Em julho do ano passado, o Brasil saiu oficialmente do Mapa da Fome, segundo relatório da FAO, a agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para Alimentação e Agricultura. O Brasil tinha entrado para as estatísticas de países com insegurança alimentar grave depois da análise dos dados coletados entre 2018 e 2020, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), cenário agravado pelos anos de pandemia.
No Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, o engenheiro agrônomo José Graziano da Silva, ex-ministro extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome da primeira gestão de Lula e ex-diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, enaltece o que chama de “conquista indiscutível” e destaca a atuação do governo Lula nesse processo.
“A pandemia não foi a responsável pelo Brasil voltar ao mapa da fome, mas agravou. A saída do Brasil em 2023 e 2024, portanto, dois anos do governo Lula apenas, é um recorde. Eu acho que não há precedentes de outro país que tenha feito esse processo numa rapidez tão grande como o Brasil”, avalia.
Graziano também destaca que o indicador da FAO não consegue decompor as regiões do país, mas indicadores nacionais mostram que 10% da população da região Nordeste e amazônica ainda passam fome, um retrato da desigualdade do país.
Além disso, José Graziano pontua que, mais do que não ter condições de comprar o alimento, há outro indicador bastante preocupante: a insegurança alimentar leve. “O Brasil tem um dos maiores indicadores da região da América Latina. É quando eu não tenho dinheiro para comprar aqueles produtos que eu consumo habitualmente e começo a substituir esses produtos por produtos mais baratos. O caso mais típico é eu deixo de comer carne e passo a consumir algum tipo de produto ultraprocessado mais barato. Essa insegurança alimentar leve é diretamente responsável pela obesidade. Brasileiro ainda se alimenta mal.”
O ex-ministro também critica a falta de estoque de alimentos, que poderia segurar os preços na situação atual global da guerra entre Irã e Estados Unidos.
“Nós perdemos a melhor arma para combater a especulação. Hoje, grande parte da alta dos alimentos, porque o Brasil não depende de importar alimentos do Irã, da faixa de Gaza ou das áreas em conflito do Oriente Médio. Isso é por especulação. É uma antecipação do aumento dos preços futuros se a guerra continuar”, explica.
“O Brasil ainda tem um longo caminho pela frente. Nós temos quase 30 milhões ainda de brasileiros em situação de insegurança alimentar moderada ou grave”, alerta.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato: Queria começar com a situação aqui do Brasil e perguntar o que a gente pode dizer desses nove meses, desde que a gente voltou a sair do mapa da fome, principalmente nesse contexto de avanço dos ultraprocessados. Eu lembro que quando a gente teve a conquista, em julho do ano passado, a gente conversou com o senhor. E o senhor estava extremamente feliz, realmente era uma vitória brasileira que era de se comemorar, mas ressaltou que era uma vitória, de certa forma, um pouco mascarada pelo avanço dos ultraprocessados e que era uma ameaça gigante que poderia botar em xeque toda essa conquista brasileira. Afinal, qual é o panorama que a gente tem hoje, professor?
José Graziano da Silva: É uma conquista indiscutível, né? Não só por sair, mas pela rapidez com que saiu. O governo Lula 3, assumindo em 2023, logo depois de uma pandemia que agravou muito a situação de fome. A pandemia não foi responsável pelo Brasil voltar ao mapa da fome. Já tinha voltado antes. As informações que nós temos mostram que lá por 2017, 2018, nós já estávamos de volta ao mapa da fome, infelizmente. Mas a pandemia agravou isso. Só não agravou mais devido ao auxílio emergencial no primeiro semestre de 2022. A saída do Brasil em 2023 e 2024, portanto, dois anos do governo Lula apenas, é um recorde. Eu acho que não há precedentes de outro país que tenha feito esse processo numa rapidez tão grande como o Brasil.
Agora, vamos entender o que significa o mapa da fome e o que significa sair do mapa da fome. Eu sempre digo que sair do mapa da fome é o começo, não é o fim. Nós temos um longo caminho pela frente. Por quê? O mapa da fome é basicamente feito com um indicador da FAO, que é a prevalência de subalimentação. A sigla em inglês é PoU, The Prevalence of Undernourishment. Isso mede, basicamente, a capacidade de alimentos disponíveis do país. Quanto tem a oferta do país versus a necessidade mínima de consumo. Então, claro, um país que é um grande exportador, um grande produtor de alimentos, leva vantagem, vamos dizer assim, ao medir esse tipo de indicador. Usar o indicador do povo é uma vantagem para o Brasil, nessa medida, frente a outros países que são importadores de alimentos.
Isso não significa que todo mundo no Brasil não está passando fome mais, que está tudo bem. Ao contrário, quando a gente pega um outro indicador, que esse é um indicador muito mais potente e é nosso, que é a escala brasileira de insegurança alimentar, que eu tive o privilégio de introduzir no IBGE em 2003, quando era ministro, e fizemos a primeira publicação em 2004 da Ibia. Os números da Ibia mais recentes, de 2024, mostram que o Brasil ainda tem um longo caminho pela frente. Nós temos quase 30 milhões ainda de brasileiros em situação de insegurança alimentar moderada ou grave.
O que significa isso? Insegurança alimentar é um outro conceito. Não é o subalimentação. Insegurança alimentar é quando eu não sei se vou ter dinheiro para comprar os alimentos que preciso. Basicamente, é isso. O dinheiro não vai dar até o fim do mês. É disso que se trata. Então, nós temos 30 milhões [de brasileiros nessa condição]. 30 milhões é um número expressivo de brasileiros. Mas pior do que esses que não têm dinheiro para comprar o alimento que conseguem, nós temos um número extraordinário de insegurança alimentar leve. É um dos maiores indicadores da região da América Latina. O que é insegurança alimentar leve? Quando eu não tenho dinheiro para comprar aqueles produtos que eu consumo habitualmente e começo a substituir esses produtos por produtos mais baratos. O caso mais típico é eu deixo de comer carne e passo a consumir salsicha, por exemplo, ou algum outro tipo de produto ultraprocessado mais barato. Essa insegurança alimentar leve é diretamente responsável pela obesidade. Eu como mal. Eu como o suficiente de proteínas e calorias, mas como mal. São produtos que não têm um valor nutritivo saudável. E o Brasil está enfrentando essa situação. Um detalhe importante é que o Brasil é muito desigual, como nós sabemos. Então, não foi todo o Brasil que saiu do mapa da fome. As regiões Nordeste e Norte não saíram. O PoU, o indicador usado pela FAO, não permite uma decomposição regional. Mas o Ibia, que é o nosso indicador, permite. E os indicativos mostram que nós temos mais de 10%. da população nordestina e da região amazônica ainda em insegurança alimentar moderada ou grave. O que significa que, se Amazonas mais nordeste fosse um país, esse país Brasil 2 não estaria fora do mapa da fome. Então, vamos ter cuidado nessa comemoração. É, sem dúvida, uma vitória, mas não é uma goleada. Não dá direito à taça. Tem muito caminho pela frente.
Tem muito caminho pela frente e é preocupante quando a gente vê que populações que tradicionalmente sempre tiveram uma segurança alimentar garantida, algo como intrínseco do modo de vida deles, que é a questão dos ribeirinhos indígenas, a gente pode dizer até os quilombolas, a formação que eles tiveram aqui no Brasil ao longo de séculos, sempre foi para o autossustento, a garantia de diversidade alimentar com riqueza, e de repente o capitalismo se desenvolve de uma maneira dentro do Brasil, o neoliberalismo nos invade de uma maneira que é que sempre tiveram autocontrole sobre conseguir garantir uma nutrição saudável, diversa, estão de repente na ponta da ameaça. Eles são divididos, isolados do Brasil entre aqueles que não conseguem ter esse suprimento. Mostra uma falência desse nosso Estado, né, Graziano? É uma situação muito alarmante.
É, Lucas, mas atenção, tem fome entre as quilombolas, os ribeirinhos, os povos indígenas, nessas regiões, não há dúvida. Mas a grande fome, tanto no Nordeste quanto na Amazônia, estão nas cidades. Por quê? Porque 80% da população nessas regiões, 75% pelo menos, foi urbanizada nos últimos 10, 20 anos. E foi urbanizada como uma fuga do rural. Foram expulsas, na verdade, por vários fatores, que não vou aqui…mas tiveram que se refugiar nas periferias das grandes cidades. São as populações de rua que nós temos hoje, são as populações das comunidades, das favelas, etc. Essa é aí onde está a fome mais difícil de combater hoje no Brasil, porque não é apenas não ter dinheiro para comer, é uma miséria. A miséria é no sentido definido de uma ausência absoluta das condições mínimas de sobrevivência. Então, não tem dinheiro para comer, não tem dinheiro para morar, não tem dinheiro para o transporte, não tem dinheiro para a saúde, não tem dinheiro para pôr os filhos na escola. Essa é a miséria de um contingente significativo dessa população urbanizada na periferia dos grandes centros urbanos no Brasil inteiro, mas sobressai na região Nordeste e Norte.
Ministro, deixa eu então seguir desenvolvendo esse ponto para o senhor nos ajudar a indicar ao que se deve esse descompasso dentro do nosso país e de repente já colocar a questão dos estoques alimentares aqui na nossa pauta, que é um assunto que o senhor sempre trata com o maior primor, sempre botando como ênfase e de fato que nós temos uma situação muito preocupante. Os estoques de alimentos, principalmente de grãos, sempre foi uma referência, um legado grande, sem dúvida, do trabalho que o senhor desenvolveu no início do século. Só para trazer uns números aqui por cima, dados da Conab. Em 2010, a gente chegou a ter mais de 5 milhões de toneladas de alimentos em estoque. Foi o auge, realmente disparado. Em 2013, a gente já foi para menos de 1 milhão de toneladas, 760 mil toneladas. Esse número foi despencando, despencando. A gente teve, em 2023, 50 mil toneladas, um número muito irrisório. E hoje a gente tem uma situação melhor, sem dúvida alguma. São 100 mil toneladas, mas muito abaixo daquele 2010, desse período. É uma situação que ainda preocupa, ministro? O que está acontecendo que o Brasil não conseguiu retomar ainda esse volume de estoques?
Muito preocupante. Principalmente nesse momento agora, que nós ainda estamos no começo dos efeitos dessa guerra do Irã e no Oriente Médio. Porque, diferentemente da guerra anterior da Ucrânia, a Ucrânia, principalmente a Crimeia, que foi invadida antes, é uma grande região produtora de alimentos, de grãos, e grande exportadora de alimentos. Então, a guerra da Ucrânia impactou imediatamente nos preços. A guerra começou no início do ano, um mês depois os preços já tinham explodido. Essa guerra, o Oriente Médio, como nós sabemos, é um importador de alimentos, não é um exportador de alimentos. Então, não impacta diretamente na disponibilidade, na oferta de alimentos no mercado internacional. Mas afeta o quê? Condições de transporte, subida do preço do petróleo e fertilizantes. O Oriente Médio é um grande produtor e distribuidor de fertilizantes para o mundo, principalmente da amônia, que é um dos fertilizantes mais usados desde o início da Revolução Verde, nós incentivamos o uso da amônia derivada do petróleo na agropecuária.
Acelera o crescimento da produção. O que vai acontecer, então? Nós estamos apenas vendo a ponta do iceberg emergir. A tendência é essa disparada de preços que nós estamos vendo agora ser persistente ao longo do tempo. Como é que faz para enfrentar isso? Se tivesse estoque, disponibilizaria os produtos em estoque para fazer um bunker, para evitar que isso explodisse. Esse é o papel dos estoques. Os estoques são uma medida preventiva. Um país que quer garantir a segurança alimentar tem que olhar para frente. Não é olhar só até o
final do mês, se eu tenho dinheiro para comprar ao final do mês. Isso é a família, o cidadão. O governo tem que olhar se eu tenho alimentos a esse preço até a próxima safra. Então, a recomendação da formação de estoques é que a gente tenha pelo menos uma safra ou uma parte significativa de uma safra, metade, um terço em estoque. E, infelizmente, o Brasil não tem. O Brasil, por um viés de uma política neoliberal, como você já disse, acha que é jogar dinheiro fora, que é perder tempo com isso. Com isso, nós perdemos a melhor arma para combater a especulação.
Hoje, grande parte da alta dos alimentos, porque o Brasil não depende de importar alimentos do Irã, da faixa de Gaza ou das áreas em conflito do Oriente Médio. Isso é por especulação. É uma antecipação do aumento dos preços futuros se a guerra continuar. Esse é o papel do intermediário, do comerciante, garantir que ele vai poder repor os seus estoques hoje com os preços. Então, ele sobe o preço antes. Isso é especulação. Esse é basicamente o mecanismo especulativo que nós estamos vivendo. A formação de estoques permitiria combater isso, ter uma estabilidade de preços maior. Infelizmente, o governo está pagando, vai pagar muito o preço nessas eleições por não ter feito estoques.
Não tem como dissociar a responsabilidade do Brasil não ter estoques nesses últimos quatro anos de retomada do governo Lula, se não do próprio governo. Houve uma decisão de outra prioridade. A gente pode dizer que foi isso.
Tem uma pequena desculpa, eu diria. Você faz estoques quando os preços estão baixos. Você não vai comprar agora que os preços estão disparando, porque você puxaria os preços ainda mais para cima. O preço está subindo, você não compra para fazer estoque. Você compra para fazer estoque quando o preço está baixando para garantir aquele preço mínimo. Nesses anos, depois de 2023, 2024 e agora 2025, em grande parte devido à quebra da produção de alimentos durante a pandemia, nós não conseguimos ter essa situação de preços em baixa. Na verdade, isso aconteceu um pouco em 2024. Durante alguns meses, houve um período de deflação, mas foi um período curto, três a quatro meses. O governo poderia ter comprado e feito estoques. Não fez, porque não tinha dinheiro em caixa da Conab para comprar alimentos para fazer estoques. Tende a pagar essa conta agora, porque não vai conseguir controlar muito a inflação.
A gente vê, então, a curto, médio prazo, mais uma vez, uma disparada do preço dos itens básicos. Essa é a expectativa para esse ano, né, ministro? Mesmo que a situação se resolva lá, necessariamente vai ter um caldo que vai fazer uma disparada desses preços.
Sem dúvida. Porque, veja bem, vamos dizer que pare a guerra hoje, que abra o porto, o Estreito de Ormuz, que os americanos deixem os navios passarem. Tem uma destruição da capacidade produtiva de petróleo, das refinarias, dos estoques de petróleo que é muito grande. Muitos dos países da região, para prevenir a possibilidade de serem bombardeados, deixaram de fazer estoques de petróleo. Simplesmente deixaram de produzir. É uma medida defensiva. E agora retomar isso não é só ligar um botão. Como a gente liga o botão de energia elétrica: “Voltou a energia”. Não é assim. É uma capacidade produtiva. Tem que extrair, refinar, colocar no navio, exportar. Até chegar aqui são meses de diferença, principalmente se as rotas todas não estiverem abertas. Então, o impacto, nós vamos começar a sentir agora, até o final de abril, entra uma entressafra, que ajuda, inclusive, a empurrar os preços para cima, e nós vamos ter esse aumento dos custos de transporte, de estocagem, que tende a empurrar os preços para cima durante um bom tempo.
Ministro, só para fechar, eu só queria pincelar mais um assunto que o senhor chegou a fazer menção e eu queria que a gente terminasse com essa mensagem importante, que é em relação aos fertilizantes, os agrotóxicos, que o senhor comentou que o Brasil também deve ser prejudicado na guerra por conta de que muito da produção desses tipos de produtos acontece nessa região. Mas eu queria também uma palavra sua sobre essa reflexão sobre como o prato brasileiro hoje está muito temperado pelos agrotóxicos…
Sem dúvida, até porque nós usamos uma série de, chamam-se defensivos, os agrotóxicos, chamados defensivos, que são proibidos em outras partes do mundo porque há suspeita de serem cancerígenos. Os herbicidas lideram isso. O principal herbicida que o Brasil usa tem suspeita de gerar câncer. E isso afeta todos os produtos que nós consumimos, indistintamente, infelizmente. Qual é o ponto? Nós precisamos de um rigor maior nessa classificação dos produtos impróprios e na fiscalização da sua importação e distribuição. Boa parte desses produtos chega por contrabando via nossas fronteiras secas, Paraguai, Bolívia e Peru. E, infelizmente, nós temos sido muito coniventes com esse contrabando, porque isso beneficia uma parte importante do setor do agronegócio. E essa conivência termina se refletindo um risco maior para a nossa saúde. O que fazer? Melhorar a capacidade da Polícia Federal de patrulhar as nossas fronteiras.

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