comparar isso com a anistia daqueles que foram presos, numa lei de exceção, ao arrepio da lei, corpos desaparecidos.
Isso não aconteceu com nenhum bolsonarista, nenhuma das pessoas que apareceram, que participaram daquela tentativa de golpe.
Eu acho que a gente tem que ter coragem para fazer debate e conversar com as pessoas na rua e esclarecer as fake news. Tem que enfrentar esse debate que é muito relevante para o futuro do país, porque se a gente não recupera os aprendizados com a memória… é por isso que a gente diz: ‘para que não se esqueça e nunca mais aconteça’. É porque a gente acha terrível entrar no modo golpe civil militar, que é o que foi de fato o golpe de 64.
Para ser de direita na política econômica, na política moral, você não precisa ser a favor de ditadura, você pode disputar eleição, como se fez durante um longo tempo e ganhar e perder. E aceitar o resultado da eleição, como fez o Lula. Erundina foi prefeita pela primeira vez, depois perdemos para um malufista, é assim a vida.
É possível ter direita e esquerda, desde que haja respeito pelos processos democráticos. Falar de anistia, debater anistia é uma oportunidade que se abre para a gente para discutir política e eleger um presidente, deputados, senadores, etc. A partir de um debate bem feito.
Conversa Bem Viver

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