A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência global por ebola pela terceira vez, enquanto mortes por hantavírus em um cruzeiro vindo da Antártica reacenderam alertas sanitários internacionais. O infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e secretário do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), analisou os dois surtos e o cenário vacinal no Brasil em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato.
O ebola é classificado pelo especialista como doença negligenciada, com pouco estímulo à produção de antivirais e vacinas. A alta letalidade — 40% dos infectados morrem — torna urgente o investimento em prevenção e tratamento, afirma Kfouri.
A variante andina do hantavírus tem maior capacidade de transmissão entre humanos e período de incubação que pode chegar a um mês, alerta o infectologista. O longo intervalo entre a exposição e os sintomas exige que todos os passageiros do cruzeiro cumpram quarentena de seis semanas.
No caso do cruzeiro, a OMS concluiu que a transmissão partiu de uma pessoa infectada a bordo — não de roedores. A hipótese afasta o risco de surto generalizado, mas reforça a vigilância sobre a variante andina e seu potencial de contágio entre humanos.
No Brasil, Kfouri avalia que a cobertura vacinal caiu durante o governo Bolsonaro, impulsionada pela desinformação. Para o médico, famílias ficaram inseguras quanto às vacinas após serem expostas a informações falsas. “A desinformação é uma doença digitalmente transmissível e muitas vezes faz mais vítimas do que os próprios vírus e bactérias”, afirmou o especialista.
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Brasil de Fato: Pela nona vez, a OMS, Organização Mundial da Saúde, acionou emergência global em relação a mais um vírus em circulação, no caso, o ebola. Chama atenção que seja a terceira vez que a OMS aciona esse patamar de urgência por conta desse vírus. Isso ocorre porque ele muda muito rapidamente, ou podemos até levantar um sinal de negligência por parte das autoridades e dos países desenvolvidos, que não olham com a devida atenção ao que acontece no continente africano?
Sem dúvida, é uma doença que classificamos como negligenciada, ou seja, não há estímulo à produção de remédios, de drogas antivirais, nem muito incentivo à produção de vacina.
Embora já exista uma vacina contra o ebola, temos um problema localizado em poucos países. A República Democrática do Congo concentra a maior parte dos casos. E quando a doença ameaça circular em outros países, através de algumas variantes (existem quatro tipos diferentes de ebola), como está acontecendo em Uganda, país vizinho, cria-se esse alerta de uma potencial disseminação para outros locais.
Não é uma doença de transmissão respiratória, ou seja, não é tão fácil contrair o ebola: é preciso contato muito próximo. O vírus se transmite através do morcego, que é o principal reservatório, e eventualmente de humano para humano num contato mais íntimo, mais próximo, dentro de casa, às vezes até na manipulação de corpos em velórios. Portanto, o potencial de disseminação global é muito pequeno, mas, na localidade e nos países vizinhos, isso tem acontecido e chamado a atenção das autoridades.
O senhor colocaria isso como mais uma falha da sociedade no que diz respeito às entidades responsáveis, tendo em vista tudo que vivemos na pandemia, todo o caos que aconteceu, e que se repetem erros ao se negligenciar doenças nas regiões onde elas mais se propagam?
O que chama atenção no ebola é sua alta letalidade: 40% dos indivíduos acometidos acabam vindo a óbito, o que cria uma necessidade urgente de contenção da doença e de investimento em prevenção e tratamento.
Num mundo com distâncias cada vez mais curtas e deslocamentos populacionais frequentes, ninguém estará seguro enquanto todos não estiverem seguros. Estamos vivendo uma globalização, inclusive das doenças, e precisamos mudar de fato o conceito e a cultura para que todos precisam estar protegidos em todos os lugares do mundo, porque só assim conseguiremos manter a população mundial livre de doenças evitáveis e tratáveis, desde que haja investimento.
Nesse panorama global, também tivemos no início do mês uma preocupação com o hantavírus, em decorrência de uma variante que surgiu dentro de um navio. Há motivos para alarde?
Surtos de hantavírus acontecem; o Brasil registra de 30 a 50 casos anualmente. Geralmente, são indivíduos que têm contato com roedores de áreas rurais, o principal reservatório do vírus: pessoas que trabalham em fazendas, armazéns com ratos, depósitos de alimento. Geralmente do sexo masculino, jovens, trabalhadores, são os que acabam se infectando aqui no Brasil.
Existe a variante andina, que tem um potencial de transmissão de pessoa a pessoa mais elevado, ou seja, o vírus tem maior afinidade pelos receptores dos seres humanos e, com isso, a transmissão entre humanos se torna possível.
No cruzeiro que partiu da Antártica em direção à África, um indivíduo infectado acabou transmitindo a doença dentro do navio para outras pessoas. Provavelmente, esse é o caminho epidemiológico pelo qual o vírus surgiu, pois é pouco provável que houvesse roedores infectados dentro do próprio navio transmitindo para muitas pessoas.
A própria Organização Mundial da Saúde acredita nessa fonte humana: alguém que entrou no cruzeiro e acabou infectando outras pessoas com alta letalidade.
É importante destacar que o período de incubação da doença às vezes pode ser prolongado. O indivíduo que adquiriu o vírus pode manifestar os sintomas 15 dias ou até um mês após a exposição. Portanto, todos os que estiveram presentes nesse cruzeiro, que já foi esvaziado e desinfectado, precisam cumprir quarentena. Seis semanas é o tempo normalmente adotado para observar esses indivíduos, a fim de que, ao apresentarem algum sintoma como febre, mal-estar ou dor no corpo, procurem rapidamente um serviço médico para o diagnóstico, pois a manifestação pode ser tardia. Essa vigilância, mesmo após o isolamento, é fundamental para que consigamos evitar casos secundários e a dispersão da doença em outros locais.
Trazendo agora o assunto aqui para o Brasil: estamos em plena campanha de vacinação contra a influenza. Há um panorama de maior contaminação por gripe do que o normal este ano?
Não há dúvida de que a temporada de 2026 começou muito mais cedo do que normalmente acontece com o vírus influenza. A gripe tem uma tendência a iniciar sua circulação aqui no país no final do outono, sendo o inverno o período de maior concentração regular do vírus.
Este ano, de forma bastante atípica, o vírus começou a circular já no final de março, com pico no começo de abril e muitos casos registrados. A variante em circulação era semelhante àquela gripe K do hemisfério norte, ou seja, os deslocamentos populacionais favorecem um vírus com transmissibilidade muito maior.
Acho que acabou coincidindo uma temporada precoce com um vírus de mais alta transmissibilidade, o que fez com que tivéssemos uma explosão de casos aqui no Brasil, emendando com uma segunda onda agora em curso com outro vírus, não o H3N2, mas o chamado vírus B, que já começa a circular no país.
Não sabemos se a temporada vai acabar mais cedo pelo fato de ter começado mais cedo, ou se vai se estender por mais tempo. Modificações climáticas, características dos vírus e aquecimento global têm causado uma certa imprevisibilidade do que pode acontecer a cada temporada. Com as estações cada vez menos bem definidas, favorece-se a circulação de vírus fora do padrão normal.
Vale lembrar que dispomos hoje de uma ferramenta de prevenção importante: a vacina. A vacinação começa sendo disponibilizada aos grupos de maior risco. 70% dos óbitos que acontecem anualmente, no ano passado foram 3.500 óbitos por gripe, ocorrem em idosos, crianças, gestantes e portadores de doenças crônicas. Esses são os primeiros que devem ser vacinados.
Na medida em que a temporada vai avançando, não podemos ficar esperando que toda essa população procure a vacina. Os municípios e o próprio estado acabam muitas vezes liberando para toda a população, para proteger o maior número de pessoas o quanto antes. É melhor proteger mais gente rapidamente do que retardar a vacinação dos grupos prioritários.
Esse balanço sobre o momento de liberar a vacinação para todos é feito de acordo com o número de doses disponíveis e a procura de cada região.
Pensando nas mudanças climáticas e na confirmação de que teremos um fenômeno El Niño, que aumenta as chuvas no Sul do país, é possível que voltemos a enfrentar números assustadores de dengue, a despeito da vacina que começou a ser disponibilizada?
A dengue é uma doença com diversas características, e sua disseminação é função de múltiplas variáveis. Temos quatro vírus de dengue circulando. Quando um deles fica ausente por um período e reaparece, encontra muitos suscetíveis e a tendência é de um número maior de casos.
É fundamental lembrar que, após uma grande epidemia como a de 2024, mesmo que o indivíduo tenha sido infectado por apenas um tipo de vírus, há uma proteção temporária cruzada para os outros três tipos. Então, em geral, há um período de relativa calmaria nos três ou quatro anos seguintes a uma grande epidemia, até que essa proteção cruzada vai se perdendo e a população volta a ficar vulnerável.
Quando há a combinação de um vírus novo entrando, de um tempo decorrido desde uma grande epidemia e de alta infestação de mosquitos, temos a combinação perfeita para uma explosão de casos. É importante monitorar a região, o tipo de dengue circulante e o histórico das últimas epidemias para entender o cenário. O que é fato é que o aquecimento global e a dispersão do mosquito têm aumentado em todo o planeta.
Locais inimagináveis como Argentina, Uruguai, França, Estados Unidos e outros países do hemisfério norte registram casos de dengue, ou seja, há mosquito por lá e há pessoas com dengue por lá. Essa combinação perversa de muita gente doente com muito mosquito é o que exponencia o número de casos.
Precisamos atuar nos dois pilares: reduzir a população de mosquito, continuando nossas intervenções no controle do vetor, e reduzir o número de doentes através da vacinação. Essa combinação fará com que a curva se inverta. Menos mosquitos, menos pessoas doentes, menos força de transmissão e, consequentemente, menos casos.
E quais seriam os efeitos da vacina contra a dengue? Já é possível destacar algum resultado?
As vacinas hoje liberadas contra a dengue no país visam à proteção dos adolescentes de 11 a 14 anos, com a vacina japonesa. Já estamos no terceiro ano de vacinação.
É importante melhorar essa cobertura, que está por volta de 60% para a primeira dose; apenas 40% receberam as duas doses. E ainda contamos com a expectativa de mais doses da vacina do Butantan, que deve começar a vacinar pessoas com menos de 59 anos.
Estamos longe de alcançar resultados de impacto na redução da dengue com a estratégia de vacinação. Uma parte muito pequena da população está sendo vacinada, mas esse é o caminho: aumentar a cobertura vacinal, aumentar o número de doses disponíveis, ampliar o público elegível, atuando nas duas esferas, para diminuir o número de doentes, reduzir a potencialização da transmissão e controlar o vetor.
Passamos por um deserto de vacinação recentemente, principalmente durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, quando nossos índices de vacinação, que eram formidáveis e invejáveis, despencaram de forma abrupta. Qual é a avaliação que o senhor faz agora, no último ano de gestão do presidente Lula?
Estamos recuperando as baixas coberturas que tiveram seu recorde negativo durante a pandemia. Chegamos a ter apenas 70% das crianças vacinadas, ou seja, três em cada dez crianças não estavam com a vacinação em dia.
Um número assustador, que coloca em risco todas as conquistas que já alcançamos na eliminação da poliomielite, do sarampo e da coqueluche. Um trabalho árduo tem sido feito pelo ministério para recuperar um dos pilares fundamentais que sustentam a alta cobertura vacinal: a confiança. Confiança não só na vacina, no produto em si, mas na política pública que coloca essas vacinas à disposição da população.
É fundamental que a população compreenda a importância de buscar informações nos canais oficiais e em meios de comunicação confiáveis, com informação de qualidade.
Houve um grande período de desinformação no país, especialmente relacionado à covid-19, que elevou o fenômeno da hesitação vacinal, algo que já ocorria em outros países. Achávamos que o Brasil era imune ao antivacinismo e, infelizmente, ele prosperou aqui durante o período do negacionismo e deixou muitas famílias inseguras.
As famílias querem o bem dos seus filhos e de sua comunidade, mas estão inseguras para vacinar porque foram contaminadas por essa doença chamada desinformação, digitalmente transmissível e que muitas vezes faz mais vítimas do que os próprios vírus e bactérias.
Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.
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