Cinema Nacional

Cinema é luta de classe e não adianta fingir que a gente não está na disputa, diz Gero Camilo

Ator e poeta cearense fala sobre o filme 'Papagaios' e discute necessidade de descentralizar o audiovisual no Brasil 

Gero Camilo participa da pré-estreia do filme 'Papagaio' no Cine Passeio, em Curitiba (PR)
Gero Camilo participa da pré-estreia do filme ‘Papagaio’ no Cine Passeio, em Curitiba (PR) | Crédito: Reprodução/Instagram/@aro.oito

O cinema brasileiro precisa ser cada vez mais descentralizado, e isso não se resume à direção. A leitura é de Gero Camilo, ator e poeta cearense, em participação no programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato.

“É preciso descentralizar equipes inteiras, ampliar a diversidade de profissionais na área. E, principalmente, os elencos. Durante muito tempo, mesmo diretores nordestinos preferiam trabalhar com atores do sudeste, porque os associavam à fama, como se isso desse mais legitimidade às suas obras. Romper com isso é necessário”, afirma Camilo. “Tem uma questão que não dá para ignorar: cinema é luta de classe. Não adianta tanta gente fingir que a gente não está disputando um instrumento de arte que durante muito tempo foi feito por uma elite branca e sudestina”.

Para o ator, além de políticas culturais de descentralização, o caminho para a democratização do cinema também passa por ocupar espaços. “Muitas vezes isso vem da persistência no cinema independente, da capacidade de tomar conta das próprias narrativas”, diz.

Camilo interpreta o protagonista Tunico em “Papagaios”, de Douglas Soares, atualmente em exibição em diversas salas de cinema pelo país, papel pelo qual ganhou o Kikito de melhor ator do 53º Festival de Cinema de Gramado. No programa, falou sobre o filme e o momento do cinema nacional. O ator, que também já dirigiu algumas obras audiovisuais, comentou ainda sobre as próximas produções em que está envolvido e indicou seus filmes favoritos.

Leia a entrevista completa

Brasil de Fato: Vamos começar falando do lançamento “Papagaios”. É muito curioso que o filme parece um thriller de comédia — um suspense que, ao mesmo tempo, não abre mão do humor.

Gero Camilo: O tom cômico vem muito mais de uma ironia própria da vida do que de uma linguagem explícita do riso. Ele surge da própria natureza do universo em que esse suspense é contado, o universo dos papagaios de pirata, que por si só já nos coloca numa situação meio engraçada e nos faz olhar para essas pessoas de forma não muito séria dentro de um contexto social. Então essa comicidade não é proposital como linguagem: ela é espontânea, ela emerge do universo em que esses personagens vivem.

Você já tinha refletido sobre essa figura do papagaio de pirata? Para nós, jornalistas, é algo bastante comum: vai entrevistar um deputado e lá está um papagaio de pirata. Mas essa figura tem presença no mundo da arte, do teatro, do cinema?

Não muito. Ela é muito mais comum dentro da televisão e do jornalismo. Eles aparecem em relações sociais verídicas, quase documentais, e é justamente por isso que se tornam um tanto absurdos quando vistos de fora.

A comicidade que existe em “Papagaios” vem um pouco dessa relação desconfortável que essas figuras estabelecem com o cotidiano brasileiro. Para um jornalista pode ser algo banal, mas para o público em geral não é, e por isso soa absurdo. Esse absurdo chega quase ao patético, e é daí que nasce o riso.
Mas quando a gente adentra o universo subjetivo desses papagaios de pirata da vida real, percebe que o buraco é mais embaixo. A coisa não é cômica: cada um carrega a sua própria verdade, e essa verdade é estranha, complexa, e é exatamente isso que interessa para uma ficção de suspense. Vale lembrar que “Papagaios” não é um documentário, é uma ficção. Embora use personagens da vida real, como Léo Jaime e Claudette Troiano, a essência do filme é ficcional. O Tunico parte da subjetividade de um papagaio de pirata real para adentrar outro terreno: o do absurdo e o do suspense.

Essa figura parece funcionar como uma metáfora. Na abertura, Claudette pergunta ao Tunico: “Vale tudo pela fama?”. Faço a mesma pergunta ao Gero Camilo.

Não, de maneira alguma. No caso da minha profissão, a fama é resultado de uma trajetória. Ela existe dentro de um lugar específico que é o da arte, e é vista muito mais como consequência do que como objetivo. Mas no cotidiano comum, e principalmente no universo das redes sociais, ela se amplia para outros lugares. É difícil falar de forma generalizada, porque as redes sociais criaram realidades muito distintas. Há profissionais que estão construindo seu trabalho genuinamente a partir delas. E há outros que não precisam de trajetória nenhuma para conquistar o mesmo espaço, ou até mais, e ainda assim alcançam esse reconhecimento.
Cada um que tome conta da sua trajetória, porque não sou eu quem vai dar o veredicto sobre o que é ou não é válido para se construir visibilidade. O que eu sei é que a fama não é sadia em nenhum sentido. Essa exposição exacerbada sobre o indivíduo, em qualquer área, tem consequências sérias, tanto pela responsabilidade sobre a própria imagem e sobre o que se diz, quanto pela forma como você pode ser manipulado dentro de uma estrutura que é muito maior do que você. Sem falar na saúde mental. Não tem nada pior do que viver um Big Brother sem ganhar os cinco milhões: só de sair na rua e ser reconhecido, você já precisa tomar muito cuidado em cada relação com a sociedade ao seu redor.

“Papagaios” parece querer nos colocar num debate sobre o que está acontecendo hoje, mesmo tendo uma estética de uns vinte anos atrás.

GC: É perigoso para os dois lados: tanto para quem está sendo exposto quanto para quem se projeta numa imagem construída fora da vida real.

Queria te ouvir sobre a descentralização do cinema nacional. A gente tem grandes nomes do Nordeste que sempre pautaram o cenário nacional, como Kleber Mendonça e Glauber Rocha, mas ainda existe uma concentração muito grande no Rio de Janeiro e em São Paulo. Como foi essa relação para você, sendo artista cearense? Sentiu necessidade de vir para o Sudeste?

Não. Estou aqui por um acaso, isso é resultado da vida dos meus pais. Vim para São Paulo muito criança porque minha família veio para cá. Depois voltei para Fortaleza. Lá, caiu nas minhas mãos um programa da Escola de Arte Dramática, que faz parte da USP. Mas eu não sou aquele nordestino que sonhava com o sudeste para vencer na vida, não faço parte dessa retirança. Vim porque o mundo é grande e pela minha vontade de explorar outros universos. Nem imaginava que me tornaria artista.

Sobre a descentralização do audiovisual: você falou de Glauber Rocha, de Cannes, e boa parte dessa descentralização, inclusive internacional, é obra do cinema nordestino. Desde Glauber, desde “O Pagador de Promessas”, o nosso cinema já dava a cara do Brasil para o mundo. Isso não é novidade. O Kleber é só um nome — existem muitos outros. Tem Rosemberg Cariry, tem toda uma geração de cineastas nordestinos com uma história cinematográfica muito própria.

O cinema precisa ser cada vez mais descentralizado, e isso não se resume a quem dirige. É preciso descentralizar equipes inteiras, ampliar a diversidade de profissionais na área. E, principalmente, os elencos. Durante muito tempo, mesmo diretores nordestinos preferiam trabalhar com atores do sudeste, porque os associavam à fama, como se isso desse mais legitimidade às suas obras. Romper com isso é necessário.
Mas tem uma questão que não dá para ignorar: cinema é luta de classe. Não adianta tanta gente fingir que não estamos disputando um instrumento de arte que durante muito tempo foi feito por uma elite branca e sudestina. Para que isso se torne democrático, é preciso criar políticas culturais de descentralização, e também ocupar o espaço. Muitas vezes isso vem da persistência no cinema independente, da capacidade de tomar conta das próprias narrativas.

O cinema é amplamente conhecido como negócio. A gente aprendeu cinema via Hollywood, e é muito bonito quando uma produção independente consegue te tocar de verdade. Precisamos trabalhar essa ideia nas pessoas. O público muito formado pela televisão, que era onde passava boa parte do cinema hollywoodiano, ainda carrega uma certa colonização, e por isso venera tanto o Oscar, e por isso busca de forma quase carente um reconhecimento externo vindo de Hollywood.

Minha escola nunca foi muito essa. Mesmo já tendo trabalhado em Hollywood com Tony Scott, num filme com Denzel Washington, uma experiência da qual tenho orgulho e prazer, nunca enxerguei o cinema dentro de uma caixinha, muito menos dentro da linguagem naturalista hollywoodiana. Cinema é luta de classe, e muitas vezes esse naturalismo vem carregado de um posicionamento político: o de um homem branco e elitista que olha para temas sociais de forma a amenizar qualquer visão mais crítica sobre o conteúdo. Fica fácil colocar violência, tiros e sangue — um Tarantino da vida sangrando — para não precisar entrar em questões mais profundas. Meu cinema é Glauber Rocha. A gente tem que meter a mão na ferida, destravar a questão política e ter coragem de falar sobre isso.

A partir de toda essa reflexão, você está otimista com o momento do cinema nacional?

Estou otimista com o momento do cinema nordestino. Acho que o Nordeste está levando o cinema brasileiro à frente agora, e a gente precisa cada vez mais valorizar esse cinema, fazer jus a um legado construído com muita entrega e posicionamento político e social sobre o Brasil.

Aí, sim, vou para o cinema brasileiro como um todo. E dentro dele, acho muito importante que o sudeste comece a entender que também constrói linguagem com o cinema que faz, para além do naturalismo hollywoodiano. Precisa romper com linguagens naturalistas e realistas para perceber que as narrativas são muito mais diversas e relativas do que parecem. E essa diversidade constrói linguagem. Por isso a gente tem que aprender com o cinema independente — inclusive porque esse cinema independente sudestino muitas vezes vem da periferia, e a periferia é construída por migrantes, imigrantes, pessoas que moram e vivem aqui, mas não nasceram aqui.

São muitas camadas. Não dá para falar de uma só coisa, julgar e decretar o certo e o errado. O que dá, e o que importa, é ampliar sentidos e construir linguagens. Isso é essencial para o audiovisual.

Qual foi o seu filme favorito, seja como protagonista, coadjuvante — o mais gostoso de trabalhar?

“Aldeota”, filme que eu dirigi, protagonizo e produzi junto com o Marat Descartes. É meu primeiro longa-metragem como protagonista e também como diretor; eu já havia dirigido dois filmes anteriores, um curta e um média. “Aldeota” está disponível nos streamings. Se procurarem, vão conseguir acessar, e vão entender por que ele é o filme mais importante da minha vida.

E um filme nacional ou nordestino importante que esteja em circulação agora?
Não tenho conseguido ver muita coisa porque não paro de viajar. Mas tenho um para indicar: “Pobres Diabos”, de Rosemberg Cariry, um cineasta cearense pelo qual tenho muito respeito e admiração. Gosto muito desse filme.

E os próximos passos de Gero Camilo? Já tem algo rodando?
Vou revelar duas obras que vêm por aí. A primeira é “Geni e o Zepelim”, da Anna Muylaert, com Seu Jorge e Ayla Gabriela, um filme que está para chegar. A outra é “Antártida”, do Bruno Safadi, uma produção da Rede Globo com Marina Ruy Barroso, Lázaro Ramos e André Beltrão. Um elenco maravilhoso, um filme de grandes personagens e grandes atores. Não sei ainda quando estreia. Talvez início do ano que vem, talvez ainda este ano.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

O programa de rádio Conversa Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 8h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é semanal e vai ao ar aos sábados a partir das 13h30 no YouTube do Brasil de Fato e TVs retransmissoras.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Editado por: Thaís Ferraz

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