dois mundos

‘Esquerda precisa parar de rir’, diz Caco Ciocler, que lança filme inspirado em ‘patriota do caminhão’

Longa 'Eu Não Te Ouço', com Márcio Vito, usa o meme viral de 2022 para discutir a crise de diálogo no Brasil

Caco Ciocler, diretor do filme ‘Eu Não Te Ouço’
Caco Ciocler, diretor do filme ‘Eu Não Te Ouço’ | Crédito: Reprodução/Instagram

Estreia nas salas de cinema nesta quinta-feira (14) o filme “Eu Não Te Ouço”, longa-metragem dirigido por Caco Ciocler e estrelado por Márcio Vito. A produção leva às telas a cena do “patriota do caminhão“, homem que se jogou no para-choque de um caminhão durante os bloqueios de rodovias que se seguiram à eleição presidencial de outubro de 2022, quando Lula foi eleito para seu terceiro mandato.

Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, Ciocler explicou que a ideia do filme surgiu quando o episódio, transformado em meme, deixou de ser motivo de riso. “Por que eu parei de rir desse meme? Porque eu entendi que era uma representação simbólica muito concreta de uma incapacidade que a gente estava vivenciando: a de ouvir o outro”, afirmou.

Para Ciocler, o filme não pretende oferecer respostas às questões políticas do país, mas provocar reflexões. “Esse filme é uma provocação. Eu quero que ele inaugure perguntas, que inaugure reações, que pessoas se joguem na tela, que alguém vá lá e arranque outra pessoa da tela, que as pessoas entendam que o fato de a gente não estar se ouvindo não é engraçado”, disse o diretor.

“Eu Não Te Ouço” é o terceiro longa de uma trilogia dirigida por Ciocler. Os outros dois são o documentário “Partida” (2019) e “O Melhor Lugar do Mundo é Agora” (2021).

Leia a entrevista completa

Brasil de Fato: Caco, eu quero começar te ouvindo, porque quero muito entender de onde veio a inspiração para você escolher esse fato para fazer um filme. Quando aconteceu esse episódio, você viu e pensou: “Pronto, isso rende um filme”?

Caco: Não, não foi na hora. Mas foram anos inacreditáveis. A gente vivenciou cenas e momentos inacreditáveis e esse foi mais um, que parecia ser o fim de um ciclo. Lula ganha as eleições, Bolsonaro disse que não iria aceitar, e nisso surge esse meme. Como todo brasileiro, me diverti muito com ele. Havia réplicas desse “patriota” indo para a Lua, pendurado nos mais variados tipos de coisa, e eu ria disso. Mas, num determinado momento, eu parei de rir. Lembro dessa ficha caindo: “Cara, isso não é só engraçado”.

A gente ainda estava rindo de uma coisa que, desde 2018 — quando perdemos essas eleições, digo “a gente” porque eu não votei no Bolsonaro, eu votei no Lula —, estava governando o país. Passamos por situações muito absurdas, e não era possível que a gente só risse disso. Então eu comecei a achar esse meme profundamente triste. Comecei a achá-lo profundamente trágico e comecei a perceber que estávamos num momento bastante preocupante.

Senti uma vontade muito grande de subir nesse caminhão e entrevistar essas duas figuras, porque a gente as conheceu muito pouco, foram segundos. Eu falei: “Que louco, para onde esses caras foram? O que fez esse cara subir nesse caminhão? O que fez o caminhoneiro não parar? Como essa situação se deu?” E aí eu falei: “Cara, isso é um filme”. Ele conversa com meus dois outros filmes, que misturam ficção e documentário, então eu vou fazer a subida de um documentarista hipotético nesse caminhão.

Por que eu parei de rir desse meme? Porque eu entendi que era uma representação simbólica muito concreta de uma incapacidade que a gente estava vivenciando: a de ouvir o outro. Eles, de fato, não estavam se ouvindo. De fato, havia um vidro que separava esses dois mundos, um vidro que era também espelho, que refletia essa condição que a gente vivia: a de conversar com o próprio reflexo, de não ouvir o outro, de não querer ouvi-lo, de argumentos interrompidos, de discursos mal costurados. Isso é um retrato do Brasil e também de como está o mundo num momento muito específico da humanidade. E foi assim que eu tive a certeza de que queria e que podia fazer um filme disso.

Agora quero te perguntar, Márcio: a partir de toda a sua trajetória como um dos maiores humoristas em atividade no país, que usa muito da sua arte e do seu poder teatral para fazer as pessoas rirem. Afinal, a maneira de romper esse espelho, esse vidro, essa falta de comunicação, é o humor? O humor é a melhor maneira de a gente conseguir se comunicar, ou podemos cair naquele lugar que o Caco estava trazendo: o de ficar rindo de algo que, de repente, vira uma ameaça? Como lidar com isso?

Márcio: Eu acho que existe um humor de identificação e existe um humor com uma estrutura clássica, a do discurso interrompido, da comunicação que não se completa.

O acesso ao humor neste filme vem da estrutura, das composições dos personagens, de alguma confusão que um e outro podem ter com a própria ideia. É incrível como esse espaço físico serve à discussão que o Caco propõe. E isso é uma ideia muito bem-humorada.

Eu sou fã do Apparício Torelly, o Barão de Itararé, jornalista de humor que fazia basicamente um humor de escrita, um humor planejado. Ele viveu a era do rádio e o início da televisão, do humor na TV, e nunca migrou para esses veículos. Até 1971, foi sempre alguém que pensava no humor da escrita; esse era o barato dele.

De alguma maneira, fico achando que esse humor de situação, de composição de personagens, aparece no filme com muito cuidado, com muito respeito a quem são essas pessoas. Não é um humor involuntário. O filme tem uma abordagem em que o humor o atravessa inteiro, mas permite, como você estava pontuando, o acesso a personalidades mais complexas, às tristezas das quais se pode rir. Há uma frase de Brecht que eu acho maravilhosa, e que muitas vezes é tido como um exemplo de teatro sério, que diz: “A peça da qual não se pode rir é uma peça da qual se deve rir, porque gente sem humor é ridícula”. Esse riso vem do ridículo, de quem se leva a sério, e só.

É um humor que tem um cuidado na abordagem. Não é um humor depreciativo.

Caco, você está tranquilo com a estreia do filme, ou existe um medo de que, talvez, um bolsonarista se jogue na frente da telona e o filme não possa ser exibido?

Caco: Dá vontade de pagar alguém para fazer isso. Mas eu estou muito feliz. Sou casado com uma mulher muito especial que me disse uma frase que provavelmente não é dela (ou, se for, melhor ainda): “A gente não faz um filme para dar respostas, a gente faz um filme para inaugurar perguntas”.

Esse filme é uma provocação. Eu quero que ele inaugure perguntas, que inaugure reações, que pessoas se joguem na tela, que alguém vá lá e arranque outra pessoa da tela, que as pessoas entendam que o fato de a gente não estar se ouvindo não é engraçado. Não à toa, tem uma cena no filme em que os dois param e voltam ao caminhão.

A gente está entrando num lugar onde não consegue mais abdicar desse outro que nos ameaça, desse outro que quer destruir o país em que eu acredito. E os dois lados estão alimentando essa crença. Eu não estou dizendo que há equivalência; não é um filme sobre esquerda e direita.

A gente vai continuar rindo disso, vai continuar nesse caminhão, repetindo retalhos de discurso e projetando no outro o que acha que o outro é, ou a gente vai fazer uma coisa diferente.

Acho que tem alguma coisa no resgate desse meme que está fazendo muito sentido nesse momento. As pessoas estão felizes em olhar para esse meme de um jeito que não olharam antes. Estou sentindo isso, e para mim já é um prêmio.

Márcio, como o Caco disse, não é um filme sobre esquerda ou direita, mas vocês acreditam que algum bolsonarista vai ao cinema ver o filme?

Márcio: Na pré-estreia do Rio apareceram alguns, porque são da minha turma de juventude, de infância. Tem uns amigos que vão lá torcer pelo amigo, pelo projeto. Então, acho que sim.

Caco: No documentário “Partida”, que é o meu primeiro filme, há uma comunista e um bolsonarista dentro do ônibus. Um dia, perguntei [ao bolsonarista] numa sessão: “Cara, como você se sente sendo o vilão, com as pessoas rindo de você?”. Porque foi uma sessão em que riam muito da argumentação dele. E ele me disse, muito seriamente: “Eu não sou o vilão nesse filme, sou o herói desse filme”. E ali eu entendi que a defesa que ele havia feito no filme era uma defesa que ele continuava fazendo quatro anos depois.

Márcio: Os amigos também acham isso. Durante as filmagens, o meu querido amigo Paulo, que fazia o dublê, disse: “Cara, foram coisas muito bonitas que você estava dizendo ali do lado de fora”. Ele viu o filme, a gente acabou não conversando depois, mas durante o processo de filmagem, ele se sentiu representado em certa argumentação do lado de fora do vidro. Então, se isso acontecer de novo, que bom, porque são coisas que eu também escuto. Eu não exagerei nem no pensamento de um, nem no pensamento do outro.

Caco: Eu vou te dizer uma coisa: mais do que um bolsonarista ver esse filme ou não, o meu desejo é que a esquerda veja esse filme e pare de rir. Há uma responsabilidade nossa — dizendo “nossa” no sentido da esquerda e dos progressistas — de parar de rir, parar de achar graça disso e querer conversar. A gente é da conversa, a gente é da ponte, não podemos abdicar desse desejo de construção de pontes. Eu sei que é difícil, mas a responsabilidade é nossa. Quem rompe a ponte não somos nós. Quem constrói muros é outro. Então, o meu desejo é que a gente pare de rir e diga: “Cara, temos responsabilidade nessa história”. A gente riu disso achando que era uma bobagem; essa bobagem ganhou a presidência da República em 2018 e está de volta. E a gente vai continuar rindo disso? Não. Temos uma responsabilidade histórica de construir diálogo, mesmo com quem não quer.

Parece que a permanência desse cenário, quatro anos depois, é, em parte, responsabilidade da esquerda por não ter levado a sério a questão e por ter se fechado para o diálogo?

Caco: Com certeza. E não estou fazendo uma equivalência. Eu acho que a direita aprendeu a sequestrar, inclusive, um vocabulário que era próprio da esquerda. A direita hoje fala em liberdade, liberdade de expressão, democracia, revolução, contrarrevolução, só que com o sinal invertido. Então, a gente precisa recuperar essas palavras. Não pode cair nesse meme. Não pode cair na armadilha de entrar nesse jogo em que as palavras não têm peso, em que os argumentos são mal costurados. A gente tem que retomar um discurso consistente.

Eu adoro quando as pessoas sentem falta da esquerda nesse filme. É exatamente isso. Cadê a esquerda nesse filme? Cadê a esquerda no Brasil? Cadê um argumento potente? Eu acho que esse chamamento é mais importante do que um bolsonarista ir lá e se sentir ridicularizado, porque, senão, a gente vai estar reproduzindo exatamente o que critica.

Márcio, conte como foi interpretar os dois protagonistas do filme.

Márcio: Foi um privilégio o tempo todo. E havia um medo muito grande de não dar conta, de fazer com que eles pensassem que o filme talvez devesse ter sido feito de outra maneira. Então, eu queria muito estar no melhor possível do trabalho. A gente trabalhou com muito carinho. Escrevemos durante dois anos antes de filmar.

O fato de a escolha ter recaído sobre o mesmo ator para ser o caminhoneiro e o bolsonarista me pareceu sugerir que eles são a mesma pessoa, dois brasileiros brigando por um país melhor, com ideais muito distintos, mas a mesma pessoa. Me pareceu que essa escolha de ser o mesmo ator tentando conversar com outro, e sendo impossível, teve uma intencionalidade.

Caco: Total. E não foi por falta de cachê para pagar. Importante dizer também que não estamos usando dinheiro público, porque estamos sendo acusados disso, nem para fazer, nem para lançar, para nada.

Teve até uma história que o Vitor gosta de contar: ele chegou ao set de barba e disse: “Eu posso fazer tudo como caminhoneiro, tiro a barba e a gente faz o cara de fora”. Eu falei: “Não, Vitor. Eu não quero disfarçar que é o mesmo ator”. O fato de ser o mesmo ator é um elemento do filme. É uma provocação desse espelhamento.

A gente corria o risco, se fossem dois atores diferentes, seja pelo carisma de cada um, seja por qualquer outro motivo, de acabar se identificando com um ou com o outro. Era importante que fosse o mesmo ator. O filme fala sobre isso, sobre esse espelhamento também.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

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Editado por: Thaís Ferraz

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