O Instituto Moreira Salles (IMS) de São Paulo recebe o diretor Gabriel Martins na quarta-feira (20) para uma sessão comentada de “Marte Um” (2022). No formato, o som da projeção fica baixo para dar espaço às falas do cineasta durante o filme. A curadoria é de Kleber Mendonça Filho, que também estará presente.
Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, Kleber descreve a proposta como “uma conversa íntima para quase 200 pessoas sobre ter feito o filme, sobre o processo de fazê-lo.” Para Gabriel, a sessão representa uma experiência inédita. “Sempre é legal os filmes terem várias vidas, e isso é uma coisa que nunca havia acontecido com ‘Marte Um‘”, diz.
O projeto já teve convidados como Anna Muylaert, Lucrecia Martel e Lázaro Ramos. A escolha de “Marte Um” passa por uma relação longa: Kleber acompanha a produtora Filmes de Plástico desde o curta Contagem (2010), exibido no Festival de Brasília. “Foi um filme que iniciou toda minha relação com o cinema mineiro, e de lá para cá, a produtora vem oferecendo uma série de histórias contadas a partir da cidade. Eu acho isso muito bom. Historicamente, a cidade de Contagem não fazia parte da contação de histórias no cinema brasileiro. Agora faz”, diz.
Na entrevista, Gabriel também falou sobre os elementos autobiográficos do filme, como a presença do próprio pai no elenco, a inspiração em um tio para o personagem Wellington e o universo do dos Alcoólicos Anônimos) (AA) como base para parte da trama. Os dois também falaram sobre o cinema feito fora do eixo Rio-São Paulo. “Tanto o Kleber quanto eu tivemos uma percepção sobre os nossos cinemas muito aliada a esse lugar de representatividade regional e, de alguma forma, colocar no mapa os lugares de onde a gente veio“, conta Gabriel.
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Brasil de Fato: Queria começar pedindo ao Kleber que explicasse o filme “Marte Um”, fazendo a apresentação, as vezes do diretor Gabriel Martins. Ou talvez falar mais sobre o que te levou a escolher esse filme para colocar nas sessões comentadas do IMS.
Kleber Mendonça Filho: Bom, em primeiro lugar, a sessão comentada é uma ideia de curadoria que oferece ao público uma oportunidade de estar na sala escura com o filme apresentado de uma maneira um tanto diferente, porque o som fica baixo, e fica baixo por causa da presença, que é muito importante e interessante, de quem fez o filme.
Nós já fizemos sessões com Anna Muylaert, com “Que Horas Ela Volta?”; com Lucrecia Martel, cineasta argentina, com “O Pântano”; Juliana Rojas e Marco Dutra fizeram com “As Boas Maneiras”. A última que nós fizemos foi com Lázaro Ramos e “Medida Provisória.
Todas as sessões foram lotadas, e o cineasta vai conversando. É uma conversa íntima para quase 200 pessoas sobre ter feito o filme, sobre o processo de fazê-lo.
“Marte Um” é um grande filme do Brasil contemporâneo, da produção contemporânea feita no nosso país. É um filme que fala muito da vida, da realidade, do amor de uma família. Ocorre que essa família é de Minas Gerais, o que para mim já é uma alteração de curso.
Eu tenho um ponto de vista muito do Nordeste em relação à nossa produção. Historicamente, a nossa produção sempre foi muito presente, muito forte no Rio e em São Paulo. Então, foi no Festival de Brasília, lá nos anos de 2007 ou 2008, que eu vi um curta-metragem chamado “Contagem”, que iniciou toda uma relação — a minha, com certeza — com o cinema mineiro, mas também com esse lugar geográfico chamado Contagem. E de lá para cá, a produtora Filmes de Plástico, por meio do trabalho de Gabriel, de Maurílio, de Macedo, vem oferecendo uma série de histórias contadas a partir de Contagem. Eu acho isso muito bom. Historicamente, a cidade de Contagem não fazia parte da contação de histórias no cinema brasileiro. Agora faz.
É possível hoje traçar um panorama de histórias brasileiras feitas a partir de Contagem. Eu acho que “Marte Um” é um filme muito bonito, lindo. É um filme que ganhou uma importância muito natural na cinematografia contemporânea brasileira.
E ter Gabriel na sala comentando o filme e falando dele durante toda a sua duração é um privilégio. Uma coisa muito boa para o público que vai estar presente, e a gente também vai disponibilizar publicamente essa conversa.
Brasil de Fato: Gabriel, você está nervoso? Está com medo de o Kleber começar a fazer algum apontamento?
Gabriel Martins: Jamais! Acho que tem partes do cinema que são trabalho e partes que são diversão. Essa é a parte de diversão.
A gente tem uma relação que já é maior de idade, mais de 18 anos. Então somos praticamente contemporâneos como colegas de profissão. A gente se conhece desde os tempos de curta-metragista e crítico, o que o Kleber foi e eu também sou.
Essa sessão é uma grande honra. Sempre é legal os filmes terem várias vidas, e isso é uma coisa que nunca havia acontecido com “Marte Um”. Além disso, ser feito com o Kleber torna tudo ainda mais especial.
Não necessariamente só pelo momento que o Kleber vive na carreira, que eu acho que me representa muito, e por todas essas lindas conquistas de “O Agente Secreto“, que é um filme que me representa muito, do qual eu me orgulho quase como se eu o tivesse feito.
E olha que a gente tem várias pessoas em comum na equipe e no elenco, então essa alegria também é genuína num plano pessoal. Mas acho que, para além disso, tanto o Kleber quanto eu tivemos uma percepção sobre os nossos cinemas que também foi muito aliada a esse lugar de representatividade regional e, de alguma forma, colocar no mapa os lugares de onde a gente veio. Construímos uma espécie de nova atenção sobre esses lugares, e junto com isso, somos muito cinéfilos. A gente gosta de cinema.
Inclusive somos consumidores de faixas comentadas de DVD. Nestes tempos em que a mídia física até está voltando em alguma instância, mas tem aquela que se perdeu… Esse tipo de acesso tem se tornado mais raro para o espectador. Então, certamente vão aparecer muitas coisas interessantes sobre o filme. Vai ser ótimo ouvir o Kleber, e também acho que, ao assistir o filme nessa situação, várias pequenas coisas vão me vir à memória, talvez coisas que eu nunca compartilhei publicamente. Acho incrível essa ideia, estou muito feliz de participar dela como parceiro.
Brasil de Fato: Gabriel falou de atores e atrizes que são compartilhados entre “Marte Um” e “O Agente Secreto”. Carlos Francisco é um deles.
Kleber: Nós trabalhamos juntos em “Bacurau“. Carlos Francisco faz o Damiano. Eu sempre uso o termo “me apaixonar” — quando eu me apaixonei pela ideia de trabalhar com o Carlos. Será que foi alguma coisa que vocês fizeram, Gabriel?
Gabriel: Provavelmente foi o curta “Nada”, naquele momento junto com “Rapsódia para o Homem Negro”, que também passou no Janela.
Kleber: Eu acho que foi. Eu o conhecia, ele tinha me chamado a atenção, e naturalmente ele veio no processo de casting. E aí o Carlos veio fazer “Bacurau”. Ele é excelente em “Bacurau”, mas é também uma pessoa incrível. Então, para mim, é tudo o que precisa. São pessoas incríveis trabalhando com você; ajuda bastante. O cinema é tão tenso. Você não quer ninguém difícil.
Eu escrevi cinco personagens em “O Agente Secreto” para cinco atores. Carlos foi um deles. Eu não conseguia não pensar no Carlos ao escrever o Alexandre. Wagner Moura, claro, é o início de tudo no filme.
Brasil de Fato: Gabriel, o quanto tem de caráter autobiográfico em “Marte Um”?
Gabriel: A origem da ideia vem de 2014. Então, a figura do [ex-presidente, Jair] Bolsonaro não estava exatamente no radar — isso apareceu mais na feitura do filme, que foi em 2018, e da minha vontade de situar o filme na contemporaneidade em que ele foi feito. Mas sem dúvida há vários elementos biográficos: certamente o Deivinho como sonhador, mas não necessariamente o Deivinho em conflito com o pai. Meus pais, ao contrário dos pais do Deivinho, sempre foram muito entusiastas desse meu desejo estranho, para o contexto onde eu cresci, de fazer cinema.
Mas sem dúvida, algumas histórias ao redor me inspiram muito. O Wellington foi baseado em um tio meu, que de fato foi porteiro, muito amado no prédio de classe média alta onde trabalhava, e todas essas contradições. E o sonho do Deivinho, com certeza, espelha a minha infância. Fui um garoto curioso, uma criança curiosa. O Deivinho me espelha em vários momentos, ao mesmo tempo em que se distancia de mim em outros.
Meu pai atua no filme, numa pequena cena no final, e meu pai é parte do AA, Alcoólicos Anônimos. Ele já compartilhou essa história publicamente, e isso é parte de boa parte da inspiração da história. O meu convívio com esse universo do AA é, sem dúvida, algo que trouxe completamente da minha vida — não à toa, meu pai está no filme. Além disso, o filme fala desses ciclos em relação à Copa do Mundo e à eleição; sem dúvida alguma, isso também fez parte do universo que eu estava pensando ali.
Brasil de Fato: Tem uma característica que o Gabriel trouxe agora que é muito presente em todas as produções da Filmes de Plástico, que é trazer familiares para dentro do cinema. Essa é uma característica que parece dialogar muito com os seus filmes também.
Kleber: Eu acho lindo. Você pode fazer isso de várias maneiras. A Filmes de Plástico traz pessoas muito queridas, muito amadas para os filmes. Tem o caso da mãe do André, já falecida. Rla fez três ou quatro filmes. E cria-se uma situação muito incrível: você passa a conhecer aquela pessoa. Depois eu soube que ela partiu, e foi muito estranho, porque parecia que eu a conhecia — é claro que eu a conheci, cheguei a conhecê-la —, mas o fato de eu já ter convivido com ela em histórias criou uma situação emotiva muito inusitada.
Agora que você falou, eu perdi meus pais há muitos anos, então não cheguei a colocá-los diante da câmera. Mas existe uma outra maneira de trabalhar, que é exatamente escrevê-los numa história. Às vezes não é exatamente a pessoa, mas talvez uma combinação de pessoas; talvez seja a minha mãe com uma amiga dela, ou a minha mãe com o irmão dela, resultando num personagem só, com o meu tio.
Então, a presença de pessoas queridas, amadas, sempre ronda os textos. E que lindo que, no caso de “Marte Um”, está menos como o André e mais como o Gabriel. Mas de fato, o amor, o carinho está ali presente, na escrita, nos personagens.
Brasil de Fato: Agora, Gabriel, se você tivesse que escolher um filme do Kleber para fazer uma sessão comentada, qual escolheria?
Gabriel: Nossa, boa pergunta. Daria para fazer escolhas bem óbvias, talvez a mais óbvia seria “O Agente Secreto”, embora seja o filme do Kleber de maior sucesso em tudo, em bilheteria, e mundial. Eu tenho a sensação de que, em termos de conteúdo brasileiro, nem sempre foram feitas as perguntas certas ou as mais interessantes.
O Kleber também vem sendo muito falado pelo regionalismo, sendo que a gente faz isso há mais de 10 anos. Então, tem muita coisa para se falar.
Mas eu também adoraria fazer filmes não tão comentados, como “O Crítico”, por exemplo, que eu acho um filme tão interessant. Quando eu assisti, me despertou tantas curiosidades sobre a fase jornalística do Kleber.
Ou, outra alternativa ainda mais legal: botar “Vinil Verde” em loop para ocupar o espaço de umas 1 hora e a gente ficar falando sobre ele. Talvez seja o meu filme favorito do Kleber, entre todos. É um filme que eu nunca esqueci; eu o acho um dos maiores filmes brasileiros, não só entre curtas, mas comparando com longas brasileiros. Eu tentei colocá-lo na minha lista do Globo quando me pediram, mas não aceitaram por ser curta.
Kleber: Preconceito.
Gabriel: Pois é, preconceito. Mas eu colocaria “Vinil Verde” em loop para a gente tentar esgotar ao máximo aquela obra-prima.
Kleber: Que massa. Você falou de entrevista, isso sempre acontece a cada filme. A sensação que tenho é a de que a pessoa acha que você virou a esquina e tropeçou no seu último filme, e que tudo começou ali. Na verdade, é um processo que já vem de 20 anos.
Gabriel: Eu também sinto que existe ainda uma maneira de menosprezar um cinema feito fora do eixo. Mesmo da parte de alguém muito próximo de você, essa é também uma forma de reduzir um pouco o que a gente faz a uma ideia de representatividade local.
Kleber: Já te perguntaram: “Mas Gabriel, por que Contagem de novo?”
Gabriel: Recentemente, inclusive jornalistas mineiros. Eu tenho 20 anos que faço filmes, e as pessoas acompanham o meu trabalho desde perto de 2008. Não é uma questão de filmar em Contagem ou filmar no Recife, é um dado que já vem de muito tempo. Com “Marte Um”, fiquei meses falando sobre representatividade negra. Muito legal, está ali também, mas tem várias outras coisas muito interessantes que acabaram não sendo tão perguntadas.
Brasil de Fato: Vocês vão assistir a “Dark Horse“?
Gabriel: Eu acho bizarro tanto dinheiro para terminar com o Jim Caviezel com aquele cabelo esquisito. Isso me impressiona bastante.
Kleber: Eu acho muito engraçado. Porque nos últimos 10 ou 12 anos, a direita não só extinguiu o Ministério da Cultura duas vezes, mas investiu uma quantidade enorme de violências contra toda a parte cultural do país: os artistas, os mecanismos de apoio à cultura que fazem parte da Constituição Brasileira.
E agora, o que enterra uma campanha que já seria um desastre mesmo sem essa catástrofe que aconteceu essa semana é exatamente uma tentativa de fazer um filme para ter o que eles não têm: uma narrativa de prestígio através do cinema. Nós contamos histórias porque são histórias que a gente precisa contar.
Mas eu acho que eles devem ter algum tipo de ambição de imagem, e a maneira de fazer isso é um desastre, porque está completamente fora dos padrões de trabalho honesto no audiovisual brasileiro. Os números não fazem parte da realidade da realização de um filme no Brasil.
E tenho muita curiosidade para, daqui a muitos anos, quando estiver passando na TV aberta, finalmente ver esse filme e dar uma olhada em como e qual seria o resultado narrativo e estético dessa experiência.
Mas é muito irônico, muito engraçado que tudo isso tenha resultado nisso: numa tentativa de fazer cinema sem saber fazer cinema, operando de uma maneira que me parece 100% desonesta.
Conversa Bem Viver

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