Quando pensamos que já investigamos o máximo possível a obra e todas as publicações de Paulo Freire, chega um novo livro para mostrar que estamos errados e que há muito mais para nos debruçarmos sobre o patrono da nossa educação. Acabou de chegar às livrarias de todo o país a obra Paulo Freire: Meus Registros de Educador, lançada pela editora Paz e Terra.
O livro traz fichas de trabalho, anotações de ideias e relatos de campo do trabalho que ele desenvolveu ao longo de décadas, principalmente no Nordeste do país, mas também em toda a nossa América Latina.
Para apresentar mais desta publicação, Ana Maria Araújo Freire, conhecida como Dona Nita, viúva, pedagoga, doutora em educação pela PUC de São Paulo e eterna companheira de Paulo Freire, participa do Conversa Bem Viver. Nita também é Doutora Honoris Causa pela Universidade de Mato Grosso do Sul.
Brasil de Fato: Como era sua relação com Freire?
Dona Nita: Organizo parte da literatura de Paulo, pois sou do segundo casamento dele. Eu fiquei viúva e, um ano depois, Paulo também ficou viúvo; um ano após esses acontecimentos, nós nos casamos.
Existem os herdeiros naturais, que são os filhos do primeiro casamento, e existe a obra que ele escreveu a partir do nosso matrimônio. Tudo o que foi publicado a partir de nossa união está sob minha alçada. Respeito muito o que é deles, mas fico com o que Paulo produziu a partir da convivência comigo, que obviamente teve influência. Paulo era um homem que dizia: “Eu não sou autônomo, eu sou muito carente, então as minhas mulheres me influenciam”. A obra dele tem, sim, a partir do nosso casamento, algumas características que não existiam antes.
A morte de Paulo foi um abalo emocional tremendo para mim. Senti muita falta, pois vivíamos um casamento muito harmonioso, cheio de vida, convivência, sensualidade e sexualidade, além de muitas ingerências juntos diante dos problemas brasileiros. Viajávamos para todo lugar sempre juntos; raramente Paulo viajava só.
Ele dizia que não viajava mais de classe econômica para não ficar exausto e sempre insistia em levar a sua mulher. Viajamos muito e eu sempre estava ao seu lado; houve uma simbiose.
Vocês se conheceram antes de se casar e conviveram próximos por décadas até que tiveram a oportunidade de se unir?
Foi isso mesmo. Ficamos muitos anos afastados quando ele foi obrigado a se exilar. Caso contrário, o governo militar queria eliminá-lo por ser uma figura que consideravam um transtorno para o Brasil, um subversivo que não teria o direito de viver na sociedade.
O Castelo Branco, que viria a ser o primeiro presidente militar, disse a Paulo em um encontro em Angicos, durante a experiência de alfabetização: “Ouvi dizer que o senhor era subversivo, mas agora estou constatando que o senhor é mesmo um subversivo”. Paulo respondeu: “General, eu sou um subversivo da ordem. Sou contra isso e luto por uma participação maior de toda a população. Luto pela alfabetização do povo brasileiro”.
Paulo falou diretamente isso para ele em Angicos. Isso ocorreu em 1963, quando todas as autoridades do Rio Grande do Norte foram para lá após a formação da primeira turma de trabalhadores, que incluía pedreiros, marceneiros, donas de casa, prostitutas e costureiras. O governador Aluízio Alves ficou muito feliz e convidou João Goulart para a formatura.
Castelo Branco era o chefe militar na região e pediu para sentar junto a Paulo Freire. Foi nessa ocasião que ele fez aquele comentário e Paulo respondeu sem temor. Paulo falava com firmeza, sem ansiedade ou vontade de ferir, mas dizia o que entendia como verdade. Ele ia direto ao fato e falava com educação, mas falava “na cara”.
Embora Paulo Freire tenha enfrentado muitos problemas para legitimar sua pedagogia revolucionária, o que incomodou a ditadura militar e o obrigou a passar 16 anos no exílio, sabemos que esse receio contra o método dele não acabou com a redemocratização. Recentemente, quando Jair Bolsonaro foi eleito, ele proferiu palavras hostis e chegou a dizer que incineraria os livros de Paulo com um lança-chamas. Isso lhe preocupa?
Ele não fez isso porque é um fanfarrão; diz coisas que não tinha condições nem vontade real de fazer. Ele quis maltratar muito, mas as coisas funcionam por contradição. No momento em que ele hostilizava Paulo, acabava instigando a curiosidade da juventude rebelde em ler a obra. As vendas dos livros de Paulo aumentaram muito. As pessoas se perguntavam: “Que homem é esse que uns elogiam tanto e outros maltratam tanto?”. Assim, os livros circularam ainda mais.
O método de alfabetização proposto por Paulo Freire na década de 60 segue sendo utilizado? A senhora vê que o legado prático está sendo levado adiante?
Em muitos espaços e países, sim. Com a evolução da ciência e da linguagem, houve alguns acréscimos ao que Paulo fazia em Angicos, mas, na essência e no seu todo, ainda é o método Paulo Freire.
Estamos em um momento conturbado e 2026 é um ano eleitoral. Como a senhora acha que Paulo Freire estaria atuando neste momento?
Paulo estaria divulgando a pré-candidatura de Lula. Lula aproveitou muito do que Paulo conseguiu construir. Quando Paulo começou seu trabalho no Recife e no Nordeste, ele queria que todos tivessem voz e que o Brasil fosse um local de sujeitos, não de pessoas manipuladas. A influência de Paulo permitiu que os trabalhadores adquirissem voz. O trabalho dele é profundo, pois defende que “temos que falar”, como ele fez com Castelo Branco. Ele foi o responsável por tirar o povo da total submissão.
Paulo foi o primeiro a discutir o que é cultura no Brasil, explicando que, ao modificarmos a natureza — como construir um barco ou uma casa —, estamos fazendo cultura. Ele defendia que, se podemos modificar a natureza, também podemos modificar o regime político e a participação social. Ele se orgulhava, por exemplo, de ver o povo na praia. Antigamente, o povo tinha medo de frequentar a praia, que é pública. No governo de Miguel Arraes, com o Movimento de Cultura Popular, incentivou-se o povo a ocupar esses espaços e romper preconceitos.
Ele estaria levantando a bandeira pelo fim da escala 6 por 1 agora?
Ele certamente estaria no movimento, discursando e escrevendo sobre os problemas. Paulo tem seus livros publicados 50 anos depois de escritos, algo raro para qualquer autor que não seja um clássico. Pedagogia do Oprimido é considerado hoje, por universidades de língua inglesa, o terceiro livro mais estudado por estudantes; isso é fantástico para nós, brasileiros.
Paulo só escrevia quando tinha algo real para dizer, a partir da realidade vivida. Ele não conseguia escrever por mera inspiração abstrata; precisava ser provocado por um problema real.
O livro lançado agora mostra o caminho gnoseológico de Paulo. Ele parte de fichas de contatos pessoais, passa por entrevistas, fichas pedagógicas e autores que o impressionavam, até chegar às suas próprias fichas de criação. É a prova de como algo tão simples pode ser tão profundo e óbvio, algo que muitas vezes não percebemos. Paulo trabalhou sobre a realidade, a obviedade e a amorosidade, visando sempre a “gentrificação” — ele queria que fôssemos cada vez mais gente.
Conversa Bem Viver

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